Marcha para um Futuro Zen – sobre o espetáculo Marcha para Zenturo

Por Flávio Tonnetti

 

“O mais profundo é a pele”. Apenas através do toque é que podemos romper com a superficialidade das relações humanas. Talvez por isso, por propor uma ruptura nas superfícies estáticas e por instaurar um redemoinho nos corpos plácidos, que um simples toque, o roçar de uma mão sobre um rosto, instaure uma violência tão grande no universo quadrado e asséptico dos habitantes de Zenturo.

O espetáculo Marcha para Zenturo – criação do encontro entre o Grupo XIX de Teatro e o a companhia Espanca! – nos empurra para um progresso inexorável rumo ao futuro, colocando-nos face a face com pessoas que não se comunicam e que, no limite, não se encontram. Um palco com muitos atores em constante diálogo, mas que operam como se nos apresentassem pequenos monólogos.

Paródias de nós mesmos, os personagens de Zenturo, vivem alheios ao toque, numa vida que acontece desencarnada. Vivemos num mundo mediado por telas de cristal líquido e por aparelhos de comunicação celular. Fechados em bolhas, ou em páginas de comunidades virtuais, desconhecemos cada vez mais o que seja uma autêntica relação humana.

Ansiamos por uma calma Zen, em que o corpo não seja um obstáculo a emancipação da alma, em que reconhecer-se como humano não seja um fardo, em que a fraternidade não seja mais um compromisso ou uma obrigação que deva ser aceita ou mesmo celebrada, em que as paixões humanas não sejam mais um pathos, e em que possamos viver alijados dos outros e recolhidos em nós mesmos – solitários em nossas próprias esquizofrenias, e nos quadrados de nossos pequenos apartamentos.

A peça, que se passa em um único ambiente fechado, nos põe em confronto com os outros de nós mesmos. O inferno são os outros – e os outros somos nós. Num quadrado, no meio do palco, assistimos a história de uma jovem que recebe em seu lar um grupo de amigos que há muito não se viam. O encontro é motivado pela doença de um deles, para o qual a festa é oferecida.

Estamos no ano novo. E nesse tempo de mudanças e de esperanças renovadas, algo acontece para além dos muros deste apartamento: a cidade está pulsando. Lá fora, vívida, está ocorrendo uma manifestação popular como há muito não se via. Nesta ficção científica, que se passa num futuro do século de 2400, manifestar-se ou articular-se em grupo é ocorrência inédita, conhecida apenas através de relatos históricos – como coisa do passado, estas conglomerações articuladas remontam às manifestações populares de séculos anteriores, como as manifestações civis no Egito, ou os eventos esportivos ocorridos em 2014.

Distantes do nosso tempo atual, os personagens da estória desenvolveram suas vidas em torno de profissões antigas que, não obstante, estão transfiguradas: uma anfitriã historiadora, um fotógrafo, uma designer de moda, um médico – que é também advogado – e um pescador. Suas profissões, inseridas num tempo futuro, revelam uma das principais metáforas propostas pela narrativa: a tentativa de permanência de algo que já não se pode conter ou imortalizar.

A metáfora do tempo que não permanece, ou da História que se transfigura em ficções ou simulacros, está materializada no espetáculo através da presença cenográfica do gelo – elemento que é introduzido na peça por quase todos os convidados. Trazidos de diversos modos e entregues à anfitriã na entrada, os blocos de gelo vão tomando conta da cena e se espalhando, a cada novo convidado, por todos os cantos do apartamento. O único que não traz gelo consigo é o fotógrafo, o que não significa que não será capaz, ao menos, com sua máquina e seus snapshots, de “congelar” alguns momentos. E não se trata de levar o gelo para poder quebrá-lo. Não há nenhuma intenção aqui de “quebrar o gelo”, ou derretê-lo para aconchegar a convivência: trata-se antes de preservá-lo, para esfriar-se e também às relações, para manter as distâncias não apenas entre os corpos, mas entre os verdadeiros afetos da alma.

