Falseando informações na educação pública:
bibliotecas e salas de informática

Por Flávio Tonnetti 

A maioria das escolas com as quais tive contato sempre declararam ter bibliotecas e sala de informática. É uma resposta automática. Os gestores das instituições escolares consideram, obviamente, estes itens importantes – e sabem que para serem considerados bons gestores estes itens devem ser declarados.

Mas o que acontece é que aquilo que se chama de “biblioteca” ou de “sala de informática”, muitas vezes, não passa de um engodo. Às vezes, as escolas de fato têm livros, às vezes, têm também computadores. São materiais enviados pelos governos estaduais e federais às escolas. Eles constam das listas governamentais de remessa e estão previstos em muitos orçamentos.

No entanto, ter livros encaixotados não significa que a escola tenha uma biblioteca. E mesmo que eles estejam em estantes dentro de uma sala separada, de nada adiantarão se a sala ficar fechada à circulação dos alunos. Somente se ficar aberta e permitir o fluxo de pessoas podemos chamá-la de biblioteca – ainda que fique num canto escondido, quase inacessível, da escola.

Para ter uma biblioteca é preciso que os livros estejam disponíveis aos alunos e professores – e melhor ainda se forem acessíveis aos membros da comunidade. Sala de computação significa computadores funcionando bem, reparados sempre que tenham problemas, em número suficiente para atender a demanda de, no mínimo, uma classe inteira de alunos.

Em ambos os casos, isto não contece.

Quando um computador quebra, a burocracia é tão grande para concertá-lo que ele fica mais tempo inativo do que disponível aos alunos. A falta de técnicos, fixos na própria escola, dificulta que problemas rotineiros sejam rapidamente corrigidos e que outros problemas sejam impedidos. A maioria das escolas, embora declare que tem laboratório de informática, na verdade tem museus de maquinário obsoleto.

Caso os gestores não sonegassem essa informação, uma discussão sobre a contratação de técnicos de informática e bibliotecários poderia ser trazida à tona. Mas em seus relatórios está tudo perfeito.

Já ouvi de muito profissional da educação que é melhor que os livros ficam encaixotados para evitar que se estraguem, ou que computadores quebram porque os alunos são imprudentes – nem preciso dizer que os que declaram esta posição restringem ainda mais o acesso do aluno a estes meios e bens culturais, agindo contra os direitos constitucionais de acesso à educação.

O que estes profissionais têm é medo de prestar contas de seu patrimônio. Não entendem que é natural que estas coisas se estraguem. Um livro, se bem usado e, principalmente, se muito usado, é um material perecível. Do mesmo modo, qualquer um que tenha um contato mínimo com informática sabe que problemas com computador são algo corriqueiro, ainda mais quando se trata de máquinas utilizadas por um número grande de pessoas.

É preciso repor os livros e consertar as máquinas, freqüentemente. É assim mesmo. As coisas se estragam com o uso. É preciso prestar contas sem medo, declarando inclusive o que se extraviou, para que se possa repor estes itens.

Os diretores, coordenadores pedagógicos e professores têm que saber que estas ocorrências não são um mal em si mesmo, e que o uso dos materiais, bem como seu desgaste, não é um sinal de deficiência, mas de eficiência.

Desviar a escola de sua natureza, que é a de prover acesso ao conhecimento e à tecnologia, bem como falsear informações, é que é a
verdadeira face da incompetência – e da corrupção.

4 comentários

  1. Arcênia Geralda da Silva | 17 de Setembro de 2019 | 

    Concordo plenamente com a opinião acima.As mentiras funcionam como uma força negativa para não alcançarmos aquilo que é o certo. Muitas vejo que isso tacontece em meu estado e não tem jeito pare ce qu as pessoas estão pressas e com medo de dizer a verdade.

    Arcênia

     
  2. Renato Azevedo | 17 de Setembro de 2019 | 

    Pena que esses artigos não sejam amplamente divulgados, ou façam parte de jornais estudantis das escolas públicas, afim de que sejam cobrados pela comunidade. A omissão da realidade escolar pelos administradores, camuflam a própria realidade da região em que situam-se essas escolas, e os que detém esses cargos, são muitas vezes indicação política e servem para cobrirem gastos em compras ilícitas e/ou favorecer a imagem de um grupo que detém aquele “poder”. Façam com que esse tipo de artigo seja levado para as faculdades ou grêmios estudantis, para que efetivamente a sonegação e a má utilização de recursos públicos sejam denunciados.

     
  3. Flávio Tonnetti | 17 de Setembro de 2019 | 

    Renato,

    Também lamento esta falta de inserção em outros veículos de informação. E não só lamento a minha própria dificuldade como a de outros tantos profissionais da educação que se dedicam a observar seu cotidiano e escrever sobre ele. Faço o possível para que estas informações cheguem ao maior número possível de pessoas. No entanto, conto muito com o boca-a-boca dos leitores – que ainda é a forma mais eficiente de atrair pessoas com o mesmo interesse. A esperança é que certas observações cheguem não só aos interessados – alunos e comunidade – mas também a homens públicos, e que estes possam mudar certas diretrizes e práticas.

    Flávio Tonnetti
    http://www.ensino.blog.br

     
  4. Roseli Venancio Pedroso | 17 de Setembro de 2019 | 

    Flávio,
    Como bibliotecária escolar, fico muito triste em ver essa realidade. Trabalho em uma biblioteca escolar de um colégio particular e minha realidade é bem diferente com um acervo rico e disponível a todos. E quando vejo as outras escolas nessa condição,me dá agonia. Parabéns pelo blog e por seu trabalho na educação. Conheça também meu blog. Falo de educação, livros, leitura e tudo mais.
    Abraço,
    Roseli

     

Escreva um comentário: