Ballet na escola pública

Por Flávio Tonnetti

Celebrando um convênio entre a Secretaria da Educação paulista e a companhia de dança Ballet Stagium, as escolas públicas de São Paulo vêm recebendo apresentações itinerantes de dança. O espetáculo “Coisas do Brasil”, escolhido para tais apresentações, funda uma experiência nova de aprendizagem. Uma experiência não livresca.Cena do espetáculo 'Coisas do Brasil'

Utilizando outras formas de narrar que não a palavra, o balé nos ensina algo. Lembra-nos de que o corpo está vivo; e que comunica. Aqui, o gesto também é palavra e a palavra, não esqueçamo-nos, só acontece enquanto gesto: na voz que baila ou no papel pela mão cristalizada.

A coreografia deste espetáculo conta, com movimentos, a história brasileira desde suas raízes indígenas. Está tudo lá: desde a chegada dos portugueses até a abertura do Brasil para os capitais externos nas metades do século passado, particularmente os norte-americanos. Nem mesmo o movimento de migração em massa das populações nordestinas para o sudeste ficou de fora. Tudo dito sem palavras.

O espetáculo, obra do engenho de Décio Otero, também enfatiza, com humor e ironia, a mistura de raças. Padres que sucumbem às paixões da carne e índios que se deslumbram com traquitanas de além-mar. A tríade branco-negro-índio atravessa a mistura que vai se dando, da primeira missa ao candomblé. E os pares de opostos se desvelam: rigor e desleixo, dureza e suavidade, luta e dança.

Usando trios e duetos, o balé nos prova que somos, afinal, miscigenados. Frutos do embate entre culturas e da carne das culturas no embate entre os corpos – com consentimento ou não, com dureza ou não. Somos pares de opostos. Dos que de lá vieram, mas de nós mesmos: a migração nordestina estava ali para mostrar o quão opostos continuamos sendo.

Na ocasião em que vi o espetáculo, muitos dos alunos da escola que recebeu a apresentação neste dia, antes da apresentação começar, reclamavam, com preconceito, do balé que seria visto. Mimetizando gestos que desconheciam, faziam uma caricatura da concepção corrente de balé clássico: chato, elitista, com mocinhas cor-de-rosa.

Para surpresa destes alunos, que ficaram deslumbrados e estarrecidos ao final do espetáculo que assistiram, o balé não é nada disto. Viram que se enganaram – e seus preconceitos caíram por terra. Gostaram da dança que conheceram, a mesma dança que não gostavam – num curioso desgosto daquilo que não se conhece.

Para nós, é impossível dizer se o que derrubou o preconceito foram os belos corpos de homens e de mulheres que face aos jovens desfilaram – ideais de beleza e força em qualquer Era; inclusive nas televisões de hoje – ou se foi a possibilidade de ver uma aula inteira por meio de arte e gestos, revivificando a experiência discente – e docente – fora, e para além, da sala de aula – chata e burra. Tiveram, deste modo, a oportunidade única de aprender História, Artes e Educação Física de um jeito diferente. E aprendendo como quem dança: gostando.

Este desconhecimento dos alunos, esta ignorância, do que seja uma forma de arte como a dança, faz com que percebamos o quão negligenciados estão sendo os jovens em relação ao contato com múltiplas formas de expressão artística. Quem de nós lembra-se, afinal, de ter tido aula de dança durante as matérias de artes ou educação física?

Essa diferença de acesso aos bens culturais nos mostra o quão desiguais continuamos sendo. Como sociedade, continuamos opostos.

A companhia de dança leva tudo o que necessita para a escola – que não precisa fornecer nada além de um espaço coberto e do público. Técnicos de som e elétrica também integram a companhia para viabilizar a trilha sonora – também estes fazem seu trabalho com a precisão de bailarinos. Tudo é feito no tempo certo, mostrando que arte também é técnica: nos palcos e por detrás deles. Arte é trabalho – não só para os artistas.

E enquanto o palco é preparado e os bailarinos se alongam, fica claro, para quem assiste ao espetáculo neste contexto, que esta visita não proporciona apenas uma experiência artística. A montagem e o breve ensaio, feito antes do espetáculo, ensina aos alunos uma nova maneira de vida: o balé apresentado como profissão.

Enquanto o corpo de baile se prepara, conduzido por Décio, um mestre à frente dos alunos, Marika fala do espetáculo que acontecerá. Este making off, já que o que podemos ver é também o que acontece por detrás das coxias – inexistentes, porque o espaço é aberto – nos ensina sobre uma profissão diferente da idéia de profissão com a qual estamos acostumados a lidar.

Profissão como fruição. O que em momento algum significa desregramento, mas ao contrário: dignifica a ‘disciplina’ a serviço de algo. O que eles têm, nos minutos anteriores ao início do espetáculo, é a possibilidade de ver como é o dia-a-dia, o preparo, do bailarino. Uma nova maneira de ser e estar no mundo: arte maior dada pela arte do encontro social com o outro.

O grupo de alunos que viu a apresentação foi um grupo reduzido, penso. Muitos alunos não foram convidados com receio de que o espaço fosse insuficiente. Não foi. Houve folga.

Também se recomenda que, no dia da apresentação, a escola fique aberta para a comunidade. O mesmo receio de superlotação fez com que a escola não ficasse aberta. Nunca fica.

Ao fim, a equipe de bailarinos e técnicos vai para uma sala preparada pela direção da escola, para tomar um lanche e conversar sobre o projeto. É nesta oportunidade que Marika e Décio esclarecem dúvidas e contam a história do balé. Neste momento, um importante convite é feito aos professores: o curso “professor criativo”, oferecido pelo Stagium aos professores da rede pública, é apresentado.

Trata-se de um curso no qual se poderá tomar contato com técnicas de expressão corporal das mais variadas; da esgrima ao hip hop. Conduzidos pelos mais renomados profissionais, os professores da rede poderão ter a chance de passear pelo universo das danças circulares, dos ritmos marajoaras, do sapateado e da capoeira. O balé clássico convive com o axé music. A experiência, fundadora e inesquecível, de participar deste curso, foi, para mim, até agora, a única vantagem de lecionar no serviço público.

Ademais, a notícia da apresentação na escola, e de que o Ballet passou pela cidade, saiu, em pequena nota, num pequeno jornal local, convidado para o evento pela própria direção escolar. A matéria saiu com erros de português.

3 comentários

  1. Mariana Tavares | 24 de Maro de 2019 | 

    Para tornar a árdua realidade da escola pública brasileira mais doce e interessante, nada pode ser mais propício que a chegada do ballet como instrumento de interação, cultura e beleza. A constância dessas iniciativas de certo tornará o nosso cotidiano muito mais suave e encantador. Parabéns Flávio! Como professora universitária, também acredito que a educação é a salvação do Brasil e de todos nós.

     
  2. cinthia pinheiro de santana | 24 de Maro de 2019 | 

    este trabalho e muito importante e muito interessante se cada um fizesse um pouquinho acabava virando um montao

     
  3. Natasha | 24 de Maro de 2019 | 

    You write very well.

     

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