Mas existe um lugar para os afetos, representado pelos presentes – além do gelo – trazidos por cada um dos visitantes. Os afetos poderiam estar ali presentes por iconografia vintage como a de um coração de veludo ou uma poltrona verde de chenile. Mas ao invés de qualquer signo sentimental padrão, são introduzidos num ambiente ateu pela imagem do Cristo crucificado – um dos presentes trazidos pela estilista para a anfitriã, recolocando a questão do corpo, através do sangue, do suor e das lágrimas – idéia que será retomada mais adiante por outra personagem ao investigar o que é amor; amar é isto: abrir-se através do corpo, sentir-se vivo por meio da carne, ultrapassar a si mesmo nos limites da pele.

A mesma estilista traz sementes para o pescador – que podem ser plantadas em qualquer lugar, como paredes ou sabonetes – traz um bolso para o doutor-advogado, uma coleção de cartas para o fotógrafo, além do Cristo para a historiadora: todos objetos de lembrança. As sementes para enraizar, o bolso para guardar, as cartas para colecionar e compartir em jogos as emoções – como as do Cristo. Todos são objetos que exigem de permanência, retidão e tempo. Objetos de aprofundar relações. O fotógrafo traz como presente uma caixa de vime que não deve ser aberta – não ainda. Presente oculto ou esperança de Pandora? O advogado promete também uma surpresa que será anunciada. O pescador não nos traz nada, além do gelo, muito gelo, e uma arma de precisão para a pesca, uma espécie de espingarda velha. Vem trajado de jeans e camiseta branca, a mais banal de todas as vestimentas, a mais anônima e a mais singular, naquele contexto de coisas modernas. O pescador não traz o presente: traz o passado.

A estética do espetáculo nos impõe diálogos em que todas as falas entre os personagens ocorrem de modo assíncrono, como um delay, ou eco, em que não é possível escutar-se ou reconhecer-se – por isso a idéia de monólogo ou esquizofrenia. Estética que nos obriga a acompanhar um intenso balé de personagens, um labirinto em que não podemos reter nada ou congelá-los. A tarefa do fotógrafo fica mais difícil: como reter aquilo que não permanece estático? Ocorre um processo contrário ao da invenção de Morel de Bioy Casares, em que a fotografia é o passaporte para a imortalidade, em que congelamos a vida em sua integridade como modo de aprisioná-la em um lugar estanque.

Mas a vida também está aprisionada no quadrado gelado de Zenturo. A única segurança que temos nesse futuro contemporâneo é não nos apegarmos a nada, nem aos amigos. O gelo funciona como segurança, como na metáfora de Ralph Emerson, tão utilizada pelo filósofo da modernidade líquida, Zygmunt Bauman, metáfora que sugere que sobre a superfície fina de um lago gelado, a única segurança do patinador é viver em extrema velocidade: quanto mais rápido estamos, mais seguros prosseguimos. Se pararmos rompe-se o gelo, situação em que aprofundar-se significa a morte. Não há tempo para grandes mergulhos. Como não há espaço para os apegos.

Num mundo em que nada permanece e tudo derrete, não há nada o que reter, pois que todas as coisas já estão mortas de sede. Assim o pescador já não tem o que pescar – nunca sequer viu um peixe; talvez tenha visto um, relatado como uma sombra móvel sob as águas, mas disto nem nós, nem o próprio personagem, temos certeza. Talvez seja esta sua doença: buscar por alguma permanência, ainda que escondida, ainda que submersa. A modista, por sua vez, que dá presentes no tempo presente, está alheia a tudo que permanece – o mundo é veloz como a novidade, que se apresenta e que se esquece. Boa representação de uma pós-modernidade líquida, porque efêmera. Nossos sentidos – em sua sensorialidade ou sensualidade – estão deslocados num espaço-tempo indefinido e virtual. Nossos sentidos, nossa atribuição de significados padece do mesmo mal e vivemos num tempo em que não há mais tempo. Findada a morte como um projeto – no futuro seremos eternos – patinamos sem direção.

O médico não enxerga o paciente, para ele o humano é um conjunto de sentenças previamente descritas em códigos já estabelecidos, como estatutos e leis. Nesse sentido sua autoridade é a mesma do advogado, uma autoridade protocolar em que a performance conta mais do que aquilo para a qual foi preparada. Curioso como a autoridade de um discurso totalitário se mantém na vestimenta do personagem – sua camisa é decorada com cartucheiras de balas de fuzil; como aquelas dos velhos cangaceiros, ou militares em campanha. Mas se não há nada mais pelo que lutar, em nome de que nos levantamos? Do lado de fora ficamos sem saber para que direção segue a marcha popular.

Avistada pela janela, temos notícia de que uma mulher caiu no chão, e que houve fogo. Embora ocorra salvá-la, o contato com a multidão, impede que qualquer um dos amigos cruze as ruas para ajudá-la. Inertes na platéia, também nós, enquanto público, estamos fechados em nossas pedras de gelo. A anfitriã, que está grávida, não se dá conta de sua própria condição. O outro não é mais espelho que me reflete, e ninguém mais sabe o que é despontar para a vida. Nascer e morrer são coisas de um mundo distante.

O tempo escapa entre os dedos e escorre pelas mãos. Se tudo se perdeu, sobra-nos nos divertir com nosso próprio gelo, tocar-nos em nosso próprio tempo. O gelo escorrendo é a única experiência táctil autorizada: por isso o gelo é tão importante para a festa: é preciso sentir algo, mesmo que na condição desta impermanência em que nos situamos.

No encontro do não simultâneo, o amigo médico – lembrado pelos seus grandes presentes de fim de ano – contrata para os amigos uma peça de teatro encenada entre as quatro paredes do quadrado. O teatro dentro do teatro é a metalinguagem para nos lembrar que o que está sendo discutido não é metáfora, mas a própria condição humana. Os três atores, que chegam atrasados – culpa da multidão lá fora – encenam Tchecov.

O público então se surpreende com um tipo de encenação extremamente realista, um naturalismo profundo que rompe com a condição caricatural imposta pelos habitantes de Zenturo. Na peça russa, encenada ao modo delivery, dois irmãos e uma irmã discutem o envelhecimento, a duração dos afetos e as transformações da vida. Representam ali, para todos nós – para o público e para o grupo de amigos do futuro – um tempo de permanências, em que fazia sentido falar de luto e celebrar os aniversários. Tempo em que havia espaço para um toque de silêncio.

Findado o espetáculo, os atores tentam ir embora, mas por conta da marcha presente nas ruas não conseguem e são obrigados a retornar para o apartamento daqueles que os contrataram. A marcha das ruas é revolucionária, entre outras coisas, pois pretende fazer 30 segundos de silêncio no momento da virada do ano.

Trinta segundos é muito, e é por isso que quando retornam, os atores causam tanto constrangimento. Que é diminuído com apresentações quase formais, em que se dizem os nomes. Desobrigados de atuar, os atores causam o mesmo constrangimento interpessoal resultante do comportamento caricatural dos demais: são agora iguais aos seus contemporâneos. Está é a única ocasião em que há uma tentativa expressa e conjunta, por parte do grupo de amigos zenturianos, de “quebrar o gelo” – isto porque coisas já haviam sido partidas durante a encenação encomendada de Tchecov. Em um dos momentos posteriores – certamente um dos momentos mais líricos do espetáculo – o gelo é literalmente quebrado com a ajuda de um liquidificador aberto, presente secreto tirado da caixa de vime misteriosa, presente-surpresa trazido pelo fotógrafo – com o qual se faz voar centenas e centenas de migalhas de gelo que tocam as faces e os gestos de todos os personagens, cada qual se deixando tocar ao seu próprio modo pelos pequeninos cristais de água.

Nessa situação em que se reúnem dois grupos tão distintos, surgem alguns pequenos afetos, irritações e diferenças. Percebemos que enquanto para um grupo a situação é de reencontro – os amigos do apartamento – para os três atores a situação é de despedida. Após anos de convívio e permanência o grupo será dissolvido, pois um deles irá empreender uma viagem que o apartará deliberadamente do grupo. A obrigação de estar comprometido aparece como um fardo.

Quem se lembrará de nós? Esses encontros e desencontros, afinal, não nos legaram nada. Juntos não construíram nada. E o que sobrou desse encontro? Se para isso somos feitos: para lembrar e ser lembrados, de que modo seremos vistos no futuro: como aqueles que tentaram ou como aqueles que desistiram. Talvez tenhamos sorte se formos ao menos lembrados. A vida não tem sentido. E não há encontro possível nesse mundo de superfície.

