Comunidades Quilombolas e Exploração Cultural

Por Flávio Tonnetti e Edgard de Freitas Cardoso

Uma vez por ano acontece no Rio de Janeiro, no Quilombo São José, região de Valença, uma festa em homenagem aos Pretos-Velhos – como são conhecidos os ancestrais jongueiros. Por conta deste evento, vão para São José, e lá se apresentam, grupos de cultura popular de diversas partes do Brasil. O Quilombo, a despeito de seus anos de existência, somente há pouco recebeu energia elétrica, avanço que pode ser atribuído à presença de certas empresas que se interessaram em patrocinar a festa.

A presença do capital para divulgação da festa, vindo de marcas como Petrobrás ou Natura, e também a presença de jornalistas que se servem do evento para fazer uma exploração turístico-televisiva, não foi suficiente, entretanto, para dotar a comunidade de um eficiente tratamento de esgoto. Mesmo a estrutura que a comunidade proporciona para receber visitantes em suas festas e celebrações não é, por falta de verba, suficiente – já que o número de visitantes, que lotam a comunidade quilombola nestas datas, é muito superior à estrutura que serve aos moradores – ousamos dizer que a estrutura é insuficiente mesmo aos que lá habitam.

Do ponto de vista dos usos do corpo, a experiência de quem visita o Quilombo é variada e intensa. Podem-se ver modos de ser e estar no mundo muito distintos da experiência que temos no cotidiano das grandes cidades. Vemos como é possível utilizar voz e gestos para criar uma nova gramática da vida. Entoam-se cantos que nos remetem às nossas ancestralidades e que de algum modo carregam, latentes, histórias de nossa miscigenação. São “histórias”, no plural, porque este registro ao qual temos acesso não é um registro único: a maneira como nossa cultura cresce, ainda, e se desenvolve, é vasta e depende das regiões nas quais ela é cultivada. Um exemplo muito visível é o que aparece nos diferentes modos de se dançar Jongo, dança que sofre variações conforme a localidade de origem dos jongueiros que estão na roda.

Embora a crescente presença dessas manifestações na mídia possa significar um avanço, é preciso perguntar-se sobre as mudanças sociais que estão ou não estão associadas a esta presença nos meios de comunicação. Afinal, quem lucra com este patrimônio artístico?
A transmissão da cultura deve visar principalmente as crianças. É somente pela educação que damos continuidade a um processo cultural, qualquer que seja. No caso de comunidades como a do Quilombo São José, essa educação de vivência – que não é uma educação escolar propriamente dita, mas uma educação de convivência com os mais velhos – nem sempre é capaz de dar a estas manifestações populares um caráter de cultura de mercado. Permanecendo como manifestações populares de uma gente brasileira muito simples, dificilmente transformar-se-ão em produto vendável. Os poucos grupos que são apropriados por agentes externos às comunidades, e por isto se prestam à geração de lucros e dividendos financeiros oriundos de apresentações em teatros e eventos culturais remunerados, não fazem com que estes ganhos sejam revertidos às comunidades, dos quais esses agentes externos se beneficiaram.

É preciso, portanto, uma discussão sobre o papel que esses agentes externos desempenham nas comunidades. E é preciso políticas públicas de valorização dessas culturas. Assim como são necessários modos de valoração dessas culturas que não sejam exploratórios, ou puramente eventos de marketing social. Embora o trabalho escravo tenha já sido “legalmente” banido das terras brasileiras, no caso da exploração cultural, certas comunidades quilombolas parecem sofrer, ainda, com hábitos que são resquícios desse ultrapassado modo de produção agrícola, herança difícil de ser vencida. O que é o mesmo que dizer que tais comunidades não conseguem se beneficiar economicamente de suas próprias manifestações culturais genuínas.

É preciso atrelar esta “exploração cultural” à elevação da escolaridade, não apenas das crianças, mas dos velhos que gestaram estas culturas e comunidades. É preciso, acoplada com a elevação escolar, e mais importante que esta, pensar numa elevação sócio-econômica dessas comunidades. Que grandes grupos de mídia se interessem por estas manifestações, que grandes corporações possam patrociná-las de algum modo, que governos possam de apropriar desta cultura para fins eleitoreiros, pois bem, mas que não se faça isto de modo depredatório, descaracterizando as culturas ou sem gerar bônus para os explorados. Não nos esqueçamos que, mesmo em se tratando de comunidades quilombolas, no Brasil, a escravidão acabou.

3 comentários

  1. willian | 23 de Julho de 2019 | 

    eu adorei este site, mais eu acho que devia ter uma parte só explicando comunidade quilombolas,e outra explicando exploração cultural.

    um braço para todos…

    tchal.

     
  2. Therezinha rosa bello de Souza | 23 de Julho de 2019 | 

    Estou ficando enlouquecida na procura de informações sobre a educação dos remanescentes quilombolas no Rio de Janeir, este é o tema da minha monografia sobre “Educação e Inclusão”. Não encontro literatura sobre Educação de escravos, negros, afro descendentes ou quilombolas. Porfavor me indique alguma bibliografia a respeito. Desde já agradeço a colaboração.
    Att, Therezinha

     
  3. Flávio Tonnetti | 23 de Julho de 2019 | 

    Therezinha,

    A dificuldade se deve ao fato de que não existem publicações sobre o tema. Por isso mesmo não é possível indicar-lhe uma bibliografia. Eu sugeriria que você mesma fosse a campo e escrevesse sobre o assunto, mas não sei se isso é viável para um trabalho de conclusão. Talvez para um futuro mestrado.

    Flávio Tonnetti
    http://www.ensino.blog.br

     

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