Jornal do Aluno nas comunidades do Orkut

Por Flávio Tonnetti

O governo estadual de São Paulo elaborou um material para resolver a defasagem dos estudantes da rede pública de ensino. O material, que contemplava todas as matérias, nos moldes de uma apostila, recebeu o nome de Jornal do Aluno – já que sua forma simulava a de um jornal.

Durante todo o período em que foi utilizado – o primeiro semestre de 2008 – o jornal foi alvo de comentários e críticas em inúmeras comunidades do Orkut – o site de relacionamentos mais popular entre os brasileiros.

Muitas das comunidades que foram criadas tinham nomes curiosos que demonstravam muito bem a opinião dos estudantes em relação ao material ao qual tiveram que se submeter. Nomes como “Eu odeio o jornal do aluno”, “Vou queimar o jornal do aluno” e “Jornal do aluno O Caralho” encabeçam a lista das comunidades – demonstrando, para utilizar um eufemismo, o “desapreço” dos estudantes pelo tão alardeado Jornal.

Pode-se dizer que o conteúdo das comunidades gira em torno do desagrado e do escárnio. Contam-se, por exemplo, causos de estudantes que teriam rasgado o jornal ou nele ateado fogo no centro dos pátios escolares, outros que o teriam pichado e, ainda, utilizado como papel higiênico.

Em meio a esta miscelânea de desabafos estudantis, cumpre destacar um diálogo, presente em uma das comunidades, a respeito da prova que se realizaria após o término da utilização do jornal – prova que de fato ocorreu. Neste diálogo, presente num dos fóruns, dois estudantes diziam por que não iriam realizar a prova.

O aluno de nome Romütrekúù, elaborou o seguinte argumento, muito lúcido por sinal: “essa prova vai avaliar o aluno, daí eles fazem tudo uma baba só, e os alunos tiram notas boas, e daqui um tempo eles vão fazer propaganda na televisão dizendo que eles melhoraram a educação, daí a massa toda vota no governo atual porque eles melhoraram a educação, e a educação é o futuro, então seus malévolos objetivos estarão completados com sucesso”. E prossegue: “eu já decidi, posso me foder todo, posso ser o único, mas não vou contribuir com isso, vou deixar minha prova simplesmente em branco”. E clama que outros adotem a mesma postura: “vamos acordar, não se deixem levar pelo comodismo, ou pelo medo de serem renegados, isso é tudo o que eles querem, se libertem disso”. E cita, ao final de sua participação, o interessante filme “A Revolução Não Será Televisionada“, documentário que muito bem poderia ter sido visto em uma aula de História, dada por um professor que se recusou a adotar o conteúdo do Jornal do Aluno.

Outro, chamado Guilherme, diz, na seqüência: “nós jovens revolucionários (…) temos uma ideologia muito bem elaborada, temos idéias e nelas trabalhamos juntos! O que não é o caso de vocês! Vocês se preocupam demais com seu maravilhoso final de semana sentado no sofá, do que com seu país! Para vocês é fácil, pois para vocês tanto faz, aposto que muitos aqui entraram nessa comunidade porque virou moda criticar o governo! Para vocês vai ser mais legal tirar uma boa nota na provinha do governo e chegar orgulhoso na mamãe e dizer que você não vai precisar ficar na escola no final de semana… Antes ficar na escola no final de semana, do que me vangloriar de uma conquista estúpida elaborada pela burguesia”.

Os dois alunos demonstram uma consciência política, e de classe, muito incomum em outros estudantes. Repare que não está em jogo o não comparecimento no dia da prova – atitude que poderia ser tomada como fuga – mas sim uma postura ativa, uma escolha de ir até a escola no dia da avaliação e, estando lá, recusar-se a fazê-la, deixando-a em branco. Há por parte destes alunos uma escolha, uma determinação, de não se render ao que foi arbitrariamente imposto. Postura sócio-política muito valiosa.

O post do jovem Guilherme, particularmente, é dirigido aos outros membros da comunidade que comentavam sobre o medo de deixar a prova em branco, porque havia a ameaça de que os alunos que tirassem notas baixas ou não realizassem a prova deveriam fazer recuperação no contra-turno escolar ou aos sábados; o que evidentemente é uma grande mentira contada aos jovens, já que no instrumento mesmo de avaliação – a própria prova – não havia campo para o nome do aluno, demonstrando assim que a avaliação era destinada às escolas e não aos estudantes – estratégia totalmente de acordo com as novas políticas estaduais de punir e premiar – ou punir e vigiar – as instituições com pior e melhor desempenho, respectivamente. Embora falsa, a informação foi eficaz ao fazer com que os estudantes comparecessem a prova e se predispusessem a fazê-la. O medo ainda é a melhor maneira de governar.