Mas eis que surge um encontro inesperado entre dois daqueles que estão ali reunidos. Por conta dessas micro-discussões – farpas soltas pelo redemoinho dos afetos – descobre-se uma semelhança entre o pescador e um dos atores. Um deles também está doente. Um deles também gosta de caminhar a pé, não teme as multidões e sonhou em ter um barco. A solidão oceânica de estar sobre as águas é, afinal, a tentativa de inserir-se num todo. De abrir-se a experiência do coletivo. Fazer arte é isso, é entregar-se de braços abertos, sofrer nas agruras do corpo, deliciar-se em deleites, sensualizar-se e sensorializar-se. Viver é como a arte.

Cria-se então entre esses dois uma ponte: surge entre os dois o único momento de diálogo sincrônico, real e possível durante todo o espetáculo. Vivem a condição sui generis daquele que se comunica: abrem-se. E partilham do mesmo pão, e celebram algo e dividem a vida – através do pequeno bolo cênico preparado durante a peça dentro da peça: o delivery realizou a arte de entregar algum afeto, que afinal, não estivesse já pronto e que não fosse mera reprodução de algo vazio.

Mas Marco, o pescador, abre-se demais. Abre-se para além de si mesmo e em direção ao outro: encosta suas mãos na face da amiga. Horrorizando todos os outros presentes com seu gesto é constrangido. E acuado, como um ser que sente e por sentir reage, pega sua arma de pescador e ameaça os convivas. Marco, o único que é si mesmo, funda uma crise.  Marco está doente, e sua doença é ser íntegro.

Mas como é impossível ser íntegro num espaço fechado, Marco rompe em direção a platéia com suas pequenas pedras de gelo. Você está aqui? Ele pergunta. Sim, diz a moça da platéia, recebendo em suas mãos uma pequena porção de água congelada. Quem está aqui? Pergunta novamente o ator, voltando-se para todos os presentes. Outra porção de pessoas, então, levanta suas mãos num gesto singelo de que está vivo e participa. Não somos mais espectadores refletidos na projeção de um fundo falso, ou solitários numa câmera obscura. Somos nós também sujeitos e sentimos. Mas quem sentirá conosco?

Quando retorna ao palco, a sensação do outro trazida pela presença de Marco já nos abandona. De volta ao seu quadrado, a vida já não é mais possível. É preciso pescar um peixe, ao menos um. E marco, durante a contagem regressiva para o Ano Bom, usa sua arma como descarga, lançando-se para fora deste mundo. Marco suicida, entre um rumor e um silêncio. Mas já não sentimos nada, pois num futuro zen, estamos anestesiados.

Mortos do Facebook: ensaio sobre memorialismo virtual

Por Flávio Tonnetti

O mundo digital abriu possibilidades para que a vida se manifestasse num novo espaço virtual. Nossas projeções de nós mesmos aumentaram os acontecimentos, registros e manifestações de nossas vidas. O que ninguém contava, no início dos mundos virtuais, é que também se converteriam em um novo lugar para a morte.

No espaço físico do mundo presencial, nos habituamos a lidar com os lugares geograficamente destinados à morte. Na cultura a partir da qual escrevo, criaram-se cemitérios, este tipo especial de lugar circunscrito no interior das cidades inteiramente dedicado a receber os mortos. Administrados por instituições, públicas ou privadas, são socialmente incorporados como espaços memorialistas. Mas de quem são os corpos digitais e a que lugar pertencem os mortos da internet? E como comportar os corpos virtuais vivos daqueles que entre nós morreram?

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Cultura afro-brasileira e educação musical na Escola

Por Flávio Tonnetti

 

Tanto a África quanto a Música vão à escola por força da lei. No Brasil, duas leis diferentes, aprovadas no final da primeira década deste século XXI, condicionam a inserção de determinados conteúdos culturais nos currículos escolares – que estiveram apartados da educação brasileira durante décadas. Uma das leis tenta recuperar a presença da música nas escolas; a outra prevê incorporar ao currículo conteúdos das culturas africanas, entendidas como constituintes de nossa própria história como matriz cultural – numa diversidade de culturas que perpassa nossa linguagem e nossos corpos.

