Apeoesp: um sindicato não representativo

Por Flávio Tonnetti

Por conta dos malefícios que a categoria profissional dos docentes da rede pública de São Paulo está sofrendo, achei que havia chegado a hora de tomar parte nos movimentos sindicalistas. Foi motivado por isto que compareci a uma reunião promovida no sindicato para discutir a situação do ensino de filosofia, sociologia e psicologia dentro da estrutura atual da escola pública paulista.

Embora em melhor situação que os professores de sociologia e psicologia – que perderam suas aulas, já não tendo mais postos de trabalho no estado de São Paulo dentro da rede pública – os filósofos também vêm acompanhando a diminuição de seus postos de trabalho pela diminuição de aulas. Eu mesmo fui prejudicado por estas reduções; além de ter que lidar com uma série de outros entraves ao trabalho docente, como a redução de salários ou seu não reajuste, e a obrigatoriedade de utilizar um ensino apostilado, tolhendo a natureza da atividade docente e confinando-a a mera reprodução de idéias, completamente deslocada das múltiplas realidades escolares com as quais temos que lidar cotidianamente.

Pois aquilo que eu via como uma possibilidade de luta, ou de resistência de uma classe organizada – luta e resistência cristalizada na instituição sindical – mostrou-se como totalmente ineficiente. Na abertura da reunião já ficaram evidentes uma série de problemas.

A reunião que havia sido marcada para um local, inclusive com menção em informativos, teve que se realizar em outro. Problemas de organização e logística que não cessaram mesmo na nova locação: sem auditórios ou salas disponíveis para a realização do evento, fomos obrigados a nos reunir num dos corredores – algo muito precário, mesmo para o já tão desprestigiado professor. Iniciada a reunião, fala-se sobre esta precariedade, sobre esta falta de respeito, ocasião em que surgem também comentários sobre disputas internas de poder dentro da organização e um possível boicote àquela reunião. A Casa do Professor falhou, portanto, em acolher aquele que lhe dá o nome.

A maior parte dos participantes, que desconhecia essas intrigas institucionais internas, e que não queria tomar parte em mixórdias políticas, sofreu com estas ingerências. Outra briga política, anterior, impossibilitou que colegas que vieram do interior do Estado pudessem ser reembolsados em seus gastos com viagens; alguns viajaram muitos quilômetros e como a reunião representava algo de interesse coletivo, tendo esses participantes a responsabilidade de divulgar as deliberações da reunião em suas regiões, nada mais natural que a efetuação de reembolso, afinal, tratava-se, no limite, de uma reunião de trabalho.

Por conta desta falta de organização, o encontro sofreu atraso. Por conta do atraso e das circunstâncias, ficou-se discutindo qual deveria ser a natureza do encontro ou se deveria ser remarcado – o que nos tomou um tempo precioso e desviou a natureza do encontro, que era destinado a discutir a situação do professor e tomar providências. Foi por pouco, e por sorte, que não discutiram o sexo dos anjos.

Um professor desabafou que o sindicato é um “bando de moleques brigando por um carrinho” – que é o poder – e foi categórico ao afirmar que nada está sendo feito por estas organizações de classe para melhorar a situação do professor, que está sendo desrespeitado. O sentimento de desrespeito é alimentado não mais apenas pelo empregador, o Governo do Estado, mas também pelo próprio sindicato.

Nestas reuniões perora-se muito, e decide-se pouco. Têm-se a impressão de que estes senhores que conduzem a reunião nunca trabalharam numa instituição organizada, numa empresa. É como se fossem recém-saídos do movimento estudantil. São crianças, de fato – como lembrou o colega durante a reunião – incapazes de conduzir negócios ou cuidar da administração de uma casa. E esta é uma crítica radical, sim, mas que precisa ser feita.
São poucos ali que merecem o respeito da classe docente. São poucos os sérios e comprometidos. São poucos os que sabem a que vieram. E, como sabemos, andorinhas poucas não fazem verão, assim como um galo solitário não tece uma manhã.