É preciso mesmo rever a idéia de que a educação será resolvida com este tipo de medida: a elaboração – e imposição – de um material deslocado do cotidiano escolar e que visa a padronização do ensino em todo o estado. Dentro da estrutura da rede pública existem estudantes extremamente diferentes. No caso dos dois comentados acima, até que ponto podemos dizer que a educação fracassou? Com a visão de mundo apresentada por eles é difícil dizer que tenhamos fracassado como educadores, mas é igualmente difícil afirmar que este sucesso de consciência política seja devido à escola. Pelo conteúdo do Jornal do Aluno ficou evidente que o estudante imaginado é um estudante ingênuo, imaturo. E esta realidade nem sempre é verdadeira, mesmo porque muitos têm que lidar desde cedo as realidades do mundo adulto. E é preciso fazer a denúncia que se deriva disto: quem elaborou o jornal desconhece as realidades da escola pública.

A crítica dos alunos ao Jornal, bem como as críticas apontadas em relação à política pública em que o mesmo está inserido, mostra bem como este material e medidas estão sendo insuficientes para mudar a realidade da escola pública brasileira.

É preciso que se diga ainda, e por fim, que a prova realizada sequer exigiu os conteúdos do Jornal do Aluno, o que é o mesmo que dizer que os representantes do governo parecem não saber o que estão fazendo, ou o estão fazendo sem nenhuma coordenação – motora ou mental. Exigiram-se as mesmas habilidades que têm sido exigidas em outros testes similares: habilidade de leitura, escrita e cálculo; em testes de múltipla escolha e com uma redação final. Ora, para isto não precisamos de um novo material, nem de uma nova avaliação, basta que utilizemos os instrumentos que antes já existiam, e que não são poucos. Temo que, mais uma vez, o dinheiro público, que é nosso dinheiro, tenha sido utilizado em vão.

Em tempo: antes do dia de realização das provas do Jornal do Aluno, uma nova comunidade do Orkut já disponibilizava integralmente o conteúdo dos testes e informava os resultados do gabarito. A quem tenha interesse é possível acessá-la ainda. Quem tiver olhos que veja.

6 comentários

  1. Natalia | 23 de Julho de 2019 | 

    Que tragédia!

     
  2. PROEDUC | 23 de Julho de 2019 | 

    ATENÇÃO RESSALTO QUE NOS ATUAIS ESCÂNDALOS DO DEPUTADO PAULO RENATO DEVEMOS LEMBRAR QUE A BARBIE DA EDUCAÇÃO SEMPRE FOI E SERÁ SEU BRAÇO DIREITO! E QUE A SENHORA SECRETARIA ADJUNTA, IARA PRADO, HÁ MAIS DE VINTE ANOS, EM SITUAÇÕES DE MANDO E PODER NAS DIFERENTES ESFERAS DA EDUCAÇÃO, NUNCA COLABOROU PARA ABSOLUTAMENTE NADA, ALIÁS SÓ FEZ PIORAR, ACORDA SÃO PAULO!

     
  3. Alessandro | 23 de Julho de 2019 | 

    O JORNAL FOI UMA ESTRATÉGIA SIMPLISMENTE RIDÍCULA… OU MELHOR, CREIO QUE TINHA O OBJETIVO DE RIDICULARIZAR NOSSOS ALUNOS!!!
    TUDO PELA PROPAGANDA POLÍTICA… QUE VERGONHA!!!

     
  4. Regina Helena Lazari | 23 de Julho de 2019 | 

    Oi!!!
    “Quem tiver olhos que veja…” ótima frase pra mostrar o quanto essas provas são “mentirosas e enganadoras”, as escolas que querem mostrar que vão indo bem passam respostas para os alunos através do prof. coordenador da prova, tudo na surdina. Eu sei porque aconteceu na Escola que trabalhava e um aluno “consciente” chegou em casa e contou pra mãe o acontecido, não achando justo. A mãe procurou a DE e “politicamente” tudo foi resolvido. O aluno passou por mentiroso, pois os colegas quando foram chamados pra falar lá estava presente sua profª, diretora etc etc…resultado ficaram com medo e recuaram…e as ameaças!

     
  5. Maria Bernadete Souza Bisoni | 23 de Julho de 2019 | 

    Esse jornal do governo foi uma maravilha ….

    espero que voces continuem investindu nesse projeto pois foi uma maravilha e abaixou a meta de analfabetos no brasil….

    sem mais

     
  6. Rafaela Branda de Oliveira | 23 de Julho de 2019 | 

    essa porra desse jornal so encheu o meu saco e fez eu apanhar….quro que todos vao pro queinto dos infernos seu idiotas se fizerem essa bosta denovo eu os MATO….

     

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