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Educação Musical e tecnologias de Educação a Distância

por Flávio  Tonnetti

 

.Buscando atender uma demanda social, o governo brasileiro promulgou uma lei tornando obrigatório o ensino de música na Educação Básica. A lei 11.769 institui, assim, o reconhecimento da música como conteúdo e prática cultural a ser preservada, mantida e ensinada para as novas gerações. Imediatamente criou-se uma nova demanda por educadores musicais, repetindo na música algo parecido ao que ocorreu em relação ao ensino de sociologia e filosofia, disciplinas que voltaram ao ensino médio também em virtude de uma lei no mesmo ano de 2008.

Para suprir esta demanda por educadores musicais, algumas universidades públicas e privadas passaram a complementar seus bacharelados com habilitações para o ensino e o fortalecimento, ou mesmo a implementação, de licenciaturas em música. Paralelamente a este fortalecimento de cursos presenciais já existentes, houve a adoção da modalidade de ensino à distância para formação de docentes de música – como é o caso da graduação em Educação Musical oferecida na modalidade de Educação a Distância pela UFSCar. Somadas estas ações, tudo nos leva a crer que num futuro próximo, graças à ampliação do número de licenciados em música, possa haver o oferecimento efetivo de música na Educação Básica e a garantia plena da realização da lei.

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Polícia Militar e o Fracasso da Ética

por Flávio Tonnetti

Ocupação da Câmara

Embora muito pudesse ser dito sobre o fracasso da ética nas ações do Estado durante os protestos brasileiros – as chamadas jornadas de junho de 2013 – o que me motivou a escrever este texto foi o que aconteceu durante a ocupação da câmara de vereadores do Rio de Janeiro em setembro, uma reivindicação popular que, como evento, podemos considerar como parte deste processo, como continuação da onda concêntrica das grandes marchas que levaram a população às ruas em luta por melhores condições de vida.

Esta ocupação, feita por professores na câmara de vereadores do Rio de Janeiro, tem um caráter paradoxal de difícil dissolução: ao mesmo tempo em que constitui uma reivindicação popular em oposição ou contra o Estado – que poderia ser traduzida na fórmula “Povo versus Estado” – é também um movimento de cisão no interior do próprio Estado já que os professores da escola pública são agentes estatais – traduzindo-se numa forma “Estado versus Estado”.

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Assistência estudantil e apoio ao conhecimento

Por Flávio Tonnetti

 

Avança-se no campo da assistência estudantil toda vez que consideramos também a educação a partir das necessidades do aluno. Avançamos quando consideramos o suporte ao aluno como um mecanismo necessário para o seu acesso ao ensino e também para sua permanência – tanto no ensino superior, quanto nos níveis de educação mais básicos e elementares.

É por isso que a oferta de merenda escolar, em creches e escolas, não pode ser vista como assistencialismo estatal, ou esmola para os pobres, mas como estratégia de manutenção do aluno dentro deste ambiente escolar: é preciso que coma para que aprenda.

A oferta de merenda visa, portanto, a realização de um objetivo pedagógico: aprender e permanecer na escola. Uma instituição que tem por determinação ensinar e formar seres humanos deve lançar mão de todos os recursos possíveis para atingir este fim. Se sua missão é o ensino, deverá então garantir, de todas as maneiras possíveis, as condições para que o aprendizado aconteça.

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Tempo e experiência docente

Por Flávio Tonnetti

O tempo é o lugar do homem, portanto, é também o lugar da história. E o homem só se realiza na história, porque é somente nas sucessões do tempo, ou das eras, que o homem se inventa. É nas sucessões de tempo que o homem se cria.

Ao contar suas trajetórias e preservar suas culturas, homens que vieram antes ensinam a experiência humana a homens que virão depois. Assim, se o tempo é o lugar da história, é também o lugar da estória.

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Gripe Suína e atraso no retorno às aulas

Por Flávio Tonnetti

Um novo tipo de gripe ocupou o foco principal dos noticiários no segundo semestre deste ano de dois mil e nove. A divulgação de que se tratava de um novo tipo mortal de gripe alarmou a população. Essa preocupação fez com que muita gente “precavida” buscasse modos paliativos de se proteger da gripe – o que aqueceu alguns mercados específicos de produtos hospitalares e farmacêuticos, já que máscaras cirúrgicas e gel bactericida foram vendidos como maneira de evitar o contágio. A gripe, que é um vírus, continuará assolando a espécie humana, e se transformando, não obstante essas medidas inócuas, até que uma vacina eficiente possa ser encontrada. Solução eficaz, mas ainda distante.

