Educação:
quando dinheiro não é problema, nem solução.

Por Flávio Tonnetti

Para qualquer coisa que se queira construir, a estrutura, ensina a construção civil, é condição sine qua non para garantir a boa execução e finalização da obra.No âmbito educacional, podemos nos apropriar dessa metáfora para poder utilizá-la, ao menos, de duas formas. A primeira é tomá-la emprestada quase que num nível icônico e, por semelhança, e também por uma certa falta de criatividade, associar a idéia de estrutura com estrutura física: construção e prédio. Neste sentido, tudo o que fosse considerado material e patrimônio se enquadraria neste conjunto. Livros, vassouras, computadores, panelas, lousas e giz de cera se enquadrariam, todos, na estrutura “material”. Neste sentido, garantir verba para erigir estes castelos de cimento, areia e cal – mais areia do que os demais – sem dúvida é condição necessária para o exercício do magistério. No entanto, o magistério, como muitas vezes nos enganamos, não é só isso – e abrimos aí a brecha para a segunda maneira de utilizar a metáfora da construção – que exploraremos mais a seguir.

Uma prova de que a existência de uma estrutura não garante o pleno e bom funcionamento da Educação é o Estado de São Paulo. Aqui, nem sequer podemos lançar mão de uma queixa, muito difundida, de que não há dinheiro suficiente destinado ao ensino, o que atribuiria os percalços educacionais à falta de verba – e, portanto, de estrutura entendida como “material”.

A quantidade de materiais e livros disponíveis em cada uma das unidades escolares paulistas possibilitaria, por exemplo, que pesquisas de grande porte fossem conduzidas em várias áreas do conhecimento – em particular as áreas de matemática e humanidades onde a presença de laboratórios não se faz imprescindível. Toda uma coleção de livros didáticos e paradidáticos, de formação de professores, sobre práticas educacionais e experiências de ensino. Há ainda uma infinidade de clássicos da literatura, de Ziraldo a Rubem Fonseca, de Agatha Christie a Charles Dickens, de Homero a Shakespeare. Surpreendente também é a quantidade de fitas de vídeo que tratam exclusivamente de idéias pertinentes ao campo educacional.

Há, indiscutivelmente, uma infinidade de recursos – e de programas educacionais – oriundos da Secretaria da Educação destinados a resolver os mais diversos problemas – ainda que essas diretrizes quase nunca considerem as dificuldades locais e das comunidades escolares, recursos há; e boas intenções, também. Mas boas intenções não bastam, mesmo quando o dinheiro é muito.

É preciso investir em gente, é preciso preparar gente. No âmbito da educação, se não faltam materiais e patrimônio, o capital humano deixa ainda muito a desejar. E neste ponto é preciso fazer uso da outra maneira de entender “estrutura” no contexto educacional. Para utilizar a estrutura física é preciso que exista uma estrutura humana à altura. A noção de estrutura, nossa metáfora, move-se da Física para a Sociologia, ciências distintas na natureza de seus objetos.

Como a estrutura física abunda, mas a humana fenece, as bibliotecas escolares, em vários locais, permanecem fechadas e os livros dentro de caixas. Os diversos computadores enviados às unidades quebram logo e, por falta de alguém competente para repará-los e atualizá-los, se amontoam como sucata. E isso acontece porque não temos profissionais formados adequadamente para usufruir e utilizar os recursos materiais que estão à mão. A estrutura humana, portanto, desbanca a estrutura física de seu lugar de essencial, retirando desta o status de sine qua non – ou antes o tomando, justamente, para si.

Experiências como a Escola da Ponte, de Portugal, afirmam a preponderância do humano sobre o predial. A pirâmide a ser construída é uma pirâmide de homens, e não de pedras como a egípcia – embora a educação também habite um deserto.

Dinheiro, no caso paulista, não foi a solução, talvez por um certo desvio de visão, uma miopia, que torna incapaz enxergar corretamente a imagem fornecida pela metáfora. Aplicar este dinheiro não nas coisas, mas nas pessoas seria uma saída. Saída que poderia ser tomada mesmo do ponto de vista positivista – caso algum veja a medida de investir no humano como uma medida humanista e, por conta disso, se recuse a atuar em prol do homem.

Investir na melhoria da condição humana a partir do homem é uma medida positivista porque nos permite pensar em “capitalizar” a sociedade. Investir no profissional não seria então desperdício de dinheiro, aplicação sem retorno, mas investimento altamente lucrativo. Uma medida que poderia agradar a esquerdistas, pelo seu caráter humanista, e direitistas, pelo seu caráter positivista. Uma medida que agradaria a gregos e troianos e que faria um bom uso do dinheiro, sem deixar de investi-lo na tão aclamada estrutura, agora entendida em um outro sentido.

