Fundão MTV, a escola escancarada

Por Flávio Tonnetti

Para Flávia Santos

Diferentemente do global “Soletrando” ou do tradicional “Passa ou Repassa” do SBT, que insistem em querem saber qual é o aluno mais inteligente, o programa Fundão MTV, comandado pelo apresentador João Gordo, toca uma questão menos direta: quer apenas descobrir quem é o menos burro. Estamos na busca dos sobreviventes, portanto.

Com o programa queremos saber qual foi o aluno que, apesar de todos os reveses da educação brasileira, principalmente os da educação pública, foi capaz de sair ileso e de passar impune. Por isto mesmo é que, dentro do contexto educacional brasileiro, o Fundão MTV é, dentre todos os programas do gênero, o menos hipócrita.

Nada de crianças bonitinhas. Nada de crianças comportadinhas. Nada de índices escolares dos “mais esforçados”. Embora haja equipes competindo tal qual o clássico “Passa ou Repassa”, o Fundão MTV segue a linha dos programas freaks comandados por João Gordo. Seus participantes muitas vezes se destacam já pelo visual exótico. São rapazes góticos, meninas super pintadas, manos do rap e roqueiros com camisetas em evidência. Estão lá os que se destacam na multidão. Os que têm alguma personalidade.

E João Gordo imita bem o contexto escolar do qual os jovens muitas vezes são oriundos. O apresentador faz um professor linha dura e boca suja, que humilha e maltrata os estudantes. Numa linha intimidadora, carrega sempre consigo uma régua de madeira com a qual bate na mesa, insistentemente. O cenário segue a diretriz do personagem: é uma sala de aula cheia de bolinhas de papel no chão e pichações na mesa, além de rabiscos e frases malcriadas nas lousas. O auditório faz às vezes de uma turma barulhenta de adolescentes, que grita o tempo todo, sempre ao comando do apresentador – como na vida real, em que os estudantes também gritam, ainda que o professor nem sempre tenha o controle sobre isto.

No início do programa, o professor-apresentador lê, para todos, a ficha corrida dos alunos-meliantes. Em geral esses históricos contêm atos de indisciplina muito comuns no cotidiano escolar. São contravenções que deflagram situações, em geral, muito engraçadas. Muitas das contravenções são interessantes, pois contém atos que visam o rompimento das amarras impostas à vida do jovem. São, portanto, contravenções interessantes do ponto de vista da ação social.

É uma pena que a maneira pela qual estes jovens participantes se destacam não está lá mostrada como “positiva” – o próprio nome “Fundão” faz alusão aos piores alunos, àqueles que gostam de ficar no fundo da sala de aula fazendo bagunça ao invés de prestar atenção ao professor. Embora ali estejam anunciados os piores, tenho o palpite de que os alunos do Fundão são os melhores. Ou ao menos os mais exemplares.

E nisso é preciso propor uma inversão de valores, ou uma inversão de olhar. Isto porque os alunos ali presentes são sobreviventes do contexto escolar, no sentido de que não se deixaram converter pela monotonia reinante das salas de aula. São os que foram capazes de se subjetivar e fazer da própria vida algo para além da escola, ou mesmo alheio a ela. Os que vão ao programa, embora sejam jovens como todos os jovens, são rapazes e moças muito interessantes. Eles têm história.

É por isso que o programa Fundão MTV é importante para entendermos o contexto educacional brasileiro: como paródia dos “alunos-problema“, no qual os alunos “do fundão” são os protagonistas. O programa joga por terra, portanto, a noção de “mau aluno”. No Fundão MTV é como se os jovens tivessem o destaque que mereceriam ter, destaque que lhes é sonegado dentro do contexto escolar. Se na escola eles são os piores, no programa de tevê eles são os melhores – mesmo que se saiam mal quando chamados a responder perguntas sobre conhecimentos gerais, língua portuguesa, história ou inglês – as de inglês com o auxílio de vídeoclips, numa didática exemplar.

No programa os alunos não tiram nota, apenas perdem pontos, rotina com a qual já estão acostumados. Na verdade eles ganham, mas o que ganham são pontos negativos. Quando perdem sofrem castigos, que vão desde levantar pesos – enormes livros pesados – até comer comidas ruins preparadas pela merendeira; ou ainda algo mais bizarro como apanhar de um personagem que os amarra, numa interessante conotação sadomasoquista que também poderíamos trazer para a análise do contexto educacional.

Embora nos ajude a entender o contexto escolar o programa não é, apesar de tudo, apenas um poço de virtudes ou um conjunto de maravilhas. E não é por conta dos palavrões, ditos o tempo todo, ou muito menos pelas atitudes e brincadeiras que facilmente seriam enquadradas como “bullying” pelos pedagogos e especialistas psi – estão lá brincadeiras como o “cuecão“, em que jovens pegam a cueca de um amigo e a puxam para cima, com o objetivo de rasgá-la. O programa peca apenas pois nele estão reproduzidos todos os preconceitos que têm os jovens, preconceitos difundidos e arraigados em nossa sociedade. Preconceitos sobre os quais o programa não pretende se pronunciar ou promover transformação. Ainda assim e também por isso devemos utilizar o programa para reforçar o nosso olhar sobre a realidade das escolas, pois ele mais uma vez deflagra.

Qualquer caricatura só causa o riso e só funciona graças às semelhanças que têm com o real. E a quem acha que o programa é apenas uma humilhação ridícula, o apresentador avisa: “é muito divertido aqui pá nóis”.

9 comentários

  1. adrix furix | 18 de Outubro de 2017 | 

    o objetivo do “cuecão” ou “chá de cueca”, é apertar a bolas da vítima e causar dor.

     
  2. Natalia | 18 de Outubro de 2017 | 

    “E nisso é preciso propor uma inversão de valores, ou uma inversão de olhar. Isto porque os alunos ali presentes são sobreviventes do contexto escolar, no sentido de que não se deixaram converter pela monotonia reinante das salas de aula (…)”. Bom pensado!

     
  3. Roberto Alves de Almeida | 18 de Outubro de 2017 | 

    o programa é bom de mais e divertido,eu gosto deste programa
    eu assisto todos os sábados.

     
  4. Roberto Alves de Almeida | 18 de Outubro de 2017 | 

    eu adoro este programa.

     
  5. vinicius | 18 de Outubro de 2017 | 

    Alguma coisa anda no ar um papagaio ou uma república?

     
  6. stephanei | 18 de Outubro de 2017 | 

    eu amo esse progarama naum perko nunka…
    gosto da emozada ai…

    oh—->gordo visita eu ai—> stephanie brito

     
  7. Esdras Aurélio | 18 de Outubro de 2017 | 

    primeiramente queria ressaltar que esse blog é incrível e com toda certeza o visitarei frequentemente. sou estudante de arquitetura e urbanismo, to no 2º período, e compreendo que dentro do ensino público e até mesmo o privado, há incoerências estruturais, que dizem respeito ao concreto e à pedagogia. portanto, parabéns pelos textos bem elaborados e criticamente construtivos [e construtores]. abraços e até mais ver. [rs]

     
  8. Giselle | 18 de Outubro de 2017 | 

    Por acaso enconmtrei isso aqui e realmente é muito interessante o programa… fui uma aluna do fundão e meu caro, nunca precisei usar blusas marcantes ou pinturas exageradas para mostrar minha personalidade. Abrindo um pequeno parentese a respeito disso sera que não caimos na malha hipocrita quando esteriotipamos esses jovens dessa maneira???… A ideia de levar problemas do cotidiano escolar para o publico e louvavel, porem qndo mostramos o outro lado da moeda… sera que o outro lado da moeda esta sendo mostrado? ou so o lado dos risos e da gozação???? ou sera que vamos continuar rindo quando jovens de “personalidade forte” decidirem queimar indios, prostitutas ou mendingos pelas ruas????????????

     
  9. Talita costa silva | 18 de Outubro de 2017 | 

    Ja fui aluna do fundão, e neste texto o que mais me chamou a atenção foi este trecho. ” Embora ali estejam anunciados os piores, tenho o palpite de que os alunos do Fundão são os melhores”.
    Todos nós somos capazes

     

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