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A Educação como Setor Estratégico

Por Flávio Tonnetti

Não é mais possível justificar nossas mazelas a partir da juventude de nosso país. Basta nos lembrarmos de que os EUA surgem aproximadamente na mesma época e que o Japão recuperou-se de uma completa destruição em cerca de meio século. Aliás, alegar que somos um país em construção nunca me pareceu uma justificativa razoável para continuarmos a ser o que somos: um país de medíocres.

É seguro afirmarmos que uma série de condições históricas nos conduziu aos dias de hoje, e que características culturais que herdamos e que desenvolvemos continuam a contribuir para que não alcancemos um status maduro de civilização.

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Qualidade de serviços educacionais e a noção de projeto

Por Flávio Tonnetti

Para Nilson Machado

 

Qualidade é sempre um dos temas abordados e criticados quando o assunto é educação. Na escola pública ou no ensino privado, a qualidade é sempre um ponto crucial. Tema nebuloso, é difícil encontrar um parâmetro universal e adequado que seja capaz de orientar nosso juízo de valor sobre práticas educacionais. Diferentemente de um objeto produzido numa fábrica, que pode ser submetido a testes e validações subseqüentes ao seu processo de fatura, um ser humano, que é o bem maior que figura como resultado de um processo educacional, não pode ser avaliado a partir de parâmetros tão estritos.

Se não podemos avaliar uma dinâmica educacional através do produto que ele gera, podemos fazê-lo, entretanto, se considerarmos a educação como um serviço. Embora esta comparação possa incomodar alguns educadores mais delicados, o lugar que a educação ocupa nos dias de hoje não é outro senão o de uma prestação de serviços, e que inclusive pode ser, e muitas vezes o é, um ramo de negócios muito lucrativo.

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Para o mau profissional de enfermagem

Por Flávio Tonnetti

Há uma dimensão dadivosa preservada ao ofício do profissional de enfermagem. Ele deve entender e alcançar a dimensão da vida no que ela tem de mais frágil. É com a fragilidade que ele lida, todo dia. Ele recebe, ele acolhe, ele limpa: ele acalenta. Ele está lá para cuidar: sua única e primeira função. Ele está lá para o outro, jamais para si mesmo. Enfermagem é sempre “para” alguém e nunca “de” alguém. E se o médico pode optar entre o doente e a doença, o enfermeiro não; para este último só há o doente, e não há nada para ser cuidado que não seja o ser humano. E ele melhora o ser humano. Ele que acalenta, melhora o ser humano naquele gesto que recebe, que acolhe e que limpa. Todo cocô, todo vômito, todo sangue; todo dia – tudo isso que sai das vísceras do ser, do corpo onde habita a vida – é recolhido e reconhecido pelo enfermeiro. Reside aí a metáfora mais bela da profissão, a metáfora diária do enfermeiro, que ele vive e sente cotidianamente: ao reconhecer o que é excremento do homem, ele reconhece também o homem, na sua condição mais visceral: ser que sofre. O enfermeiro pode então reconhecer-se em seu paciente: “estou vivo!” e “sinto e sangro e cago”.

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Produção textual na escola: forma e conteúdo

Por Flávio Tonnetti

I

Os sistemas de escrita, bem como seus gêneros, têm sempre uma finalidade prática. Sempre. Escrevemos porque queremos algo, porque temos uma intenção por detrás do gesto. O ensino da escrita, portanto, deve visar o cumprimento destas diferentes finalidades. Elaboradores de livros didáticos, ou editores que fornecem material para treinamento de professores, todos eles, sabem disto: que cada texto tem uma vocação. O próprio texto didático tem uma finalidade, e por isto tem uma forma.

