Sobre um painel “fofinho” II

Por Flávio Tonnetti

Parte II

*

Na quinta série F, a sala ao lado da quinta G, o painel fofinho está rasgado. Apenas um pequeno pedaço traz a lembrança bucólica do painel bonito. Atrás do painel revela-se uma lousa velha, nunca usada. Nem neste caso, nem no outro. São apenas suportes para sonhos que não existem. Mas, nesta sala, as pichações ocupam tudo. No teto, cones de papel, colados com chiclete, dão um ar tétrico à instalação.

Os sonhos estão arrasados.

Ao menos aqui, a coisa é mais sincera; mais genuína. O lamentável é que nesta sala os alunos atacam os professores com palavras e gestos. Não entenderam ainda que, na periferia, professor de pobre também é pobre. Tá todo mundo igual. Professor e aluno na mesma merda. “Nóis é tudo fodido, porra!”.

Os alunos se revoltam sabe-se lá porque mazela: se porque são marginalizados, pobres ou fodidos. A revolta é então legítima, mas despejada não nas pessoas certas.

Os professores, igualmente marginalizados, pobres e fodidos, não sabem o que fazer com essa energia, com essa revolta. Bem pudera, não souberam o que fazer com a revolta quando a tinham. Ficaram encostados. Se cooptaram: viraram mestres.

2 comentários

  1. Arthur Meucci | 18 de Janeiro de 2019 | 

    A Parte II sobre o relato desta escola ficou muito bom.
    Relata de maneira impactante, mas sem apelar, os sentimentos que rondam a situação da escola sem apelar. São raros os casos onde o uso de palavrões é bem empregado.

    Dada a impossibilidade de se comunicar os afetos, tentamos todas as vias possíveis. Poucas linhas, poucas palavras, mas um bom trabalho.

     
  2. Ensino.blog.br » Fundão MTV, a escola escancarada (Pingback) | 18 de Janeiro de 2019 | 
     

    [...] personagem: é uma sala de aula cheia de bolinhas de papel no chão e pichações na mesa, além de rabiscos e frases malcriadas nas lousas. O auditório faz às vezes de uma turma barulhenta de adolescentes, que grita o tempo todo, sempre [...]

     

Escreva um comentário: