Da universidade privada para a escola pública

Por Flávio Tonnetti

É patente o fato de que nossa sociedade carece de professores, mas não de licenciados. A abundância de profissionais legalmente aptos ao exercício docente é facilmente verificada pela quantidade de cursos voltados à licenciatura nas universidades privadas, que lançam, todos os anos, milhares de pessoas ao mercado educacional.

Para quem deseja adquirir uma habilitação profissional em educação, tanto os grandes conglomerados de ensino, com siglas bem conhecidas de todos nós, quanto as faculdades de fundo de quintal, oferecem cursos bem atraentes. É muito comum, e conveniente, que sejam cursos rápidos – em apenas três anos é possível graduar-se e licenciar-se em Letras, História ou Pedagogia.

Essa economia de tempo, e dinheiro, é interessante para ambos os lados: para o universitário que deseja trabalhar logo e adquirir o retorno do seu investimento, e para as faculdades que gastam menos, geram rotatividade e atraem alunos – trata-se, portanto, de um negócio muito lucrativo, e com um marketing excelente.

O negócio de formação de professores é ainda mais lucrativo para as faculdades privadas, porque são cursos baratos que não carecem de uma infra-estrutura que vá além de uma sala de aula – ao contrário de cursos como os de engenharia ou medicina que precisam de laboratórios, instrumentos e pessoal reconhecidamente qualificado.

Se este negócio é bom para as partes envolvidas, já não é tão bom para um posterior desenvolvimento social. Com tanta economia assim, a qualidade de formação fica, obviamente, prejudicada. E o problema é que a péssima formação dos profissionais oriundos destas instituições prejudicará não apenas ao próprio indivíduo, que pagou por uma formação duvidosa, mas – e aí esta o dano maior à sociedade – ao aluno que será atendido por este futuro professor.

O pior desta história é que este profissional, mal formado pela universidade privada, dará aulas na rede pública de ensino, que é a principal responsável por absorver este profissional desqualificado.

Já os profissionais oriundos das universidades públicas, que tem cursos tradicionalmente melhor estruturados, com uma duração de anos mais adequada para uma formação sólida, e um corpo docente melhor qualificado, farão o caminho contrário. Esses “bons profissionais” das universidades públicas, e de uma minoria de boas universidades privadas, ocuparão os postos de professores na rede privada de ensino.

Há aí uma espécie de privatização perversa do ensino público no país. E isto acontece porque há uma inversão de papéis: o Estado financia universidades públicas para formar profissionais que irão trabalhar para o ensino privado e a universidade privada, que forma mal e em maior quantidade, irá fornecer mão de obra barata e desqualificada para o Estado, para a rede pública de ensino.

A quantidade de professores que se precisa para atender nossas crianças e adolescentes da rede pública de ensino é muito maior do que aquela que as universidades públicas são capazes de formar. Embora fosse desejável que as universidades públicas suprissem esta demanda social, nem é isso o que se espera. O que se espera é apenas que as universidades particulares desempenhem seu papel de instituições de ensino com mais responsabilidade.

É evidente que faltam aí mecanismos de fiscalização para a melhoria do ensino superior privado do país. Somente há pouco, por exemplo, os ministros da educação e da saúde se mostraram preocupados com a qualidade dos cursos privados de medicina, casos em que uma má formação compromete diretamente a vida humana. Mas porque não discutirmos a qualidade dos cursos de licenciatura, assim como a qualidade dos cursos de Direito ou Medicina? O professor é também um agente responsável por interferir diretamente na condição humana. Pode melhorá-la ou piorá-la.

Talvez seja a hora de pensarmos em um “exame de ordem” também para a profissão docente, assim como o já existente para os advogados e como o que se cogita fazer para os médicos, já que o Ministério da Educação não tem sido capaz de assegurar a qualidade do profissional docente, formado aos milhares pelas instituições privadas – e também pelas públicas – de nosso país.

9 comentários

  1. Luciano F. Rigobelo | 23 de Julho de 2019 | 

    Flávio, será, ainda, que mesmo considerada interessante ou melhor que a privada, a universidade pública, especificamente quanto aos cursos de licenciatura, dá o suporte prático aos esses futuros professores, ou seja, ela fornece estágios, aulas práticas, possibilidades de contato real com alunos? Concordo com seu ponto de que as ‘UniEsquinas’ não dão a formação adequada. Mas também é triste pensar (pelo menos tenho visto desta forma) que até a universidade pública (com o apêndice: ‘de qualidade’) sofre uma defasagem quanto ao suporte prático, não quanto ao teórico…
    Bom, de qualquer forma, toco a mesma tecla, mesmo que um clichê: sem a formação intelectual, que será dada a alunos de escola pública (que não tem ânimo de ir numa escola possivelmente sem estruturas físicas ou pouco atraentes) o que sobra para um professor que é fruto desse processo?

    Parabenizo seu texto e sua atitude com o ensino (ou com a necessidade de melhora dele).

     
  2. Arthur Meucci | 23 de Julho de 2019 | 

    Um exame da ordem para a educação é uma excelente idéia.
    E olha, não é tão difícil de se conceber.

    É só transformar a prova do concurso para professores do Estado como obrigatório para todo o professor que queira pisar em sala de aula.

