CRUEL: Cia. de Dança Deborah Colker

CRUEL – um espetáculo da Cia. de Dança Deborah Colker

(ensaio crítico em dois atos)

Por Flávio Tonnetti

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1º Ato

objetos cênicos:

corpos: para que surja vida;

facas e pratos e mesa: para que a fome cresça;

um globo de luz: para mover a festa.

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Arte contemporânea é o lugar do sentido, mas a arte, antes de mais nada é o lugar dos sentidos: língua para provar o gosto, mãos para tocar vida, olhos para avistar divisas, sons para encontrar o outro. Como um ballet de sentidos é que o espetáculo de Deborah Colker evolui.

A colcha de retalhos que nos foi proporcionada por técnicas como a collage fez com que a arte contemporânea encontrasse o sentido para além dos sentidos: o sentido da idéia, o significado. Mas este mesmo significado, com a evolução da mesma arte contemporânea, foi se dissolvendo. A arte contemporânea, que nasce e se dissolve, é por isto mesmo, a metáfora da vida.

No entanto, apesar da dissolução dos significados, é sem abrir mão dos sentidos físicos, sem abandonar a vida, que o artista faz sua obra. Não é a esmo que o artista constrói. Ele, portanto, escolhe os elementos que entrarão em cena. E no balé, que é a arte de cruzar espaços com o corpo, esta arte vira metáfora da existência. E é por reunir estas forças que a dança contemporânea tem potência.

É preciso então desconsiderar o que qualquer panfleto de espetáculo possa dizer: não há jogo entre Acaso e Necessidade. Nem acaso nem necessidade, pois que estas são categorias da Razão. E o ballet que presenciamos com a Cia. Deborah Colker é de uma ordem outra: é de paixão e vísceras. É do corpo. Rasguemos os panfletos – este inclusive! Rasguemos com violência os nossos próprios corpos.

Um enorme globo e um salão de baile. Homens lindos e mulheres maravilhosas: eles trajando camisas e calças de bom corte; elas desfilando belíssimos vestidos – conseguem reunir o clássico e o moderno. Está é, inclusive, visível também no figurino, a marca do espetáculo. E dançam como se fossem um conjunto de câmara, com diferentes solos. Buscam fugas e caminhos, que depois se encontram. Há algo de barroco neste espetáculo contemporâneo. E há algo de romântico, como se um violino fosse o lamento de uma coisa que vive em busca de algo.

O baile que se dança, com a valsa ou a pavana, é o lugar do encontro: entre os corpos. É o lugar do encontro com o outro, do encontro com a vida. É o mesmo encontro para o qual somos projetados ao som de música eletrônica, aconteça ele numa noitada em Londres ou num bordel em Amsterdã. É a saída de casa, o filho pródigo no encontro consigo.

E é nesse encontro que podemos ver que temos fome. Corpos se chupam, se chocam, se moem. É com esses corpos que queremos outros. A minha mão nas coxas da bailarina. Não qualquer uma, não todas, não de maneira abstrata, mas de maneira física. Uma entre elas – ou entre eles, já que é um corpo de baile misto – será a escolhida. Será uma escolha certeira, porque o desejar é específico. A minha escolhida, quis cheirá-la, quis retê-la; sua carne em minha carne viva. Eu, que estava ali, tive fome. A vontade é uma, intensa, pulsante, e não se mascara. É um balé sensitivo, um balé lascivo, um balé para iniciados.

E houve a vontade de se libertar, a vontade de correr mais forte, de pular mais alto, de esticar as virilhas. Houve a vontade dos extremos. Vontade de pulo de ponte alta. Vontade de mergulhar em mar aberto. Vontade de matar os pais.

Mas porque são vontades intensas, são vontades precisas; como são precisos os movimentos dos bailarinos. Balé em sincronia – sinfonia bem ensaiada – já que arte contemporânea não é lugar do desleixo, mas das coisas certas. Tecnicamente formidável. Tanto nas coreografias coletivas, quantos na imensa quantidade de desdobramentos em trios, duos e solos. E precisão com a música com a qual se dança – a música que por si só é glória à parte, e que, assim como o figurino, misturou o erudito com o que há de mais moderno: música eletrônica flertando, se intercalando e se fundindo com sons de orquestra.

E nessa pintura toda – misto de Pollock e F. Bacon – aquilo que um dia foi improvisação, mas que virou escolha, atinge seu auge no profundo sofrimento do desespero, que é a condição humana. Impossibilitado de realizar nossos desejos, somos escravos de nossas próprias pernas, de nossas próprias penas: não é mais possível viver como vivemos, em condomínios ou escritórios. É a rua quem nos chama. É a vida quem nos pede.

Entrecortando tudo, há espaço pro silêncio, para que possamos, de dentro dele, avaliar a experiência de estarmos vivos. De ter um corpo. Condenados em nossa pena de continuar existindo, mesmo que rompamos os panfletos, que quebremos janelas, estamos condenados aos nossos próprios desejos. Entraremos em conflito com o outro, para que nos realizemos. Não haverá mais encontro, mas confronto. Luta de faca-só-lâmina, de vida-só-corpo. Sendo devorados todos os dias pelas próprias vontades, e carregando o peso do corpo morro acima, somos à imagem de Prometeus e Sísifos.

A vida, com suas vontades, é cruel.

