A Linguagem das Flores
de Federico García Lorca

Por Flávio Tonnetti

O teatro da vida é o teatro do tempo. E Lorca, como todo grande escritor, soube explorar muito bem este tema. E como toda boa montagem, “A Linguagem das Flores”, da Cia. Ópera do Mendigo, soube dar ao tema o tratamento por ele merecido.Teve o mérito, sobretudo, de preservar a atmosfera de Granada, e as cores de Alhambra. A aura do “castelo vermelho”, com seus jardins, é a citação perfeita para a passagem do tempo. Tanto sua coloração, que muda conforme o dia, proporcionando o espírito impressionista da catedral de Rouen, do pintor Monet, quanto os diversos passeios entre os jardins do castelo de Alhambra, ermos e convidativos aos namorados, montam a circunstância perfeita para discutir a passagem do tempo com a metáfora da rosa que muda de cor e desfalece em um dia.

A peça é a história de uma jovem moça que é criada pelos tios. Seu tio é um criador de rosas que descobre uma rosa especial, que vive um só dia, que se abre vermelha como sangue pela manhã, passa pelo laranja, fica violeta, branca ao fim da tarde e, quando a noite chega, finalmente se desfolha, e morre. Há um caminho, da metamorfose ao desfalecimento. A rosa, efêmera, é como a Alhambra vista do bairro judeu. Mas é também o homem em sua condição de ser vivente. E que na peça é Rosita, a jovem, que tendo acreditado num amor que vai pra longe, vive uma espera eterna; é enganada pelo homem amado e tem seu coração partido. Uma história de perdas, portanto; de vidas que se desfolham.

Perdas que também estão bem representadas na Granada de Alhambra, palco de disputas humanas, dos conflitos históricos, das cruzadas – e que na peça de Lorca não são entre povos, mas dentro dos próprios sujeitos, dos seres humanos.

É curioso que a peça seja caracterizada como comédia – algo que de fato é: social e de costumes – já que a impressão que temos é de que estamos numa montanha russa, tantas as emoções que ela nos desperta. Nós rimos e choramos. E enquanto assistimos à peça, fazemos o que fazem os personagens: vivemos!

Neste ponto, dá um show de interpretação a atriz Rosi Silva, que encena a empregada da família, que oscila com maestria do cômico ao trágico, nos fazendo rir e nos fazendo lamentar, em intervalos de segundos. Também o tio florista merece menção, interpretado pelo diretor Fernando Grecco, que soube captar a delicadeza do sábio que vê com prazer e pesar o desenvolvimento das vidas: sejam elas rosas ou mocinhas – flores de igual beleza.

Impressionante também é a beleza da atriz Priscila Silvério, que faz Rosita, e que tem no clímax da peça o seu grande momento. Emociona, mas lhe falta ainda a regularidade que confere o título de mestre aos grandes atores. Como para a personagem, o tempo de espera será ainda longo para a atriz de Rosita.

Palmas para a direção de Grecco que, equilibrada, soube aparar as arestas e equalizar atores de diferentes níveis. E que soube conduzir a elaboração de um cenário que nos trouxesse a atmosfera – quase o cheiro de lavanda – da Granada de Lorca. Salvas também para Palomares, responsável pelo mesmo cenário e pela bela voz na trilha do espetáculo: um deleite para quem aprecia a música espanhola de orientação andaluza.

A música também é um espetáculo à parte. E é extremamente importante que seja deste modo, já que a relação de Lorca com a música também é da ordem do sublime. Não fosse o desempenho irregular do violoncelista, poder-se-ia ir ao teatro apenas para contemplá-la, ainda que o espetáculo fosse um completo insucesso. Algo que não é.

Curioso como, em alguns momentos, nos deparamos com questões ainda muito atuais, como a discussão entre “vida natural” versus “progresso”, que hoje poderia ser tomada dentro de um panorama ambientalista. Curioso também é a discussão sobre educação, atualíssima: “trocaram a boa educação por dinheiro”, fala o professor ancião; “eles pagam e não podemos castigá-los. São filhos de ricos”. Algo que em tudo se assemelha à situação de nossa formação e valores, da educação transformada em comércio.

Além da atualidade de certos temas, figuram na obra os sempre universais da dramaturgia: a saga do amor não realizado, o conflito de casais, a decadência da nobreza, o conflito de classes, a morte e a traição.

Por isso e mais, é que vale muito a pena ver a montagem em cartaz no Teatro Maria Della Costa. Uma comédia não do cômico, mas do trágico que nos faz humano, de um riso que nos faz enxergar a nós mesmos. Um espelho que nos faz retomar o significado da palavra Piedade, idéia final com a qual a montagem termina.

2 comentários

  1. .sabina | 20 de Maio de 2019 | 

    caro flávio, comento o seu texto e a peça usando o trecho de um poema de minha autoria…

    ‘fosse meu o amor
    (…)
    não seria essa morte que nunca empalidece, deixa rubor na face ao cravar seu punhal,
    sangra o céu e o lençol da virgem eternidade ‘

    e ainda acrescento — da trilha da peça:

    te vas Alfonsina
    Con tu soledad
    ¿Qué poemas nuevos
    Fuíste a buscar?
    una voz antigüa
    de viento y de sal
    te requiebra el alma
    y la está llevando
    y te vas hacia allá
    Como en sueños
    Dormida, Alfonsina
    Vestida de mar

    //ao tudo tanto quanto um vento, e uma alma fingida. e uma dor aguda. culpa do Lorca. pra mim caro flávio soam sim, essa peça, impiedade.

    uma brava reflexão sobre o tempo e sobre a vida.

     
  2. Paloma | 20 de Maio de 2019 | 

    Olá caro leitores o meu nome é Paloma e gostaria de saber
    como eu faço para poder assistir essa peça novemente.
    A primeira vez que eu assisti essa peça eu chorei muito e amei e foi por causa dessa peça que eu tomei uma decisão na minha vida, decidi que no dia que eu acabar o ensino médio vou fazer faculdade de artes sênica e ser professora de dança, esse é o meu maior sonho e eu sei que um dia vai ser realizado porque Deus está sempre do meu lado. E aguardo resposta.
    Assinado: Paloma

     

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