Produção textual na escola: forma e conteúdo

Por Flávio Tonnetti

I

Os sistemas de escrita, bem como seus gêneros, têm sempre uma finalidade prática. Sempre. Escrevemos porque queremos algo, porque temos uma intenção por detrás do gesto. O ensino da escrita, portanto, deve visar o cumprimento destas diferentes finalidades. Elaboradores de livros didáticos, ou editores que fornecem material para treinamento de professores, todos eles, sabem disto: que cada texto tem uma vocação. O próprio texto didático tem uma finalidade, e por isto tem uma forma.

Reparar nas diferenças e semelhanças entre uma lista de compras, que serve a um determinado fim, e um poema, que serve a um fim bem diverso, pode ser algo instrutivo. Perceber que não é ao acaso que uma carta tenha um formato diferente de um relatório também. No caderno de matemática, uma conta de subtração, que, não nos esqueçamos, também é escrita, é radicalmente diferente de um conto de Machado de Assis. A mesma conta de subtração, no caderno de um mesmo aluno, já é bem diferente de uma conta de divisão, por exemplo. São registros textuais diferentes porque têm finalidades diferentes.

A forma se mostra intimamente relacionada ao conteúdo, que aqui prefiro tratar como finalidade. Neste sentido, o que penso é que, o professor de português deve procurar mostrar estes diferentes estilos de produção escrita enfatizando seus usos. Ao invés de ensinar um aluno do Ensino Infantil a fazer uma lista de um “modo geral”, porque não utilizar uma lista que ele realmente possa usar – de presentes que ele deseja pedir ao Papai Noel, ou dos programas infantis que ele assistirá quando chegar em casa.

Leve para a sala o jornal, para que se sinta a textura, o cheiro, o formato “da notícia”. Mostre o livro infantil reparando nas cores da capa, nos desenhos. Transforme o contato com a escrita em uma “experiência”. Veja as formas que têm uma placa, um anúncio, um texto que aparece na letra miúda da propaganda de tevê. Iniciá-los no universo do múltiplo textual é o desafio do professor de língua, seja ela portuguesa, inglesa ou francesa.

O acesso aos bens culturais passa pela identificação dos signos e da organização dos signos em seus diferentes registros. Desenvolvido isto, o aluno perceberá que cada sistema tem uma forma diferente de se organizar, e buscará por esta forma, buscará por esta organização sempre que for travar contato com um registro de escrita. Com isto ficará mais fácil para ele, com o tempo, perceber a diferença de gêneros quando chegar a hora de travar contato com o conto, com o ensaio, com o texto de teatro. Cada gênero tem “um jeito”, uma “cara”. E é preciso trabalhar com o maior número destes diferentes jeitos, com estas diferentes caras.

Sabemos que um texto teatral é um texto teatral, porque ele tem a rubrica, tem os nomes dos personagens no início das frases, tem a descrição da cena no início. Sua forma ajuda-nos a identificar a natureza a qual se destina. Sabemos que ele foi escrito para ser falado. Uma história em quadrinhos tem os balões, tem as sonoridades onomatopaicas, tem um tipo específico de humor. Sabemos que ele foi feito para ser visto.

E estes múltiplos registros devem ser trabalhados de modo que o aluno possa efetivamente se apropriar deles, o que significa que a fluência em um registro de escrita só se efetiva realmente quando se toma posse deles: quando se escreve. Apropriar-se de um gênero deveria implicar, ao menos na escola, em tentativas de reproduzir tais gêneros. Assim, como a criança que deve ser animada a escrever sua própria lista de presentes de Natal, o adolescente deve ser encorajado a exercitar sua escrita em seu próprio quadrinho, em sua própria peça de teatro, em sua própria carta de amor, em suas canções e poemas – dando a ele, inclusive, a possibilidade de misturar as linguagens às quais teve acesso. Uma experiência assim só pode ser enriquecedora. E divertida.

II

Se os professores de línguas devem oferecer o contato com a multiplicidade de registros de escrita, os professores de outras matérias devem, ao contrário, lutar pela especificidade de suas linguagens. O que não significa que os professores não possam criar pontes, que um professor de ciências, por exemplo, não possa ler um poema de Augusto dos Anjos para mostrar aos alunos como o poeta trata de química orgânica, por exemplo, com um verso como “filho do carbono e do amoníaco”.

Para enriquecer sua narrativa, e para evidenciar a presença de sua matéria em diferentes propostas discursivas, ele deve ser encorajado. Não quero, deste modo, me opor à interdisciplinaridade, quero, ao contrário, incentivá-la. Mas é tendo clareza do ponto do qual se parte que a interdisciplinaridade deve ser incentivada.

