Entre a denúncia e o lirismo:
imagens de cidadania em textos de alunos da rede pública

Por Flávio Tonnetti

Na instituição para a qual trabalho, uma das diretorias de ensino do Estado de São Paulo, foi lançado um concurso para os alunos da rede pública cujo tema era “a cidade que nós queremos”. O concurso, que tinha por inspiração modelos bem conhecidos, foi chamado de Jovem Parlamento e tinha como tônica captar dos jovens o imaginário que eles têm da cidade onde vivem bem como as sugestões que poderiam dar para sua melhoria. Tudo de acordo. Tudo perfeito.Boatos informaram que o concurso estaria sendo financiado por um político da região, derrotado nas últimas eleições, e candidato certo para as próximas. Isto, em princípio, não desabona o concurso, que dará como prêmio aos melhores trabalhos um microssistem, um aparelho de DVD e um computador – ao melhor desenho do ciclo I, melhor texto do ciclo II e melhor texto do ensino médio, respectivamente. O patrocínio do político diz respeito justamente aos prêmios. Para as horas de trabalho dos professores e coordenadores pedagógicos e o custo com transporte dos que foram convocados para a divulgação do concurso, nisto arcou o Estado. E tudo vai indo bem.

Das mais de cinqüenta escolas da região, chegaram-nos apenas 28 trabalhos, três deles desenhos. Salvo os problemas de escrita dos alunos, bem sabidos de todos nós, o material apresenta características interessantes, dignas de nota. É que os textos dos alunos estiveram sempre oscilando entre uma visão bucólica da “cidade que queremos” e um caráter acentuado de reivindicação política. Pelo que vimos nestes trabalhos, não tem meio termo: ou é lirismo ou é denúncia.

Dos textos líricos, o que se pode dizer é que a maioria deles associa a idéia de uma “cidade” boa com a imagem de uma “cidade rural”. Num texto intitulado “Cidade Surreal”, de uma aluna do ensino médio, desponta, por exemplo: “A cidade que moro é extraordinariamente bela. A minha casa fica depois da ponte de pedra que está acima de um rio com água puramente cristalina. Há muitas montanhas por aqui e lá de cima a vista é lindamente esverdeada”. Em outro texto, agora de oitava série, de outra aluna sonhadora, nos ilumina com um ar campestre: “Abri a janela do quarto e vi alguns pássaros e crianças brincando”. Tão afastadas que estão da realidade vivida no cotidiano da periferia das grandes metrópoles, tais cidades só podem pertencer mesmo ao domínio do onírico – por isso mesmo uma das autoras escolhe chamar a sua de “surreal”.

Ainda que imaginativas, é importante notar nestes casos as correlações entre a realidade e a ficção; e ver como essa imagem primaveril vem também associada à idéia de preservação ambiental, principalmente presente nos textos que reclamam da poluição dos rios e do ar, próprias da condição urbana – o que nos mostra que os professores de ciência têm se esforçado bastante em transmitir certas idéias.

Não é raro que esta visão lírico-romântica venha fundida ao ambiente urbano – ainda que reinterpretada. Mais à frente, no mesmo texto da aluna de oitava série, se vê: “Cheguei no shopping e na porta dele estavam vários palhaços e mágicos”. Pode ser aí uma realidade urbana reconstruída: existem shoppings para esta aluna, e é possível ver palhaços e animadores em frente às lojas do calçadão de compras, mas eles, infelizmente, não estão lá para nos alegrar ou nos fazer sorrir, senão para nos vender. Na metrópole, os pássaros dão lugar às placas dos cantores sertanejos, ansiosos por nos vender à prestação; e o palhaço, quando existe, nada tem a ver com circo: é apenas “mais um”, um empregado tentando sobreviver com microfone na mão, à frente das Casas Bahia.

Na outra face da produção textual dos alunos, a reivindicação pela melhora da coisa pública é mais enfática: “a falta de verbas, de planejamento, de compromisso e até mesmo de boa vontade nos sujeitam a viver em condições precárias e nos levam a se adaptar a determinadas situações”. Enviado por um aluno do ensino médio, o texto, intitulado “Os políticos de nossas vidas somos nós” apresenta ainda uma comparação dura, bem exemplar da disparidade social brasileira: “em muitos lugares o saneamento simplesmente não existe; as casas são de madeira; as calçadas são sobrecarregadas de entulhos – isso quando há calçadas – e por incrível que pareça, a menos de um quilômetro de distância encontramos grandes casarões bem engenhados, ruas asfaltadas e com um saneamento invejável”.

Embora lidem com a realidade de modo diferente, nenhuma dessas crianças parece ser boba. Nem os adultos: o único texto enviado por um aluno do EJA – uma mulher, que no texto pede escolas de formação técnica para adolescentes e lazer cultural para a periferia – nos brinda com o conhecimento de quem perambula pela cidade em busca dos serviços públicos: “nos postos quase nunca tem médico; não adianta construir grandes prédios e não ter especialistas; os profissionais da saúde deveriam ser melhor remunerados”.

Ainda que muitos textos reivindiquem uma melhor postura e previdências dos políticos, muitos deles já dão sinais de uma compreensão mais apropriada do que seja cidadania, nos convidando a participarmos como agentes da transformação social. Neste sentido, a educação cumpriu seu papel, que é o de fazer “compreender a cidadania como participação social e política”, “adotando, no dia-a-dia, atitudes de solidariedade, cooperação e repúdio às injustiças, respeitando o outro e exigindo para si o mesmo respeito”, como está expresso na letra dos parâmetros curriculares nacionais.

O próximo passo a se esperar destes alunos é que eles possam, tendo incorporado o conceito de cidadania, encontrar seu lugar na teia social, que não fiquem à margem. De algum modo eles sabem que têm seus direitos sendo negados. A imagem de felicidade, que é vista na televisão, de algum modo os indica que alguma coisa está errada: a foto do sanduíche é muito melhor do que o sanduíche mesmo, quando nos chega à mesa.

Neste confronto entre o ideal e o real surgirá, com sorte, um grupo de jovens capaz de começar a fazer valer os seus direitos: a começar pela própria escola. Logo, o aluno que entendeu o que é cidadania, será um fiscal de sua própria educação, uma pedra no sapato dos gestores, e com o tempo talvez não aceite que um prêmio que teve como tema o despertar da consciência política seja entregue pelas mãos de um futuro candidato. No fundo, o que se espera é que eles percebam que, lá no fundo, não vai nada bem – e que se oponham veementemente.

Com isto, é possível que este meu texto junte-se ao time dos sonhadores, já que, talvez, seja muito esperar tudo isso de jovens ainda incipientes mesmo no ato da escrita. Mas o que fazer se nada podemos esperar dos que coordenam as estruturas de ensino? Talvez possamos aprender alguma coisa com os textos dos jovens e incorporar, em nossa escrita, aos poucos, algum caráter de denúncia.

1 comentário:

  1. PIETRO MATARAZZO | 24 de Maro de 2019 | 

    MUITO BOM
    PARABENS

     

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