Arquivo de outubro, 2007

Entre a denúncia e o lirismo:
imagens de cidadania em textos de alunos da rede pública

Por Flávio Tonnetti

Na instituição para a qual trabalho, uma das diretorias de ensino do Estado de São Paulo, foi lançado um concurso para os alunos da rede pública cujo tema era “a cidade que nós queremos”. O concurso, que tinha por inspiração modelos bem conhecidos, foi chamado de Jovem Parlamento e tinha como tônica captar dos jovens o imaginário que eles têm da cidade onde vivem bem como as sugestões que poderiam dar para sua melhoria. Tudo de acordo. Tudo perfeito.Boatos informaram que o concurso estaria sendo financiado por um político da região, derrotado nas últimas eleições, e candidato certo para as próximas. Isto, em princípio, não desabona o concurso, que dará como prêmio aos melhores trabalhos um microssistem, um aparelho de DVD e um computador – ao melhor desenho do ciclo I, melhor texto do ciclo II e melhor texto do ensino médio, respectivamente. O patrocínio do político diz respeito justamente aos prêmios. Para as horas de trabalho dos professores e coordenadores pedagógicos e o custo com transporte dos que foram convocados para a divulgação do concurso, nisto arcou o Estado. E tudo vai indo bem. Ler mais »

Usando Malhação para aprender redação

Por Flávio Tonnetti

Muitas vezes professores relutam em trabalhar com conteúdos fornecidos pela mídia televisiva. São poucos os que aproveitam oportunidades de utilizar um Big Brother ou um programa de auditório para fazer uma reflexão. Quando ela ocorre, limita-se, no mais das vezes, ao noticiário.Nova protagonista de Malhação: aluna pobre chora ao ser acusada de roubo numa trama que anuncia conflito de classes

Uma boa oportunidade se apresenta agora com o início de uma nova temporada da novela vespertina Malhação. Explico. A novela, que muito se esforça para ser uma espécie de “bom moço” da televisão brasileira, frequentemente lança em seus capítulos questões éticas das mais diversas, numa tentativa de ensinar “bons valores aos jovens”. Mas neste ponto ela, infelizmente, fracassa, sendo um interlocutor muito fraco pra qualquer um que queira discutir conduta, direitos humanos, ou políticas sociais e ambientais dentro de uma cadeira de sociologia ou filosofia. Para estes fins, muito mais interessantes do que a “novelinha” são as “novelonas” – principalmente quando nas mãos de um Manoel Carlos ou de uma Glória Perez. Ler mais »

ONGs educacionais: o privado na brecha do público

Por Fabrício Barros

A parca qualidade dos recursos humanos resulta da necessidade da massificação do ensino fundamental e médio no Brasil, a partir da Constituição de 1988, a qual garantiu o acesso universal à educação. Seu cunho é ‘democratista’, visto que impõe ao Estado o ônus de solucionar num espaço de tempo exíguo um grande déficit educacional, causando um desequilíbrio estrutural, uma vez que a massificação foi – e ainda o é – promovida mesmo diante da carência de pessoal adequado. Seu resultado mais objetivo é a má formação dos educandos e, não raro, educadores tão mal formados que acabam por agravar o quadro vigente.

Com o objetivo de atingir metas grandiosas de diminuição do analfabetismo, mecanismos bizarros como a ‘progressão continuada’ foram criados. Suas conseqüências aí estão: um incrível contingente de pessoas que formalmente têm o diploma do ensino médio ou fundamental, mas que são, inequivocamente, analfabetos funcionais; a má qualidade dos novos profissionais que se formaram na esteira desse processo, que tende a sedimentar a má qualidade da educação pública. Não é preciso ir a muitas escolas para se notar a obtusidade e a falta de domínio sobre o conteúdo de muitos professores. Ler mais »

Origem do dia do professor

Por Flávio Tonnetti

A expansão do ensino já era assunto do primeiro imperador, Dom Pedro I, quando andava às voltas em erigir uma nação. Afeito a ideais progressistas, “o Libertador”, como ficou conhecido, baixou, em 15 de outubro de 1827, um decreto no qual prometia implementar a educação do império. Com assuntos que iam desde a contratação de professores até as matérias que deveriam ser ensinadas, o decreto trazia expresso que “todas as cidades, vilas e lugarejos tivessem suas escolas de primeiras letras”. A idéia, com aroma liberal, poderia ter sido o primeiro marco educacional que justificasse a comemoração do dia do professor nesta data de 15 de outubro. Mas não foi, já que intenção presente na letra do decreto, não foi levada a cabo.A comemoração do dia do professor surge apenas 120 anos mais tarde, em 1947, no mesmo 15 de outubro – data que é também, curiosamente, consagrado a Santa Teresa D’Ávila, que ficou conhecida entre outras coisas por seu papel como educadora. Ler mais »

A decadência da escola particular:
o que as notas do Enem têm nos mostrado

Por Flávio Tonnetti 

O resultado do Exame Nacional do Ensino Médio, o famoso Enem, tem sido notícia de muitos jornais ao longo do ano. Muitas reportagens usaram os dados para tornar evidente a decadência da escola pública brasileira. Como os jornais noticiaram, na cidade de São Paulo, por exemplo, nenhuma escola pública foi capaz de atingir a marca de 50% de acertos no teste.Por conta dos vestibulares de fim de ano, muitos dos quais utilizarão os resultados do Enem para calcular a nota dos vestibulandos, é bem possível que a discussão, sobre os índices de acerto, volte à tona. Ler mais »

Educação:
quando dinheiro não é problema, nem solução.

Por Flávio Tonnetti

Para qualquer coisa que se queira construir, a estrutura, ensina a construção civil, é condição sine qua non para garantir a boa execução e finalização da obra.No âmbito educacional, podemos nos apropriar dessa metáfora para poder utilizá-la, ao menos, de duas formas. A primeira é tomá-la emprestada quase que num nível icônico e, por semelhança, e também por uma certa falta de criatividade, associar a idéia de estrutura com estrutura física: construção e prédio. Neste sentido, tudo o que fosse considerado material e patrimônio se enquadraria neste conjunto. Livros, vassouras, computadores, panelas, lousas e giz de cera se enquadrariam, todos, na estrutura “material”. Neste sentido, garantir verba para erigir estes castelos de cimento, areia e cal – mais areia do que os demais – sem dúvida é condição necessária para o exercício do magistério. No entanto, o magistério, como muitas vezes nos enganamos, não é só isso – e abrimos aí a brecha para a segunda maneira de utilizar a metáfora da construção – que exploraremos mais a seguir. Ler mais »