    Podemos elaborar uma prova mais focada em conhecimentos gerais e didática e estipular que só seria admitido como professor quem acertasse 65% da prova. Depois, faria outra triagem para selecionar dentre os aprovados no primeiro filtro os professores do Estado.

    A prova seria a garantia de um nivelamento de professores em sala de aula.

     
  3. Flávio Tonnetti | 23 de Julho de 2019 | 

    Luciano,

    Você tem razão. De fato estou convencido de que nem as universidades públicas dão suporte necessário aos pretensos professores que têm formado. Estamos num beco.

    Flávio Tonnetti
    http://www.ensino.blog.br

     
  4. Tennessee | 23 de Julho de 2019 | 

    Olá Flávio,

    Também acredito que existe uma questão válida no comentário do Luciano. Apesar da impossibilidade de generalizar, é perceptível que algumas universidades públicas não tem um projeto de licenciatura. Por outro lado, é preciso concordar com voce acerca das univesidades particulares.
    Quanto ao mercado de trabalho, também não podendo generalizar, acredito que hoje, em função das novas regulamentações de estágio, o estágio de licenciandos em universidades públicas em escolas particulares é mais raro. Poucas escolas concordam em fazer apólice de seguro em nome do estagiário. À medida que as universidades regularizam seus setores que organizam o estágio, essas apólices de seguro aparecem como barreiras entre o licenciando e as escolas particulares.
    Ademais, discordo plenamente e irrestritamente da existência de um exame de ordem para licenciatura.

     
  5. Flávio Tonnetti | 23 de Julho de 2019 | 

    Olá Tennessee,

    Eu, que tenho uma vivência considerável em universidade pública, sou categórico ao afirmar, fazendo coro contigo, que não há um projeto de licenciatura nas universidades públicas. Os departamentos não se comunicam e não há qualquer unidade metodológica mesmo dentro dos próprios departamentos. O que significa que um professor pode dar um conteúdo completamente diferente – em substrato e forma – de um outro professor do mesmo departamento que leciona a mesma disciplina. Os cursos com licenciatura seguem a mesma lógica do bacharelado. É preciso dizer que muitos professores universitários sequer deram aulas no ensino básico e não preparam seus alunos para o exercício docente porque também não foram preparados pra isso. A educação vai mal em todas as suas esferas. Mesmo na universidade pública, infelizmente. Se as instituições funcionassem corretamente, agora falando tanto para públicas quanto para as privadas, a sugestão de um exame de ordem seria totalmente desnecessária. Mas até lá, insistirei nisso.

    Flávio Tonnetti
    http://www.ensino.blog.br

     
  6. Daniele | 23 de Julho de 2019 | 

    Nem todo mal profissional virá de universidades privadas.

     
  7. Simoni | 23 de Julho de 2019 | 

    Olá Flávio,

    Achei seu texto bem útil, condordo contigo, quando menciona que deveria ter ” exame de ordem” para professores.

     
  8. David Oliveira | 23 de Julho de 2019 | 

    De fato, se não houver uma espécie de “exame de ordem” para os licenciados, o mercado de trabalho ficará saturado de profissionais formados em instituições privadas de nível apostilesco e de formação intelectual ginasiana. Certamente, em virtude do ” nível brilhante ” desses alunos é bem provável que a assinatura do recebimento do diploma seja através do polegar, tal como nas carteiras de identidades dos analfabetos.
    Na universidade privada (na maioria delas) não existe um núcleo de pesquisa que garanta ao aluno a ampliação dos seus conhecimentos numa dimensão teórico-pragmática, ou seja, que faça o aluno enriquecer seu curriculum vitae, desenvolvendo uma resposta adequada as circunstâncias cotidianas e propondo a inserção do mesmo em projetos que o ajudarão a ingressar num curso de pós-graduação.
    Na Universidade privada o que mais se almeja é ganhar tempo e dinheiro. E isso, literalmente falando. O aluno e a instituição ganham tempo, porque graças aos “cursos mercadológicos à distância”, é muito mais prático e econômico fazer um curso em três anos, do que no período normal. Isso sem contar que nessas “universidades de ponta de esquina” só se têm aulas três dias por semana. Um absurdo!!! Posso citar como simples exemplo a UNOPAR ( Universidade Norte do Paraná) que tem uma extensão de curso à distância aqui em Irecê- Ba.
    Dessa maneira, persiste aquela velha e triste máxima:
    ” O Brasil é o país do fingimento: O aluno finge que estuda e aprende e o professor finge que ensina e orienta”.

     
  9. Èvila | 23 de Julho de 2019 | 

    Querido, por gentileza,não julgue o livro pela capa:
    O graduando irá formar-se pelo o que estuda no vestibular, ou pelas bibliografias, ou seja, pela sua bagagem de leitura?
    Quando você entra em qualquer universidade, seja ela pública ou privada, quem irá absorver o conhecimento é você próprio, não a intituição…o que aprendemos nas aulas são apenas 10%, o restante, é muita pesquisa autônoma…principalmente para lecionar…não é, a universidade que você se formou que irá elaborar seus planos de aula…
    Eu estudo Históra na UVA, faço Grego na UFC junto com os graduandos de lá e tirei,por exemplo 9,50, equanto os alunos de lá,tiraram 3,0, 2,0…
    Quem faz a formação é o aluno, e digo mais uma coisa, deveria existir uma lei que punisse quem tem preconceito com os graduandos de universidades particulares.

    Grata.

     

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