Reparar nas diferenças e semelhanças entre uma lista de compras, que serve a um determinado fim, e um poema, que serve a um fim bem diverso, pode ser algo instrutivo. Perceber que não é ao acaso que uma carta tenha um formato diferente de um relatório também. No caderno de matemática, uma conta de subtração, que, não nos esqueçamos, também é escrita, é radicalmente diferente de um conto de Machado de Assis. A mesma conta de subtração, no caderno de um mesmo aluno, já é bem diferente de uma conta de divisão, por exemplo. São registros textuais diferentes porque têm finalidades diferentes.

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Metalinguagem: por que a Rede Globo é culturalmente tão poderosa.

Por Flávio Tonnetti

A Globo é, e parece sempre ter sido, a mais poderosa rede de televisão brasileira. A força da Globo não vem apenas de seu capital financeiro, mas de seu capital cultural. Conseguiu ao longo dos anos reunir um corpo de técnicos, escritores, apresentadores e atores de grande destaque – no caso dos atores, quando o virtuosismo não fala mais alto, é certo que a Globo consegue capitanear os mais belos.

Pelas competências que reúne, entre outras coisas, a Globo domina o mercado publicitário televisivo. É a mídia com maior alcance, e por isto mesmo a mais cara. A fonte de renda alimenta o talento e o talento alimenta a fonte de renda. É um círculo virtuoso, portanto. Este talento, é preciso que se diga, é um talento comercial. A Globo, embora seja uma empresa de entretenimento, não se presta a fazer objetos de “alta-cultura”. No entanto, faz muito bem aquilo a que se propõe: seduzir e dominar as mentes dos milhões de brasileiros que a assistem todos os dias.

Esta vocação de mercado que a Globo tem não a impediu, entretanto, de gestar obras-primas. “O Auto da Compadecida“, série que logo foi compilada em filme – e mesmo assim atraiu uma multidão aos cinemas brasileiros – nasceu na Globo. “Hoje é dia de Maria” também. Programas humorísticos ácidos como “TV Pirata” ou “Casseta e Planeta” – este último apenas nos anos iniciais – são outros achados – além do imortal Chico Anísio, claro. Atores como Lima Duarte e Tony Ramos pertencem ainda hoje a esta casa.

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Fundão MTV, a escola escancarada

Por Flávio Tonnetti

Para Flávia Santos

Diferentemente do global “Soletrando” ou do tradicional “Passa ou Repassa” do SBT, que insistem em querem saber qual é o aluno mais inteligente, o programa Fundão MTV, comandado pelo apresentador João Gordo, toca uma questão menos direta: quer apenas descobrir quem é o menos burro. Estamos na busca dos sobreviventes, portanto.

Com o programa queremos saber qual foi o aluno que, apesar de todos os reveses da educação brasileira, principalmente os da educação pública, foi capaz de sair ileso e de passar impune. Por isto mesmo é que, dentro do contexto educacional brasileiro, o Fundão MTV é, dentre todos os programas do gênero, o menos hipócrita.

Nada de crianças bonitinhas. Nada de crianças comportadinhas. Nada de índices escolares dos “mais esforçados”. Embora haja equipes competindo tal qual o clássico “Passa ou Repassa”, o Fundão MTV segue a linha dos programas freaks comandados por João Gordo. Seus participantes muitas vezes se destacam já pelo visual exótico. São rapazes góticos, meninas super pintadas, manos do rap e roqueiros com camisetas em evidência. Estão lá os que se destacam na multidão. Os que têm alguma personalidade.

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Estamos em greve

Por Flávio Tonnetti

Milhares de professores na Praça da República “A greve continua, Serra a culpa é sua”. Ao som destas palavras de ordem, cantadas como um bordão, milhares de professores e profissionais da educação ocuparam toda a extensão da Avenida Paulista e marcharam em direção à Praça da República, onde fica sediada a Secretaria Estadual de Educação. A marcha, que parou o trânsito da cidade, teve por objetivo pressionar o governo para que medidas incoerentes, em relação à Educação Paulista, fossem revistas.

Os professores, em greve deste a última semana, querem a revogação de decretos sancionados pelo governador. Os decretos impedem ao professor a possibilidade de pedir transferência para escolas mais próximas à sua residência e limitam a apresentação de atestados médicos para justificar faltas, contrariando assim o direito ao tratamento médico, assegurado a todo trabalhador.

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