Não obstante as ingerências, falou-se que um dos presentes era próximo candidato à presidência da instituição – nem é preciso dizer que o “companheiro” em questão, para utilizar um jargão marxista ao gosto dos sindicalistas, não terá meu voto, porque ficou claro ali que este senhor é incapaz de conduzir uma reunião ou falar com clareza em nome de um grupo, muito grande, diga-se. É desesperador.

Mas como me disse um amigo, é melhor um sindicato ruim do que nenhum sindicato. Fico a pensar o quanto essa afirmação pode ser verdadeira. Talvez fosse melhor sindicato nenhum. Talvez fosse melhor educação nenhuma. Talvez o deserto. Para que algo novo surgisse.

Sinto falta de moderadores nestas reuniões, figuras como um Heródoto Barbeiro ou um Paulo Markun, a fim de conferir ordem aos diálogos. Sinto falta de juristas para orientar sobre as atitudes legais que podem ser tomadas para diminuir os estragos das medidas governamentais. Sinto falta de líderes de torcida, como os da Gaviões da Fiel ou os da Mancha Verde, a fim de organizar grandes marchas e eventos, e insuflar um pouco os ânimos de uma multidão tão apática. Sinto falta de um sentimento real de pertença e responsabilidade. Sinto falta de competências em diversas áreas, competências que estão relacionadas à gestão de negócios públicos.

Estas competências, que faltam aos sindicalistas, faltam aos professores de um modo geral. São as mesmas “habilidades e competências” – para utilizar agora um jargão pedagógico – que faltam aos gestores da cúpula do governo que respondem pela educação, todos eles em geral oriundos do mundo acadêmico ou pedagógico, e que muito pouco parecem saber sobre administração ou condução de negócios.

Não deveria haver lugar para amadores na Educação, mas amadores é o que todos nós somos. Temos o governo que merecemos e, consequentemente, o sindicato que melhor nos representa. Não há nada a se fazer – ou nos resta muito pouco.

11 comentários

  1. Shauan Bencks | 18 de Janeiro de 2019 | 

    Sua visão é A + B amigo…

     
  2. Marco | 18 de Janeiro de 2019 | 

    Está coberto de razão meu amigo.

     
  3. Arthur Meucci | 18 de Janeiro de 2019 | 

    Sem dúvida a Apeoesp cometeu graves falhas nestes últimos doze anos.

    Lembro-me que até o governo do Fleury a classe de professores, representados pela APEOESP, defendia os direitos dos professores e condições melhores de ensino para os alunos.

    Porém, no governo Covas, o papel desta instituição desapareceu. Para onde foram seus dirigentes? Por que abandonaram os professores quando a sala de aula ficou perigosa e também na miséria dos R$ 6,00 a hora aula?
    Por que deixaram a educação pública sucumbir?

    Assim como Covas, Alckmin e Serra são responsáveis diretos pela desgraça da educação em São Paulo, a APEOESP tem uma parcela de culpa igual ou superior por deixar tudo isso acontecer e não fazer nada.

    Não me espanta que hoje, na APEOESP, uma discussão sobre a importância do ensino de filosofia e sociologia, seja ignorada e desprezada pelo comite que compõe a instituição.

     
  4. Otávio Costa | 18 de Janeiro de 2019 | 

    Flávio.

    Seu trabalho nesse blog é muito inspirador.
    Não desista!
    Não desanime!
    Seja convicto de suas idéias e continue trilhando esse caminho cheio de espinhos, eu tenho certeza que você ainda mudará muita coisa para melhor.

    “Não deveria haver lugar para amadores na Educação, mas amadores é o que todos nós somos.”

    Todos nós é muita gente e tenho certeza que com pessoas como você, como minha cunhada (prof de geografia) e muitos outros professores de muito valor, teremos um dia uma educação muito melhor.

    Um forte abraço e um incentivo.
    FORÇA!!! A luta continua…
    Mesmo que o último caia, sua história irá inspirar o surgimento de outros.

     
  5.  

    [...] no aluno um “projeto de gente” que ocupa uma classe social que é sua inimiga. Neste momento ele amaldiçoou, no seu íntimo, a ineficiência de seu sindicato. Para satisfazer as inquietações ele responde ao aluno. Para tanto ele clama auxílio aos [...]

