Usando Malhação para aprender redação

Por Flávio Tonnetti

Muitas vezes professores relutam em trabalhar com conteúdos fornecidos pela mídia televisiva. São poucos os que aproveitam oportunidades de utilizar um Big Brother ou um programa de auditório para fazer uma reflexão. Quando ela ocorre, limita-se, no mais das vezes, ao noticiário.Nova protagonista de Malhação: aluna pobre chora ao ser acusada de roubo numa trama que anuncia conflito de classes

Uma boa oportunidade se apresenta agora com o início de uma nova temporada da novela vespertina Malhação. Explico. A novela, que muito se esforça para ser uma espécie de “bom moço” da televisão brasileira, frequentemente lança em seus capítulos questões éticas das mais diversas, numa tentativa de ensinar “bons valores aos jovens”. Mas neste ponto ela, infelizmente, fracassa, sendo um interlocutor muito fraco pra qualquer um que queira discutir conduta, direitos humanos, ou políticas sociais e ambientais dentro de uma cadeira de sociologia ou filosofia. Para estes fins, muito mais interessantes do que a “novelinha” são as “novelonas” – principalmente quando nas mãos de um Manoel Carlos ou de uma Glória Perez.

A grande vantagem de malhação é justamente sua “pobreza” literária. É sempre o confronto do Bem contra o Mal, polarizado em personagens arquétipos. Não há conflito interno relevante, o Bem e o Mal não dividem espaço num mesmo personagem, estão sempre separados: bandidos e mocinhos não se bicam.

Perpassando esta divisão há sempre um Amor por se realizar. Um casal romântico, do lado dos bonzinhos, será separado por uma dupla má que disputará os pares desse amor, que deverá se unir novamente no final da trama. É uma formula gasta, mas de sucesso. Rigorosamente assentada em técnicas de como construir um roteiro.

Para aproximar a trama do público alvo, é eleito um cenário jovem: no passado distante foi uma academia – por isso o nome “Malhação” – hoje é uma escola. Os últimos roteiristas têm também nomeado um esporte que será exaustivamente praticado pelos personagens, talvez para preservar a origem do nome.

No seriado, os núcleos são bem definidos – seguindo a polarização pobre-rico; que promete render muitos frutos na “luta entre classes” nesta nova temporada – e as seqüências externas também têm seguido um padrão: os personagens viajando no período de férias e enfrentando alguma injustiça social ou um crime contra uma comunidade desfavorecida. É nestas ocasiões que há a deixa para que uma nova temporada da série se inicie.

Desde o início sabemos quem vai terminar com quem, quem brigará com quem e quem são os maus que irão de recuperar – a moral é sempre a de que o crime não compensa. Muitas podem ser as críticas dirigidas a esta fórmula batida, mas nada nos impede que vejamos as realizações técnicas do seriado: boa imagem, boa edição, boa direção – tão boa que é capaz de nivelar atores de capacidades tão distintas e de diferentes procedências. Por conta disso, não podemos tirar o mérito da “novelinha”.

Embora não acompanhe as realizações técnicas, a narrativa pobre é útil em sala de aula, porque permite que os alunos percebam nela a estrutura da construção da trama – bem como sua repetição. É uma boa deixa para um professor de língua portuguesa exercitar o gênero do roteiro, tão preterido. Nas salas de aula costuma-se focar os trabalhos de escrita na crônica e no conto, algumas raras vezes no ensaio. O roteiro, justamente mais próximo dos jovens por conta das novelas e filmes americanos, é esquecido. Poderia ser utilizado como um meio de chegada ao texto teatral – ou às artes cênicas. A televisão neste sentido poderia ser utilizada como porta de entrada para outros gêneros do discurso e para outras artes, mas nos esquecemos disso.

Incentivar a criação textual dos alunos por meio da fatura de uma novela aos moldes de Malhação pode ser algo muito estimulante para os alunos – que poderão tentar filmar ou encenar seus próprios roteiros numa confraternização de fim de ano. Utilizando a estrutura básica de Malhação – o Bem contra o Mal entre a união amorosa – podemos abrir a porta para o desenvolvimento de um senso crítico. Os alunos não vão se esquecer destas lições na próxima vez que mirarem o videoclipe na tevê ou o herói americano da telona. Com o benefício adicional de se sentirem mais familiarizados com a saga shakespereana de Romeu e Julieta quando esta, finalmente, lhes cair em mãos.

4 comentários

  1. Josefina Neves Mello | 24 de Maro de 2019 | 

    Oi, Flávio

    Mesmo sem ler totalmente o conteúdo do blog posso deixar os parabéns. Já coloquei nos favoritos. ;)

     
  2. marcos muniz | 24 de Maro de 2019 | 

    seguinte mano eu trabalho Cap. 4 versiculo3 dos racionais.
    “vim pra sabotar seu raciocinio vim pra abalar seu sistema nervoso e sanguinio” escuta la depois comenta.

     
  3. Natalia Frazão | 24 de Maro de 2019 | 

    Flávio, apesar de que eu não entendo nada da novela Malhação, percebo que o seu texto pode ser uma boa idéia para icentivar aos jovens, quem gostam de assistir a essa novela, aprenderem mais com gêneros literários, teatrais ou de arte dentro da escola.
    Até que você poderia mandar sua sugestão ao elenco de Malhação ou algo assim.

     
  4. Danielle Gomes | 24 de Maro de 2019 | 

    Oiie Profe

    Como eu assisto de vez em quando Malhação confirmo suas palavras e concordo que nós alunos deveríamos criar esse tipo de gênero “novo” em sala de aula. Seria uma experiência diferente!

     

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