Estamos em greve

Por Flávio Tonnetti

Milhares de professores na Praça da República “A greve continua, Serra a culpa é sua”. Ao som destas palavras de ordem, cantadas como um bordão, milhares de professores e profissionais da educação ocuparam toda a extensão da Avenida Paulista e marcharam em direção à Praça da República, onde fica sediada a Secretaria Estadual de Educação. A marcha, que parou o trânsito da cidade, teve por objetivo pressionar o governo para que medidas incoerentes, em relação à Educação Paulista, fossem revistas.

Os professores, em greve deste a última semana, querem a revogação de decretos sancionados pelo governador. Os decretos impedem ao professor a possibilidade de pedir transferência para escolas mais próximas à sua residência e limitam a apresentação de atestados médicos para justificar faltas, contrariando assim o direito ao tratamento médico, assegurado a todo trabalhador.

A sanção de tais decretos foi o estopim para a greve, mas além delas, os professores reivindicam aumento salarial – já que não há reajuste há mais de uma década – e limitação do número de alunos em sala de aula.

Quanto ao salário, durante a passeata, professores pediam um mínimo de 3 mil reais, contra os atuais 1 mil reais para uma jornada em sala de aula de 20 horas.

Em relação ao número de alunos, professores pediam um limite máximo de 35 alunos por sala, contra os 40, ou mais, que são praticados atualmente.

A queixa dos profissionais da educação tanto em relação ao salário quanto em relação ao número de estudantes é mais que razoável. Para ser professor é preciso ensino superior, e para um profissional com ensino superior não faz o menor sentido um salário de mil reais, ainda mais se tratando de São Paulo, o estado mais rico da federação – e com o custo de vida mais elevado. Basta que lembremos que muitos dos concursos estatais para cargos que exigem apenas o ensino médio oferecem salários superiores a 2 mil. Além disso, o salário também não é coerente com a responsabilidade do cargo: um professor de Geografia ou Química, ao ingressar no magistério paulista por concurso público, será obrigado a ter, no mínimo 10 salas com 40 alunos. A responsabilidade por 400 vidas, é preciso que fique claro, não justifica um salário tão baixo. Basta pensar em um gerente de repartição, ou um diretor de empresas que tenha responsabilidade por 400 funcionários, ficaria claro para este profissional que um salário tão pequeno trata-se de uma afronta; mas é este o salário que ao professor se pratica.

O governo quer justificar o baixo salário pelo número de horas que trabalha o professor. Mas esquece-se que o professor quando não está em sala de aula tem que preparar suas atividades e corrigir os trabalhos desses 400 alunos – algo que lhe tomaria, semanalmente, muito mais de 40 horas.

O que faz o governo atual é atribuir o mau desempenho dos alunos à classe docente, e têm arrochado o cinturão em torno destes profissionais, mas sem nada dar em troca. Tal como está organizado o sistema de ensino paulista, fica impossível ao professor dedicar-se ao alunado: seja pelo salário que obriga o docente a dobrar a jornada ou arranjar outros empregos, seja pelas condições de trabalho que a rede pública oferece.

Penso que 35 alunos por sala seja ainda um número muito elevado para o exercício docente, caso o professor deseje criar relações com seus alunos possibilitando, no mínimo, que conheça seus nomes. A ausência de recursos e pessoal que dê suporte ao professor também aumenta seu trabalho: preparar textos, xerocar provas, reservar salas de vídeo, tudo isso é muito precário na escola pública, porque não há secretários ou inspetores suficientes para dar apoio. Até mesmo entrar nas escolas muitas vezes é um desafio, pois não há quem abra as portas para que o professor entre na instituição de ensino.

O governo paulista, perseguindo e atacando o profissional da educação, e não fazendo nada que contribua para a melhoria efetiva de seu serviço, não obterá uma melhoria no ensino do estado. Ao contrário, levando os professores à greve – única saída encontrada pela classe docente, já que o governo se recusa a negociar ou ouvir representantes do magistério – prejudica os jovens, bem como o desenvolvimento de uma sociedade letrada e esclarecida.

Tais medidas governamentais tiveram um único ponto positivo. Num cenário sindical onde forças e interesses estavam divididos, ou mesmo inoperantes, o professorado paulista conseguiu unir-se em torno de uma causa comum: a melhoria do ensino via melhoria das condições de trabalho. O governo, novamente, deu um tiro no pé. Será obrigado agora a enfrentar a classe docente, que reúne o apoio dos alunos e dos pais. A educação não pode continuar como está. A greve continua…

5 comentários

  1. Regina Helena Lazari | 17 de Dezembro de 2017 | 

    Sou professora aposentada em 2004 e estou plenamente de acordo com as manifestações da classe, não sou a favor de greve, (mas já participei e não me fez bem) pois acho que cada vez que o professor tem que ir para a rua (qdo queria estar na sala de aula)einvidicar, sua auto-estima fica abalada. Será que nossos governantes não vêem que isso desprestigia nossa classe? Ou já faz de propósito para pisar e depois impor castigos para a greve parar, como sempre foi? Isso aconteceu com Covas,Maluf, Quércia, Alckmim e agora Serra. O que mais acho absurdo é que os professores ainda votam “nesses cara de pau”.Professores, vou deixar uma mensagem para vcs: nunca sejam “meramente professores e sim Mestres”, só assim conseguirão ser respeitados, pois hoje nem aluno e nem família os respeita mais.Revejam sua postura, pois há muita diferença.

     
  2. Valéria Alvarez | 17 de Dezembro de 2017 | 

    O que é ser “mestre”? Não acho que é só o professorado que deveria estar na rua. Outras classes de grande importância social também são afetadas pela polítca do governo do Estado. A auto-estima do professor não fica abalada quando ele tem que ir pra rua. A auto-estima fica abalada com o discurso diário: está ruim porque o professor precisa capacitação. Será que somos realmente incapacitados ? A rede estadual fez um concurso para incapacitados? A maior parte dos professores de minha escola são concursados e a educação também não está bem. Nossa formação foi ruim?
    Acho melhor as pessoas refletirem: se a Secretaria Educação acha que seus funcionários são incapacitados, mais imcapacitado é quem seleciona incapacitados.
    Nosso país é capitalista e seletivo . A dignidade está ligada ao poder econômico.
    Ironicamente querem fazer uma escola socialista e de igualdade, a qual o aluno percebe ser uma farsa e por isso não acredita na educação como forma de evoluir.

     
  3. Regina Helena Lazari | 17 de Dezembro de 2017 | 

    Em partes concordo com vc, mas não acho que saimos da Faculdade ou de um curso de magistério preparados, os mais atirados vão à luta para dar qualidade. Alguns professores nem mesmo lêem um jornal, uma revista, ou mesmo procuram melhorar seus conhecimentos, a parte didática e disciplinar é nata no professor. Falo tudo isso porque comecei em uma escola com alunos paupérrimos e marginalizados conseguimos dar uma qualidade, e quando percebemos estávamos recebendo filhos dos professores em nossa Escola. Tudo foi possível, pois formavamos uma equipe, onde todos se comunicavam, sanando os problemas com soluções. Quando não existe união, não existe solução que não é o governo que dá e sim a Escola.
    Trabalhei tb em salas de magistério e concordo com o artigo de flávio, que os que tem mais dificuldades são os que procuram esse curso hoje já extinto, chamado de pedagogia. Alunas que nem mesmo sabiam ler direito hoje estão na sala de aula. Apesar de aposentada sigo tudo que acontece em termos de educação na minha cidade. Hoje sou Presidente da Associação de Professores, criada há 20 anos por nós, já com sede própria. E os professores associados? Não participam de nenhuma Assembléia daquilo que é deles, falta de interesse por palestras, por eventos…Não concordo com vc qdo diz que a dignidade está ligada ao poder econômico, pois qdo iniciei minha carreira sabia que economicamente não era viável, mas tinha no sangue o ser Mestre e até hoje continuo lutando pela educação. Não sei se entendeu meu ponto de vista, mas dei minha vida por um ideal. Quando me aposentei disse aos professores que ficaram ” continuem a luta, mas não esperem um busto em praça pública pelo que fez e faz, nosso monumento é ambulante, nossos alunos e ex-alunos”. Isso é o que recebo hoje como aposentada, respeito e carinho dos meus alunos, seja ele um mecânico, um médico, um professor…ou outra profissão qquer. Não sei se me fiz entender, mas estou com minha coluna travada e com dor…vou continuar escrevendo.