     
  6. Lúcia Helena Manzano Vettore | 18 de Janeiro de 2019 | 

    É lamentavel o que estamos ivendo na escola pública….
    As coisas estão de tal maneira que fica difícil perceber se vamos conseguir sair de tantos absurdos…até acho que todos querem acretar…mas a que preço? Os professores ainda reagem timidamente! por que estão ou são tão reprimidos…engolindo estes projetos! sem reclamar as vezes eles falam um monte…mas so issso!!!!! Bem vamos a luta pois pior do que está não vai ficar!Sem desistir!!!! Assisto dando sobressaltos com esta apeoesp, sala de professores,direção e pais e crianças e todos sem direito a defesa!!!! Abraços ..e pasmem pedagógicos!!!

     
  7. Valéria Alvarez | 18 de Janeiro de 2019 | 

    …é meu caro
    acho que sindicato nenhum seria melhor!Vivi estes primeiros momentos de greve e andei com sindiclistas. Não há estratégia, organização e nem vontade. Andam sem condução de uma escola para outra e atingem poucas escolas por vez.Fazem greve como derrotados!Onde está o fundo de greve? Acompanhei-os e, por não ter outra forma de agir( eu nâo achei outra) tentei e tento incentivar meus colegas a mobilização por achar que necessitamos de uma força politica contra as ações impostas diariamente à classe de professores.Vi uma vontade maior neste momento, mas é porque as ações atingiram muitos ao mesmo tempo. Quando as ações atingem apenas a um grupo não há mobilização.

     
  8. Vera Barbosa | 18 de Janeiro de 2019 | 

    Realmente, as lideranças do nosso sindicato são despreparadas intelectualmente.Ouvi de um conselheiro regional que “Devemos somar juntos”.O que incomoda mais nem é o pleonasmo na linguagem, mas nas ações: o mesmo discurso há séculos, a distância da sala de aula, da qual muitos sindicalistas fogem como o diabo da cruz, os conluios com os poderosos, as briguinhas de grupelhos de baixo nível, a defesa incondicional dos maus profissionais, que nos fazem ser vistos pela sociedade como um bando de crianças reclamonas e birrentas.Concordo plenamente com Flávio Tonetti.Os dirigentes da Apeoesp, com raras exceções, precisam aprender, se educar.

     
  9. Silvio de Souza | 18 de Janeiro de 2019 | 

    Apenas sugiro muito cuidado, pois a que mais poderia interessar um sindicato destruído. Ao mesmo tempo em muitos dizem que o sindicato dos professores não é representativo, o governo age para tentar destruí-lo.
    E qual sindicato hoje tem tal poder de organização. Não penso que organizações do tipo não governamentais sirvam melhor que as representações de classe.

     
  10. Silvio de Souza | 18 de Janeiro de 2019 | 

    Apenas sugiro muito cuidado, pois a quem mais poderia interessar um sindicato destruído. Ao mesmo tempo em que muitos dizem que o sindicato dos professores não é representativo, o governo age para tentar destruí-lo.
    E qual sindicato hoje tem tal poder de organização? Não penso que organizações do tipo não governamentais sirvam melhor que as representações de classe.

     
  11. vitoria ferraresso | 18 de Janeiro de 2019 | 

    Mesmo havendo falhas no sindicato e nos outros tambem existe, mesmo em paises da EUROPA ha essa disputa pelo cargo dentro da entidade, se o sindicato for destuido como fala o SILVIO DE SOUZA e concordo com ele, ai sim o governo do estado vai massacrar os professores, estou aposentada lecionei trinta anos sou pedagoga e se não tivermos o sindicato para nos orientar e defender estaremos orfãos.A FRANÇA vive em greve e pela tv5 vi como os professores tambem são desrespeitados pelo presidente do país, é ele quem demite e tenta minar a classe como aqui, e as brigas dura te as reuniões do sindicato? Portanto, podemos levar até a direção da APEOESP que haja planejamento antes de marcar uma reunião, quem vai dirigir esteja apto, que mediadores sente-se na mesa, para que que possam discutir e se fazer entender e ouvir o professor.

     

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