Um Capeta em Forma de Guri:
uma paródia bizarra dos alunos-problema

Por Flávio Tonnetti

Não há como definir algumas das “obras de arte” que a televisão nos oferece. O adjetivo mais adequado para algumas delas talvez seja o adjetivo “bizarro”.

O achado mais recente foi a paródia de um filme, estranhíssimo, feita pelo grupo Hermes e Renato: “Um capeta em forma de guri“. Trata-se de um tipo de paródia que altera os diálogos originais do filme, que ficou popular na internet graças a uma dupla de rapazes que gravou suas vozes por cima de um episódio da antiga série de tevê Batman e Robin – aquela em que apareciam as onomatopéias de briga em balões de texto: “Pá!”, “Pum!”, “Tcham!”.

A idéia, ou princípio norteador, é simples: substituir os diálogos transfigurando o material existente em uma história totalmente nova. Um brinquedo poderoso na mão de adolescentes; e muito capaz de criar uma bizarrice sem fim. Em geral as paródias, com diálogos repletos de palavrões e com piadas politicamente incorretas, são extremamente engraçadas. Parte da graça vem justamente das situações absurdas, e não de um humor sutil ou sofisticado, como se poderia esperar – que fique claro: eles não são uma espécie de Monty Python tupiniquim.

A paródia de Hermes e Renato conta a história de um menininho que, insatisfeito com o colégio, foge pelo teto da instituição, utilizando uma corda. Sua fuga dá bem a idéia de prisão, o que de fato as escolas se tornaram – uma idéia com a qual, infelizmente, nos acostumamos e com a qual lidamos sem nenhum peso de consciência. A paródia é ainda mais precisa, pois dá, na introdução do filme, o nome do colégio: São Barizon, deixando claro que se trata de um colégio estadual, uma instituição pública, portanto; que afinal é o fracasso notório das instituições educacionais.

O garotinho protagonista, uma espécie de anão no filme original, é um típico aluno “indisciplinado”, ou “hiperativo” – nomes que se costuma dar para aqueles que se destacam na unidade escolar. Um aluno que sai da escola para encarar as aventuras da cidade e do mundo adulto.

Na saída do colégio, nosso herói pega sua divertida mini-moto e vai para um “puteiro” – sim, um “puteiro”; não é, como dissemos, uma paródia politicamente correta. A escola é “séria” e, no dia seguinte ao episódio, o jovem é chamado à sala do diretor para falar sobre o assunto. O diretor, chocado com a situação e com as investidas do garoto cidade afora – o jovem além de tudo passou cheques sem fundo – diz que vai chamar o pai do garoto.

O pai, sendo informado que o filho botou fogo na van do colégio, e ainda cagou na prova – literalmente – resolve comparecer na unidade escolar. Na paródia, o pai é um personagem interessante, pois apresenta o discurso do inconformado: diz que já fez de tudo e que talvez o comportamento do jovem seja culpa das surras que ele deixou de dar.

Com a ajuda do corpo diretor da escola, que conta com um psiquiatra, eles concordam que seria bom para o pimpolho a prática de algum esporte: artes marciais, no caso. O menino, animado com essa coisa de lutas, logo vai parar num stand de tiros, praticando com um revólver. Esta cena também é significativa porque um professor chega para lhe falar de sua situação na escola, também com o discurso do inconformado, algo como um “não dá mais pra continuar assim” ou “imagina, está até dando tiros”.

Numa reunião de pais, um show de horror muito próximo ao de uma situação real, pais de outros alunos querem a cabeça do menininho, e despontam com acusações do tipo: “Ele deu uma mijada no lanche da coleguinha” ou ainda “Jogou um lápis no olho do meu filho”. O menino é, realmente, um problema.

Hilário é a sátira do psiquiatra, que dá diagnósticos esdrúxulos e troca confidências com o pai, sempre reproduzindo o discurso pedagógico vigente de que o menino tem dificuldades por conta da estruturação da família: “a mãe dele era drogada…”.

Convencidos de que o menino não tem jeito, o pai e psiquiatra chegam a um acordo: “A única solução eu acho que é tortura, bater nele com um fio de cobre”, diz o representante psi. O pai, prontamente, replica com um esclarecimento: “Já tentei com cabo de aço…” e prossegue “queimar com ferro quente, arrancar as unhas do dedinho… Nada funcionou. Socar a cabeça na parede… Já tentei tudo e nada teve jeito”. O pai, preocupado com o filho, pergunta ao psiquiatra se não deveria vender o filho, já que o moleque não teria mais utilidades pra ele. O psiquiatra, solícito – são solícitos sempre – diz que compra, paga à vista – e em dinheiro! – mas esclarece que precisa antes pegar o dinheiro que está numa ilha – fiscal, talvez? – repousa aí uma outra ironia: o enriquecimento de gestores educacionais e de psicopedagogos.

Acertado o negócio, o pai então orienta como dar a ração para o filho, que aparece numa gaiola na cena seguinte. No grand finale, que vem logo em seguida, policiais aparecem e prendem os “filhos da puta” que queriam vender o filho! A polícia, aqui, diferente de tantos outros filmes, cumpre o seu papel social – na paródia, é a única instituição legítima e eficiente – mais uma ironia. O menino então é solto e o filme termina com um happy end: o garotinho apaixonado beijando a bela prostituta que conheceu no puteiro.

Por mais bizarra e de mau gosto que a história “Um capeta em forma de guri” possa ser, ela satiriza a escola de forma magnífica. Derruba o discurso escolar, o discurso paterno e o discurso psiquiátrico em um só golpe. E faz uma caricatura ótima dos alunos-problema. É um material fantástico, enfim, para ser trabalhado em uma reunião pedagógica.

10 comentários

  1. Arthur MeuccI | 18 de Janeiro de 2019 | 

    Meu, este episódio é maravilhoso.
    Adorei!

    Muito boa análise.
    Deveria mandar este artigo para a Revista da MTV.
    Parabéns!

     
  2. Thiago Braz | 18 de Janeiro de 2019 | 

    Extrair análises educacionais de episódios aparentemente “bizarros” é uma arte!

    Mandou bem.

     
  3. marcos | 18 de Janeiro de 2019 | 

    meu esse episodio pode ate ser maravilhoso mas o episodio do ensino de filosofia no estado de são paulo esta uma loucura senhor flavio mexa essa bunda seca e vamos la : esse tão de paulo micele vc sabem quem é ?????????????? pois bem enquanto o senhor fica brincando com as possibilidades que a filosofia pode ter nosso governo fica brincando de sei la o que … arregasse as mangas boy e vamos ao coletivo de filosofia na apeoesp central( republica) ou se não… ( citando o grupo de pagode raça negra- vai saber se não é filosofia)vamos “nadar e morrer na beira da praia” alias o senhor já esta aí.

     
  4. RSJ | 18 de Janeiro de 2019 | 

    Hermes e Renato é fodaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!

     
  5. gleisa | 18 de Janeiro de 2019 | 

    esse cara e mesmo um capeta legal

     
  6. andréa maria batista rocha | 18 de Janeiro de 2019 | 

    essa paródia excelente por sinal tem base em qual filme, como se chama essa pérola?

     
  7. Fernanda | 18 de Janeiro de 2019 | 

    Adorei !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!Como chama esta parodia???

     
  8. Francisco | 18 de Janeiro de 2019 | 

    O nome original do filme é Impossible Kid, por sinal engraçadíssimo também!

     
  9. Diego | 18 de Janeiro de 2019 | 

    O nome do filme é 00½ aqui no brasil

     
  10. Alexandra Foster | 18 de Janeiro de 2019 | 

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