6 comentários

  1. Fabrício Barros | 24 de Maro de 2019 | 

    A parca qualidade dos recursos humanos resulta da necessidade da massificação do ensino fundamental e médio no Brasil, a partir da Constituição de 1988, a qual garantiu o acesso universal à educação. Seu cunho é ‘democratista’, visto que impõe ao Estado o ônus de solucionar num espaço de tempo exíguo um grande déficit educacional, causando um desequilíbrio estrutural, uma vez que a massificação foi – e ainda o é – promovida mesmo diante da carência de pessoal adequado.

    Seu resultado mais objetivo é a má formação dos educandos e, não raro, educadores tão mal formados que acabam por agravar o quadro vigente.

    Com o objetivo de atingir metas grandiosas de diminuição do analfabetismo, mecanismos bizarros como a ‘progressão continuada’ foram criados. Suas conseqüências aí estão: um incrível contingente de pessoas que formalmente têm o diploma do ensino médio ou fundamental, mas que são, inequivocamente, analfabetos funcionais; a má qualidade dos novos profissionais que formaram-se na esteira desse processo, que tende a sedimentar a má qualidade da educação pública. Não é preciso ir à muitas escolas para se notar a obtusidade e a falta de domínio sobre o conteúdo de muitos professores.

    Com o nossa legislação educacional extremamente liberal, o descrédito do ensino público e gratuito tende a aumentar. Aqueles que podem pagar, seguem para o ensino privado. A classes abastadas podem dar as costas ao problema; o trabalhador urbano ou jovem estudante que queira se livrar dessa teia sufocante, recorre, no término do ensino médio a cursos pagos para complementar sua formação na esperança de entrar numa boa instituição de ensino superior.

    Assim cria-se um círculo vicioso, que engendra um mercado altamente lucrativo de cursos vestibulares, de escolas privadas e faculdades particulares que fazem não mais que aumentar a desigualdade social. O outro lado da moeda é a indústria de ONG’s pretensamente preocupadas com a melhoria do ensino.

    ONG é um nome obscurecedor para entidade privada. Recebem verbas públicas do Estado sem que suas contas sofram auditoria pública. À elite econômica interessa existência dessas instituições altamente duvidosas: elas abatem do imposto de renda as doações que fazem às ONG’s, diminuindo ainda mais as rendas do Estado. E quais são os resultados práticos das “políticas educacionais” promovidas por esses Frankensteins? Quem não se recorda dos “Circos Escola”? Seu resultado prático mais expressivo foi colocar nas ruas, por exemplo, nos semáforos da capital paulista pedintes malabaristas. E quem ganhou com isso? Os diretores das ONG’s, que mantiveram seus gordos salários e as empresas que os financiaram. E quem perdeu? A sociedade.

    Todas as ações presentes e forma como as políticas públicas tem sido implementadas apenas privatizam o problema. A carência de qualidade dos quadros continuará a persistir caso uma medida drástica não seja tomada.

    Esta passa, inexoravelmente, por uma reorientação de toda a legislação da e da atribuição exclusiva do Estado da responsabilidade de prover o ensino em todos os seus níveis. Dessa forma, não haverá possibilidade da elite virar-se para entidades que lhe sejam exclusivas, todos estarão no mesmo sistema. É a única forma de alterar o quadro vigente. E somente será possível com forte mobilização democrática. Ou pela força, coisa que no marco do Estado Democrático de Direito, não é possível.

     
  2. vanessa reis | 24 de Maro de 2019 | 

    como são precisos estes meus amigos.

    bacana aqui, flavio

    beijomeliga

    ah, vou pra santos.

     
  3. davi roque | 24 de Maro de 2019 | 
  4. marcos muniz | 24 de Maro de 2019 | 

    bill gates tem dinheiro mas quis diploma.
    Material + representação( simbolico) = luta por reconhecimento?
    curso do ricardo terra… axel honnet… lembra?

     
  5. O que é uma boa educação? | Diário do Professor (Pingback) | 24 de Maro de 2019 | 
     

    [...] a) Quando dinheiro não é problema, nem solução. [...]

     
  6. Natalia Frazão | 24 de Maro de 2019 | 

    Até o curso de administração da faculdade FECAP, em que estou estudando , alguns bons professores ainda estão insistindo aos alunos: “É preciso investir em gente, é preciso preparar gente”. Ao invés de sair com diplomacia ou só pensar o que quer por si mesmo.
    Mas infelizmente, muitos desses alunos ainda estão com problema de visão miopia diante de realidade…

     

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