Avanços ou retrocessos no Ensino de Filosofia em São Paulo

Por Flávio Tonnetti

Convencidos de que a educação paulista está entre as piores do Brasil – apesar de São Paulo ter, por conta da arrecadação de impostos, a maior verba, dentre os estados da federação, destinada ao ensino público – o governo José Serra decidiu tomar providências.

Uma delas, que afeta diretamente a função do professor e que interfere na condução dos estudos dos alunos, foi a elaboração de um material de recuperação em formato de jornal, no qual todas as matérias estão contempladas. Apesar de ser destinado à recuperação, muitos dos conteúdos são visto pelos alunos como “novidades” – o que serviria ou para apontar a defasagem no ensino dos alunos ou a inadequação do material – ou ambas.

Antes que o material fosse enviado às escolas, esteve disponível no site da secretaria de educação certo conteúdo programático que os professores deveriam seguir – uma espécie de sugestão não diretamente impositiva.

Ao que me consta, os conteúdos previstos para a disciplina de Filosofia estavam, neste programa, adequados ao Ensino Médio. E eram bem distribuídos no decorrer dos bimestres – situação muito diferente da disciplina de Física, por exemplo, para a qual se previa o ensino de tópicos Clássicos e Modernos – extensão de conteúdos que dificilmente será cumpridos integralmente, já que, no Ensino Médio, o trabalho do professor de física fica reduzido a uma jornada de apenas 2 aulas semanais por turma.

Menos carregado que o de algumas matérias, o programa sugerido para Filosofia possibilitava espaço, inclusive, para que o professor de Filosofia pudesse trabalhar tópicos que mais dominasse, que mais se interessasse ou, mesmo, que julgasse mais necessários para aquela comunidade escolar.

No entanto, o material didático, enviado para as escolas neste início do ano, impossibilitou que essas escolhas profissionais fossem feitas. O material, que chegou pronto, desconsiderou a multiplicidade de realidades de nossas escolas, e mesmo de nossos professores, e engessou, de certo modo, o trabalho docente.

Um ensino apostilado, nestes moldes, no qual o professor não é mais do que um executor de tarefas, faz com que a dimensão do trabalho docente se reduza, ou mesmo se perca. É como se fizéssemos parte de uma vídeo-aula. Fantoches numa caixa furada.

Embora o envio deste material pudesse significar um pequeno avanço, já que o “jornal do aluno” poderia ser tomado como o primeiro material didático de apoio que é enviado pelo governo para a disciplina de Filosofia – isto porque dentro da escola, todas as outras matérias sempre tiveram livros didáticos, o que não acontecia com a disciplina de Filosofia – sua utilização, como se exige que seja feita, é um retrocesso. É um retrocesso porque é anti-filosófica. Ao restringir o pensamento e o conteúdo a ser aplicado, deixamos, neste momento, de fazer filosofia.

Agrava-se ainda o fato de que o material foi, claramente, concebido para um típico jovem de classe média – ou mais que isso – e não para um aluno com o perfil da rede pública. Os textos abordam realidades muitas vezes distantes ao jovem, como o uso de “msn” e outras tecnologias – muitos dos jovens não tem acesso ao computador. Já que o intuito era aproximar o conteúdo ao universo do jovem, melhor seria utilizar uma aproximação via mídia televisiva, a qual todos, sem exceção, estão expostos.

O uso e a escolha dos textos também me pareceram inadequados em alguns momentos. Os textos estão por vezes mal diagramados, ocasionando confusões, como ocorre com um dos fragmentos de Marilena Chauí, retirados de seu famoso livro didático – o “Convite à Filosofia”. Se para a discussão sobre a finalidade da Filosofia a escolha do fragmento é acertada, o mesmo não ocorre com o que é utilizado para o tema política. Isto porque, neste ponto, Marilena não é muito precisa, nem muito clara – algo com o qual Olavo de Carvalho, certamente, concordaria. Para o tópico política, por exemplo, mais interessante do que o texto de Marilena, poderia ser um outro que falasse sobre a divisão do Estado em três poderes – Legislativo, Executivo e Judiciário – algo que ensinasse aos jovens à especificidade de cada função e que os ajudasse na hora do voto.

O fato de que os livros didáticos de Maria Lúcia Aranha e Maria Helena Martins não tenham sido lembrados – e que são reconhecidamente mais adequados aos jovens do Ensino Médio que o Convite de Marilena, que é melhor ao Ensino Superior – também me incomodou bastante.

