Cultura da Mentira

Por Flávio Tonnetti

Um incêndio que ocorreu no fim de 2007, no Hospital das Clínicas, em São Paulo, mostrou bem como está arraigada em nós, brasileiros, uma cultura coorporativa da mentira. A mentira flagrante ocorreu durante uma entrevista dada por um oficial do alto escalão do Corpo de Bombeiros a um repórter de uma grande rede de televisão.

O incêndio obrigou vários setores do prédio a desocuparem o hospital, que é enorme, às pressas. Na ocasião, um dos últimos andares foi muito afetado pela fumaça causando desespero e pânico em muitos dos funcionários e pacientes.

Convidado a dar esclarecimentos sobre o que teria ocorrido, o representante do corpo de bombeiros afirmava que não havia ocorrido “fogo”, apenas fumaça gerada por uma “pane” elétrica – o bombeiro contrariava, assim, o sábio ditado popular.

Recebendo informação de enfermeiros e funcionários do hospital que algumas das portas estariam fechadas com cadeado, o que atrapalhou muito a evacuação do prédio, o repórter questionou o representante do bombeiro, que prontamente negou esta informação.

O problema é que as imagens flagrantes da reportagem deixaram claro a existência de fogo. No foco do incêndio, uma espécie de casa de máquinas, podia-se ver marcas negras de labaredas subindo pela parede, bem como o ferro retorcido pelo calor. Era evidente que o bombeiro faltava com a verdade.

Qualquer um que já tenha visitado o HC sabe também que existem portas lacradas com cadeados para restringir a circulação de visitantes – uma medida de segurança, mas que em casos de incêndio acaba por ter um efeito contrário.

A mentira coorporativa é resultado da incapacidade de assumir responsabilidades. Que ela ocorra mesmo numa corporação como o Corpo de Bombeiros, detentora de um “habitus” institucional positivo, e tida pela população com uma das mais eficientes, mostra o quanto temos que avançar neste sentido.

Não sabemos se o bombeiro mentiu para proteger o Hospital que também era uma instituição pública ou porque não sabia o que de fato havia ocorrido. Como servidor público ele peca, qualquer que seja a alternativa.

Esconder uma deficiência de uma instituição pública não ajuda a melhorá-la, mas ao contrário, faz com que as mazelas se perpetuem. A postura mais adequada ao bombeiro quando questionado, seria, então, ter dito ou que “não sabia” ou que precisariam de uma investigação. Mas dizer que não se sabe, no nosso país, é tido como sinal de incompetência. O que não diminui o fato de que mascarar informações é um erro.

“Não saber” nem sempre precisa significar imprudência ou incompetência, pode apenas significar uma limitação – e declará-la em público, repito, é o primeiro passo para que instituições sejam melhoradas. Ao contrário, sonegar informações faz com que continuemos incorrendo nos mesmos erros e que os responsáveis não sejam chamados a assumir suas responsabilidades.

Ficou evidente que a gestão do hospital não levava em conta um incidente como este. Provavelmente não tinham um bom plano de evacuação. Isto porque não somos educados para planejar, mas apenas para improvisar. Fosse um incêndio de grandes proporções, improvisações não surtiriam efeito, e muitos poderiam não ter saído ilesos. Precisamos compreender que a cultura da mentira é prejudicial às nossas instituições e a melhoria dos serviços públicos de nosso país.

*Artigo publicado, em primeira mão, no blog Crítica Filosófica, de Arthur Meucci.

2 comentários

  1. Marina Nasedkina | 17 de Setembro de 2019 | 

    bem notado! porem o problema eh bem universal, existente nao soh no brasil, mas em varios paises de mundo, inclusive no meu.

    acho que eu poderia escrever para o seu blog um artiguinho sobre o assunto ligado a cultura da mentira:

    cultura de “ouvido de cristal” no Brasil – opiniao de uma gringa sobre estilo brasileiro de comunicacao.

    pena que o meu portugues nao permite escrever os artigos…

     
  2. Natalia Frazão | 17 de Setembro de 2019 | 

    Imagina que se o hospital pegasse um fogo absoluto e um representante do corpo de bombeiros diria: Nada, só foi um problema elétrico. Pelo amor de Deus!
    Imagine aqueles pacientes e funcionários desinformados e incorformados por “aquela cultura de mentira”…

     

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