Sobre um painel “fofinho”

Por Flávio Tonnetti

Parte I

*

Conheci uma escola numa cidade grande, cinza e esquecida: uma escola numa cidade sem graça. Uma escola que era sem graça como a cidade. Uma escola, enfim, como todas as escolas…

Numa das salas, uma quinta série G, havia uma painel colorido. Era um painel com belas fotos e recortes de revista. Uns coqueiros que lembravam muito as praias da Bahia: do Espelho e Caraívas. Uma ilha lembrando Fernando de Noronha – vista do alto, o mar azul em volta. Uma outra lembrava muito o capitólio – americano. E havia uma com umas flores dando vistas para a torre de Paris, a cidade luz.

Espalhadas pelo painel, entre as paisagens e pontos turísticos, imagens de pessoas jovens e brancas, de corpo bonito. Os únicos velhos formavam um casal. Um casal de velhinhos namorando… E uma borboleta. E uma mulher grávida, para celebrar a vida. Um homem de cartola… Todas, sem exceção, imagens bonitas.

Como se não bastasse a cidade ser periférica, também a escola era de periferia. A margem da margem. Periferia de alunos pretos e pobres: gente apagada, sonhando com o impossível…

Uma pena que nos enganemos o tempo todo, que usemos nosso tempo em painéis bonitos. Tempo para ser empregado em construir uma jornada própria, em nossas próprias vidas. Ao invés de sonhar com o que é do outro – Paris, gente loira e as maravilhosas praias da Bahia – poderíamos fazer alguma coisa por nós mesmos. É preciso transformar a vida que se tem.

E serão muitos os anos de vida desperdiçados entre aquelas paredes.

A escola suja, escura, mesquinha… Mas o painel não.

O painel é um painel de coisas fofas.

Ao lado, pichações por toda parte.

*

3 comentários

  1. O Véio | 21 de Agosto de 2019 | 

    Essa escola tem portão de entrada?

    E de saída?

     
  2. Flávio Tonnetti | 21 de Agosto de 2019 | 

    Edinho,

    Esta escola tem sim um portão… um portão que está sempre fechado, infelizmente… trancado com muitas chaves e cadeados, impedindo as pessoas de entrar ou sair. Nossas escolas parecem um beco sem saída.

    Flávio.

     
  3. Vanessa | 21 de Agosto de 2019 | 

    concordo.

     

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