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2º Ato

objetos cênicos:

corpos: pra que se desfaleça;

espelhos, enormes: pra que se multiplique.

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Com enormes conjuntos de espelhos vazados, a dança segue; ainda. Sem esperanças, os buracos onde vivemos estão lá representados. Nossos hiatos: somos seres sem sentido: bandonéons solitários à procura de um tango argentino. Somos tragédias fugidias. Patéticos como uma guitarra velha, numa música folk das antigas.

E como nos saberemos? Que tipo de coisa ou de bicho? A resposta é negativa: não saberemos. Dançamos num salão cheio, mas estamos sozinhos. O baile é nosso deserto. Mascarado, sei de mim, mas não do outro. Componho meu reflexo a partir do olhar de tantos, mas será que eles existem? Sociologia de corpos, mas não do que é íntimo. Fenecerá qualquer teoria social psicológica. Sou um ser consciente e solitário em meu próprio mundo. E o meu mundo são os meus pensamentos. Jamais pensarei com o que é do outro. Seremos ilhas sem ancoradouro, reflexos de mar em céu, de céu em mar. Mosaicos a serem vistos – mas sem espelhar-se, embora os espelhos sejam tantos.

Estrangeiros em nossa própria terra, exílio de nós mesmos, por mais que busquemos saídas, que inventemos mundos, que multipliquemos olhares, estaremos sempre em cima do muro. Volando como aves, boiando como peixes. À deriva de nós mesmos: somos incerteza.

Agarremo-nos ao pé das esperanças, nos apeguemos ao olhar do outro, inventemos novas histórias: fracasso, fracasso, fracasso. A vida é solidão. É simulacro de outras gentes – mas a verdade, esta também cruel como a vida, é que somos apenas gente sozinha com a gente mesmo.

Haverá um caminho que nos conduza ao conhecimento, como a filosofia do “conhece-te a ti mesmo” pretendia? A luz é tênue. Talvez exista, mas o tapete não será vermelho, será puído. E cruzaremos o espaço de luz já quando não houver saída: seja a vida mesma ou o palco do teatro – a sendo a última a metáfora da primeira. E cruzaremos em silêncio. Profundo silêncio. Talvez ocorram palmas, talvez com gritaria; mas palmas e absurdos, já não serão ouvidos. Não importa se saímos satisfeitos, o importante é o enquanto, é o período em que vivemos. Nada mais importa além dos espaços de dança que inventamos, nada além do movimento. Assim como importa menos o velório do que a vida vivida.

Mais, muito mais, do que a correta interpretação dos signos, o que interessa é a beleza.

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6 comentários

  1. Felipe Fachini | 23 de Fevereiro de 2019 | 

    E a beleza é a arte, a arte de tudo, de escrever, de pintar, de dançar, de pensar, de sentir, de tocar e de tocar, e a solidão nunca será só com a arte, a dor nunca será dolorida, os corpos continuarão chocando-se com tamanha delicadeza, nos causará náuseas, sairemos dos eixos com a beleza do toque, do som da rudeza aliada à sofisticação, do que parece que vemos aliado ao que é.
    O belo é a simplicidade do que é puro, do que é arte, para tanto não estamos sós.

     
  2. Otávio Costa | 23 de Fevereiro de 2019 | 

    Show de bola o texto…

    Muito poético.

    Mas faltam fotos Flavião, como gerador de conteúdo alguns textos precisam de uma progessão visual.
    Esse era um deles.
    Quando for nesses passeios culturais aqui por sampa me chama que a gente faz as fotos.
    Depois da uma olhada nas que já fiz por ai afora:
    http://www.flickr.com/photos/otavio_photos/

    Aquele abraço!!!

     
  3. Natalia | 23 de Fevereiro de 2019 | 

    Flavio,

    O seu texto faz sentido para certas pessoas, que sentem a faltam de algo real. Por exemplo, uma delas quer libertar do mundo, que não lhe pertence.
    Concordo plenamente com Felipe Fachini.

    Continue escrevendo assim: um texto fantasticamente poético. Isto é de que você gosta. Então, não desiste de coisas as quais dão lhe prazer.

    Um abraço.

    O.B.S.: Ah, quase esquecei de alguma coisa, é que entrei no site da Deborah Colker, achei as fotos de dança fascinantes!!! Vou tentar ir ao teatro dela em mês de setembro aqui no São Paulo. Não sei que há alguma possibilidade de colocar um intérprete de sinais lá no teatro ou algo assim…

     
  4. Renata | 23 de Fevereiro de 2019 | 

    Flávio,
    Maravilhoso o seu texto. Prolongou em mim as sensações ( boca seca, coração batendo apressado) do espetáculo.
    abraços,
    Renata

     
  5. Fernanda Pequeno | 23 de Fevereiro de 2019 | 

    Parabéns pelo belíssimo texto! Nossas percepções do espetáculo foram bem parecidas: também fiquei muito emocionada e saí com uma vontade enorme de prolongar essa sensação tão intensa escrevendo. Mais uma vez, parabéns!

     
  6. Anna Guimm | 23 de Fevereiro de 2019 | 

    Sinceramente, Cruel não é pra ser analizado é simplesmente pra ser visto! Belo espetáculo o da Débora, e belo texto o seu, Flavio! Parabens a ambos!

     

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