Outra coisa que incomoda é a utilização de traduções francesas no caso de Nietzsche, que é um filósofo alemão. Isso dificulta o próprio roteiro de leitura que incita os alunos a fazerem especulações sobre o autor a partir de alguma informação que se tenha dele – e que poderia ser tirada da referência bibliográfica. Por conta disto, muitos alunos pensam que o tal Nietzsche era francês, por conta da citação da edição francesa. É preciso então explicá-los que o senhor Paulo Micelli, tradutor, muito provavelmente não sabia alemão, que era a língua em que o filósofo originalmente escreveu as obras. Mas isso não justifica que o próprio tradutor evitasse citar, na referência, uma publicação em língua portuguesa. Entendo isto como um descuido, apenas, entre tantos outros.

O único pequeno sucesso que se poderia apontar no material, para a matéria de Filosofia, é que a interdisciplinaridade, que é prevista legalmente no PCN do Ensino Médio, acontece – ainda que timidamente. É, por vezes, forçada a conexão com a Geografia e a História, mas ela está lá.

E há também, neste sentido, a ênfase na escrita e na leitura. Ênfase que é, verdadeiramente, o ponto forte do material. Embora seja o ponto forte do material, não prevê que esse texto precisará ser corrigido pelo professor, e perde-se a dimensão de que a jornada de trabalho do professor impede que uma boa correção do texto seja feita. Talvez isto ocorra porque os elaboradores do material não tenham contato com a realidade do professorado paulista.

Não sabem que as vinte horas-aula, pelas quais o professor em jornada inicial recebe, são todas trabalhadas em aula. Não há, como para o professor universitário, um tempo remunerado destinado ao trabalho burocrático, ao atendimento de alunos fora do tempo de aula ou para a correção de atividades. Os pouco mais de mil reais que o professor recebe não garantem este trabalho pós-aula. Por isto, o ponto forte do jornal, que é o contato com a escrita, fica, por uma condição profissional do professor, prejudicado.

Isso sem contar a inocência, por parte dos organizadores do material, em acreditar que o material poderia ser aplicado aula a aula conforme o cronograma previsto, cronograma que claramente imagina uma circunstância universitária na qual o professor chega, fala e os alunos fazem, sem qualquer interferência entre as atividades propostas.

São estas as incoerências e ingenuidades que fazem com que não possamos levar a sério as promessas das novas gestões de ensino. Incoerente ainda é o fato de que o material está previsto para os segundos e terceiros anos, mas Filosofia foi, arbitrariamente, impedida de ser ministrada no terceiro ano do Ensino Médio. O que, é preciso que se diga, prejudicou a carreira de muitos docentes que ficaram sem aulas suficientes, tendo que recorrer a outras escolas, muitas vezes distantes de sua sede, para poder continuar lecionando dentro das exigências do Estado de São Paulo.

5 comentários

  1. Natalia | 18 de Janeiro de 2019 | 

    Que tragédia!

    Que tragédia!

    Que TRAGÉDIA!

     
  2. PROEDUC | 18 de Janeiro de 2019 | 

    ATENÇÃO RESSALTO QUE NOS ATUAIS ESCÂNDALOS DO DEPUTADO PAULO RENATO DEVEMOS LEMBRAR QUE A BARBIE DA EDUCAÇÃO SEMPRE FOI E SERÁ SEU BRAÇO DIREITO! E QUE A SENHORA SECRETARIA ADJUNTA, IARA PRADO, HÁ MAIS DE VINTE ANOS, EM SITUAÇÕES DE MANDO E PODER NAS DIFERENTES ESFERAS DA EDUCAÇÃO, NUNCA COLABOROU PARA ABSOLUTAMENTE NADA, ALIÁS SÓ FEZ PIORAR, ACORDA SÃO PAULO!

     
  3. Ricardo | 18 de Janeiro de 2019 | 

    Caro Flávio,

    Gostei muito do seu texto. Por indicação do Crítica Filosófica tomei conhecimento. É muito pertinente sua reclamação sobre o material didático de filosofia.
    Nós em São Caetano do Sul queremos discutir este assunto nas escola municipais. Estou querendo propor que o município disponibilize uma verba extra para o professor que não adotar o livro didático, no intuito de incentivá-lo a fazer seu próprio material ou selecionar textos de livros ou de sites como o seu, por exemplo. Levarei sua reflexão aos demais amigos no intuito de endossar esta idéia.
    O que você acha desta solução?