     
  4. Arthur Meucci | 17 de Dezembro de 2017 | 

    Revivendo novamente a passeata desta sexta-feira (27/06), com toda a sua força, me lembrei da que ocorreu na sexta-feira passada.

    O desespero do Governo é enorme. Enquanto estava na passeata, na consolação, eu escutava pelo rádio do meu celular a 89 FM, A Jovem Pan e a MIX. Ambas relatando, de forma irônica e pejorativa, o movimento dos professores. Na Jovem Pan o Sr. Emilio do nada chegou no ar e disse que “o professorado esta ganhando bem pela MERDA de profissão que ele tem. Por que um professor quer ganhar o mesmo que um contador, administrador, ou outro profissional com um trabalho decente?”. Esta é a visão do Pânico e da Jovem Pan sobre a educação.
    Na rádio 89 FM o programa “Fala Gente Fina com os Dedés” foi igualmente vexatório. Colocaram a professora de um dos personagens, o “piolho”, para simular a passeata. O apresentador Sandro Anderson dizia: Qual a reivindicação? Ela respondia: Não sei, estou aqui pela bagunça e pela folia.
    A MIX foi mais direta, e a todo momento chamou os professores de São Paulo de “Fominhas! Petistas vagabundos e caras de pau”. Repetiam algumas vezes durante a programação.

    O desespero da classe dominante é óbvio. As pessoas estão acordando. Percebem que toda a desgraça na educação paulista é fruto ÚNICO e EXCLUSIVO da gestão PSDB. Começou com COVAS e sua diretora de ensino Rose Neubauer, e continuou com Alckmin e Chalita e agora com Serra e Maria Helena. Com Quércia e Fleury São Paulo estava em terceiro lugar no ranking de qualidade na educação. Hoje esta entre os últimos. Só perdemos para Estados imersos na zona da seca. Como pode? Resposta: PSDB!

    Agora a propaganda dos tucanos paulistas usa do dinheiro público na tentativa desesperada de reverter a situação. Propagandas oficiais da maquina administrativa ATACAM os professores e fazem APOLOGIA aos infames decretos. Na rádio a publicidade rola solta. Na TV aos poucos. A mais-valia obtida através do salários dos professores sustenta a propaganda contra os mesmos!

    Mas uma coisa está ficando clara: Em Alckmin e Serra SÓ BURRO VOTA!

     
  5. Natalia | 17 de Dezembro de 2017 | 

    Arthur,

    Sempre leio os seus textos do seu blog. Você sempre foi bom humor em escrever isso. Admirei muito de você, mas nunca fiz comentário no seu blog.
    Porém, você acha que adianta soltar as tuas palavras obscenas para aquilo?
    Percebo que coisas que a equipe de Pânico falou por meio de rádio, é absolutamente ignorante.
    Não adianta criticar tanto daquela forma. Porque o ato de critica ainda pode destruir o moral de todos,como inexistência de humanidade (não sei se vocês entendem o que é isto), porém não estou dizendo que ninguém pode se calar, sim pode dar sua argumentação ou sugestão sobre qualquer assunto importante.
    Não pode falar assim: Lula é bêbado, PSDB é de lado direita e elitizado, Marta é uma vadia e “relaxa e goza”…Que isso? Esses problemas são deles. De fato, eles perdem a consciência ao agirem desse modo ridiculo para outros, principalmente o povo brasileiro.
    Será que também nós nunca nos erramos? Temos pais perfeitos? Fomos ótimos alunos?
    Você, Flávio e outros jovens ainda têm tempo para fazer a melhoria de educação, parem de falar aquelas coisas, como pessimistas.
    Creio que vocês e eu já fomos testemunhadas ao todo tipo de violência da educação, como vi um aluno que agrediu e deu uma tremenda surra na diretora na escola. Eu fiz nada e só fiquei parada. Acha que ignorei isso? Não reclamei por essa violência?
    Não, tenho guardado muitas memórias horriveis na minha cabeça, todavia sempre procuro não falar disso, sim procuro a consciência em ajudar, fazer, pensar rápido algo para melhorar um pouco, não dessa forma “impossível”.

    Eu gostaria de que vocês falam menos e pensam mais nas coisas que podem fazer para o melhor. É para nossa humanidade. Não falem “impossível”. Podem achar que sou meio frágil ou delicada ao escrever isso, mas só estou lhes ajudando de algum modo útil para verem o que nossa realidade precisa mudar…

     

Escreva um comentário: