O conhecimento como commodity

Por Flávio Tonnetti

Peter Drucker, um dos gurus da administração, muito conhecido por suas palestras corporativas de gestão, escreveu, assim como muitos outros “gurus”, sobre a “nova” sociedade do conhecimento. Em sua versão de mundo, presente em publicações como Administrando em tempos de grande mudança, o conhecimento é a grande commodity nessa nova ordem mundial. Pode, portanto, gerar riquezas e contribuir para o desenvolvimento de um país; pode alavancar mercados para corporações e empresas. Por ter um papel central, como produtora de conhecimento, a escola deveria, nesta concepção, ser o centro da sociedade.

Embora seja um dos motores da economia, e deva ter sua produção assegurada por governos e mercados, o conhecimento não é um produto como outro qualquer, pois altera as relações de produção: o operário tradicional não detém os meios de produção, já o “operário do conhecimento” – o intelectual, o técnico ou o especialista – leva sua ferramenta, que é a mente, para onde quer que vá ou esteja. Não há como explorar este trabalhador nos moldes tradicionais do aprisionamento dos corpos dentro da fábrica.

O operário do conhecimento fica à disposição do mundo, podendo vender sua mão de obra em qualquer lugar onde ela seja requisitada. Esse operário contemporâneo faz parte daquilo que Pierre Levy chamaria, com muito entusiasmo, de “sociedade planetária”. Uma Nação que invista em formação, portanto, servirá não apenas aos seus próprios interesses, mas formará um indivíduo que detém um conhecimento que poderá ser útil ao mundo, ultrapassando as fronteiras, servindo não apenas ao homem num sentido estrito, mas à humanidade num sentido ampliado.

Essas novas concepções de mundo, intimamente relacionadas ao desenvolvimento da sociedade baseada em Serviços, em detrimento de uma “ultrapassada” Era da Indústria – que teve como start up a publicação de títulos como a Terceira Onda, de Alvin Toffler – foram alardeadas como a promessa dos novos tempos nas décadas de 80 e 90. Hoje, na Era da Internet 2.0, as promessas, que deveriam ter se tornado realidade, estão muito longe, ainda, de figurarem como bem estabelecidas.

Qual é o sentido de falarmos em uma sociedade do conhecimento hoje? O que aconteceu com esses livros e manuais que fizeram parte da formação dos gestores que hoje ocupam as esferas de poder?
A escola, como presenciamos, está muito longe de ocupar o local para o qual havia sido destinada na década de 90. E o conhecimento, restrito a grupos pequenos, não atingiu a universalização que poderia modificar as relações produtivas.

O conhecimento especializado tornou-se um produto como outro qualquer, e seus detentores continuam sendo aliciados como os operários fabris: a ampliação de suas mentes não resultou na libertação de seus corpos: executivos trabalham cada vez mais, apesar, inclusive, das novas tecnologias – que deveriam também, em tese, ter libertado os homens do trabalho de longas jornadas.

Não apenas o conhecimento do tipo “especializado” não libertou o homem, como também criou um tipo de gente incapaz de refletir sobre suas ações e os efeitos dessas ações no mundo; pessoas incapazes de se apropriar do conhecimento para o bem viver, para a fruição, para o divertimento. Carecemos de uma educação para o conhecimento criativo, uma educação para o Lazer – como De Mais anunciou com seu Ócio Criativo. Mesmo que venhamos a nos tornar finalmente livres, o que é ainda mais nefasto é que, libertos, não saberemos o que fazer com nossa liberdade. Carecemos, portanto, de uma educação que ensine a ser livre.

As técnicas de administração, tanto quando aplicadas no setor público quanto no privado, em relação à educação, fracassaram. O conhecimento tornou-se uma commodity como todas as outras: mercantilizá-la só faz sentido quando visa o lucro à curto prazo; distribuí-la, apenas se atrelada à negociação. Mas o lucro maior estaria por vir, já que o conhecimento, como prometiam os especialistas em administração da década de 90, e como é aceito hoje sem contestação, é algo estrutural.

Devemos encarar o conhecimento do mesmo modo que encaramos estradas e aeroportos: precisamos deles para dar vazão à circulação de pessoas e produtos, o que significa que estradas e aeroportos não são produtos em si mesmos, mas são meios. O conhecimento, sendo parte da infra-estrutura, é necessário ao crescimento – cultural e econômico – já que é somente a partir dele que novas criações são possíveis – seja visando a criação de novos mercados e produtos, seja visando a emancipação do homem, emancipação essa que não deixa de ser um novo mercado, uma nova invenção.