     
  4. Flávio Tonnetti | 18 de Janeiro de 2019 | 

    Caro Ricardo,

    Concordo totalmente contigo. Fica evidente que um governo que tem verba para imprimir um enorme e custoso volume de material também teria esta mesma verba para repassar às escolas para que fosse destinada a elaboração de um material próprio. Isso seria muito bom. Eu gostaria muito de ter à minha disposição uma verba para montar meu próprio material, adequado às necessidades das escolas que venha a dar aula. Hoje, muitos professores fazem um rateio do valor das xerox com os alunos, algo que do ponto de vista logístico, é, para dizer o mínimo, muito complicado – além de ser passível de punição legal, como já aconteceu. Como imprimir provas e apostilas se o estado não manda dinheiro para isso? E como fazer atividades se pedir dinheiro para os alunos é ilegal? Espera-se que o professor tire o dinheiro do próprio salário, e isto é inaceitável. Envio de verbas para este fim específico é uma medida política muito simples, mas que os sucessivos gestores estatais ainda não tomaram. Talvez porque desconheçam por completo a realidade escolar que dirigem.

    Flávio Tonnetti
    http://www.ensino.blog.br

     
  5. FELICIANO JOSÉ | 18 de Janeiro de 2019 | 

    AH, TONNETI,

    Concordo quase que plenamente como o que dizes. Certamente, tens razão, sim. Porém, para mim, o mais grave é o fato da determinação radical de não se poder lecionar a disciplina Filosofia no terceiro ano do Ensino Médio (eu lecionei em São Paulo nos anos 2002, 2003 – era no terceiro ano). Com a mudança, pelo menos na fase de transição, o aluno que veria a disciplina somente no terceiro ano, com a mudança sairá do E.M sem vê-la. Teria que, responsavelmente, haver um planejamento no qual nenhum aluno fosse penalizado com a perda da disciplina.
    Muito embora, ao contrário do que eu penava inicialmente, sou de opinião que o jovem tenha acesso à Filosofia quanto antes, posto que se trata da ciência do pensar – o que deve ser feito através de ‘exercícios filosóficos’ – jamais através da História da Filosofia, esta deve ser destinada ao profissional da área, especificamente, e a quem já se decidiu pelo Vestibular para o curso de Filosofia, e para demais interessados. Pois, não é verdade que todo estudante do Ensino Médio fará vestibular para Filosofia, assim os conteúdos não devem ser aprofundados, muito menos demasiadamente, porém o professor deverá estar atendo para atender às solicitações dos estudantes que recorrerem a maior aprofundamento. Desta forma os conteúdos, não só de Filosofia, não chegariam a sufocar o aluno. O importante e necessário para o aluno do Ensino Médio é o acesso básico a todas as áreas do conhecimento, e não o seu domínio pleno; isto é tarefa do profissional, e que, por sua vez, o início desse compromisso se dá a partir de uma decisão pessoal oficializada no Vestibular. Antes deste momento não é justo nem humano o aluno aprofundar-se em todas as áreas do conhecimento como se fosse profissionalizar-se, simultaneamente, em todas elas. Para o professor, isto é algo sem propósito e para o estudante, algo alucinante, além de torturante – isto, talvez explique as desilusões e as evasões nas escolas. Voltando à função da disciplina Filosofia, o importante e necessário é que o aluno desenvolva a capacidade de pensar e não de memorizar pensamentos de filósofos. Para mim, a parte histórica da Filosofia, no caso do estudante, é complementar e dever ser ponderada (o mesmo não diria para o profissional em Filosofia), pelo simples fato de não termos visto no Ensino Básico, conteúdos da História da Matemática ou da Língua Portuguesa, mas a sua parte prática e utilitária. Isto é fato. No mais instalamos ou instauramos sessões de sadismo. A toda área do conhecimento e a toda atividade humana a Filosofia é necessária, e porque não dizer indispensável – somente assim se tem consciência e convicção dos nossos atos e feitos.

    FELICIANO JOSÉ/SE
    bacharel e licenciado em Filosofia, pela UFMG. Pós-graduando em Estética.
    contatos: fjosemaria@interpalco.zzn.com -(79-9961-7409).

     

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