Um professor de Filosofia que utilize um filme em sala de aula tem que saber exatamente o que pretende com isso, ele não lança mão às artes por lançar, nem porque acha o filme bonito ou porque acredite que o filme possa ser “pedagogicamente estimulante”. Pode mesmo ser que ele acredite nisto, o que é muito bom, mas o recurso à linguagem cinematográfica deve ter como finalidade a tentativa de fazer compreender melhor as especificidades de sua própria área, as especificidades do discurso filosófico e dos temas que lhes são próprios. Semelhante deve ser o propósito do químico que recorreu aos poetas.

O que quero dizer é que cada matéria tem sua linguagem própria e enfatizá-la contribui muito para que o aluno perceba esses diferentes “idiomas”; para que perceba que na matemática “se fala” de um jeito, na física se fala de outro e que na geografia se fala de um jeito que é diferente do jeito que se fala na história. E que esses “falares”, esses modos discursivos, têm relação íntima com a finalidade desses discursos e com o tipo de materiais pelos quais eles se materializam. O geômetra tem os mapas, tem as viagens ao campo, tem as réguas. O artista também tem as réguas, mas as utiliza dum jeito diferente do geômetra, e têm os pincéis e as tintas. O historiador tem os documentos históricos. O matemático tem as fórmulas, os gráficos.

Mostrar como estas práticas discursivas se relacionam com os seus diferentes instrumentos e ferramentas, bem como com seus objetos de estudo, deve ser o desafio de cada área. O esforço deve ser no sentido de demarcar fronteiras – para que elas possam inclusive ser rompidas. Cada assunto tem um modo próprio de ser tratado, de ser abordado. Tornar isto claro ajuda o estudante a tomar posse desses diferentes registros. E aí já não estaremos apenas falando em um registro escrito, mas em linguagens em uma acepção mais vasta.

Neste sentido, o livro didático tal como é concebido e comercializado hoje, acaba impedindo esta perspectiva, já que traz de modo planificado e estanque os diferentes tipos de saber. Relegamos tudo ao livro e nos esquecemos que as linguagens, escritas inclusive, são suportadas por diversos veículos. Tudo acaba tendo a mesma cara, o mesmo jeitão. E as outras práticas, não só discursivas, perdem o seu sentido. É preciso recuperar esta dimensão do múltiplo, valorizando inclusive aquilo que é específico de cada linguagem. Evidenciando que forma e conteúdo caminham juntos. Forma e sentido se relacionam com a posição dos saberes perante o mundo, de quem os cria e de quem os toma.

5 comentários

  1. Eduardo Amaral | 17 de Dezembro de 2017 | 

    Caro Flávio: gostei do texto (como, de resto, gostei também do blog, que tomei a liberdade de incluí-lo entre os feeds no meu próprio blog). Penso que – de um modo geral – há ideias que nos são comuns, que vão montando uma espécie de “plataforma político-pedagógica” dos professores de Filosofia em meio aos revezes do ensino público. Parabenizo-o pela iniciativa – e vamos à luta!

     
  2. Natalia Frazão | 17 de Dezembro de 2017 | 

    Flávio,

    Era isso que fiquei lembrando do meu amigo de infância, que era simplesmente um gênio de críticas e acostumava dizer motivos que estava contra as professorinhas, como ele dizia “Professores de só A-B-C”, era escrever. Porque elas queriam que alunos escrevessem “de modo planificado”. Ele era contra isso, contra livros didáticos “sempre iguais e sem graças”.
    Meu amigo sempre ousava a inventar outro estilo de escrita e eu era aquela aluna que admirava-o mais que professoras. Comecei a aprender e pensar de verdade com ele sobre questão de educação e de escrita.
    Pode acreditar que naquela época, eu tinha uns oito anos de idade e ele, nove anos. Era o meu pequeno revolucionário de educação.
    Ao ler este blog, gostei muito.

    Natalia Frazão.

     
  3. Ana Arnt | 17 de Dezembro de 2017 | 

    Parabéns pelo Blog, é sensacional!!! Leitura agradável e de um assunto que muito me interessa: educação e cultura.

    Indicarei para meus alunos (Licenciatura em Biologia)…

    Abraço

     
  4. Zé | 17 de Dezembro de 2017 | 

    Linda reflexão… ainda não tinha vindo até aqui, mas de agora em diante prometo sempre dar uma passadinha!

    beijo

     
  5. ithalo | 17 de Dezembro de 2017 | 

    parabens pelo blog, que ta me ajudando muito ta valeu mesmo
    as minhas pesquisa ficam mais facil ta

     

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