Os preceitos da gestão executiva precisam ser retomados para que possam, finalmente, serem postos em prática. Para que cresçamos economicamente ou para que nos emancipemos como indivíduos, pouco importa. É possível mesmo que realizemos ambas as façanhas: cresçamos economicamente e nos emancipemos individualmente. Mais do que finalidades, nós precisamos é dos meios. É somente com ferramentas que criamos coisas.

3 comentários

  1. PROEDUC | 12 de Dezembro de 2019 | 

    AO MEU VER, INFELIZMENTE O ESTADO DE SÃO PAULO PERDEU A OPORTUNIDADE DE TRATAR A PASTA DA EDUCAÇÃO SEM POLITICAGEM. LEMBRO-ME NA ÉPOCA DA EX-SECRETÁRIA PROF. MARIA LÚCIA O INTENSO BOMBARDEAMENTO DA MÍDIA ESCRITA E FALADA. ATUALMENTE, COM A MÍDIA EMUDECIDA, O QUE PERCEBO É UMA SECRETÁRIA MAIS PREOCUPADA COM SEU PENTEADO DO QUE COM A EDUCAÇÃO. COMO A SENHORA MARIA HELENA GUIMARÃES ESTÁ BLINDADA, O QUE PODERIA SER MOTIVO PARA DESEMPENHAR UMA POLÍTICA DE EDUCAÇÃO SE TORNOU PLATAFORMA POLÍTIQUEIRA DO EIXO DO EX-MINISTRO PSDB PAULO RENATO. AQUELE MESMO QUE VIAJOU COM A NAMORADA ÀS CUSTAS DO DINHEIRO PÚBLICO. ENTÃO NÃO HÁ NADA QUE SE ESPERAR A NÃO SER A VALORIZAÇÃO DOS SALÕES DE CABELEIREIROS….

     
  2. Jorge Merhy Ferreira | 12 de Dezembro de 2019 | 

    Eu não vejo outro caminho que não seja o da cultura para nos tirar deste buraco de areia movediça, que nos encontramos. O que me conforta é saber que o Brasil ainda tem homens inteligentes e cultos como o senhor. Eu vejo, num futuro de curto prazo, um novo e perigoso apartheid, que será a fúria do “analfabeto funcional” sobre a “sociedade planetária do conhecimento”.
    Penso que pessoas como o senhor deveria ter mais espaço e mais pessaoas para se relacionar e conversar mais sobre estas questões, como a do conhecimento que é o grande produto deste 3º milênio.
    Acho que é por pessoas como o senhor que Deus ainda mantem esta escola chamada Terra funcionado. Abraços, Jorge Merhy.

     
  3. Natalia Frazão | 12 de Dezembro de 2019 | 

    Depois de ler esse texto, levei um tempão para refletir o conhecimento humano em relação do mundo atual.
    Ainda não cheguei ao ponto certo para entender bem o que aquele texto quer dizer, mas penso de outra forma que hoje, muitos homens que trabalham de administração e também de outras profissões mais cobiçadas, por exemplo, publicidade, engenharia, medicina, área de contabilidade, são bastante ansiosos para saber como vão ganhar mais dineiro, plano de carreira, sucesso profissional e enfim, só estão fazendo isso através da informação. Não por conhecimento, que é um dos recursos de aprendizagem muito importante para entender como trilhar no seu próprio caminho para se tornar livre ou ganhar uma liberdade para decidir a escolher algo bom, que lhes agrada. Pelo visto, que hoje é difícil mudar a mentalidade de homens para poder ter um tempo para refletir o que realmente quer, não só para si mesmos e também para fazer algo bom para outros. Isso pode exemplificar que um administrador quer melhorar o relacionamento da empresa com o meio ambiente para evitar algum prejuízo ou algum impacto contra todos, precisa aprofundar o estudo desse caso para adquirir um bom conhecimento e saber como usar algum meio para resolver esse problema. Quase todos nós fazemos tudo para resolver o problema pequeno “no tempo curto”, mas depois este problema ainda vai continuar, porque só pegamos alguma informação para resolver o problema e não queremos conhecer mais sobre isso.
    Consegue entender o que pretendo dizer?

    Abraços,
    Natalia Frazão.

     

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