Para o mau profissional de enfermagem

Por Flávio Tonnetti

Há uma dimensão dadivosa preservada ao ofício do profissional de enfermagem. Ele deve entender e alcançar a dimensão da vida no que ela tem de mais frágil. É com a fragilidade que ele lida, todo dia. Ele recebe, ele acolhe, ele limpa: ele acalenta. Ele está lá para cuidar: sua única e primeira função. Ele está lá para o outro, jamais para si mesmo. Enfermagem é sempre “para” alguém e nunca “de” alguém. E se o médico pode optar entre o doente e a doença, o enfermeiro não; para este último só há o doente, e não há nada para ser cuidado que não seja o ser humano. E ele melhora o ser humano. Ele que acalenta, melhora o ser humano naquele gesto que recebe, que acolhe e que limpa. Todo cocô, todo vômito, todo sangue; todo dia – tudo isso que sai das vísceras do ser, do corpo onde habita a vida – é recolhido e reconhecido pelo enfermeiro. Reside aí a metáfora mais bela da profissão, a metáfora diária do enfermeiro, que ele vive e sente cotidianamente: ao reconhecer o que é excremento do homem, ele reconhece também o homem, na sua condição mais visceral: ser que sofre. O enfermeiro pode então reconhecer-se em seu paciente: “estou vivo!” e “sinto e sangro e cago”.

Para meditar sobre o que é a vida, não é o filósofo, mas o enfermeiro quem tem as condições mais privilegiadas. E sobre isso faz reserva, pois sabe que também de reservas é cheia a vida.

E o profissional de enfermagem jamais se perde deixando que campainhas soem ou que telefones toquem. Atendendo prontamente, só permite que o silêncio se quebre pelo grito do bebê que nasce – ocasião de vida – ou pelo desespero do enfermo – ocasião de sofrimento; ocasião de morte.

Por entender essa dimensão grave do que é a vida, no que ela tem de mais frágil – por entender que a vida é pouca e ainda resta – é que ele vela. O profissional de enfermagem é aquele que vela. Por isso a enfermagem é o lugar do silêncio. Da prática silenciosa. Porque o silêncio é, em última instância, o respeito para com aqueles que sofrem, para com aqueles que esperam: pacientes.

Exceção feita às emergências de “vida ou morte”, o enfermeiro jamais grita ou fala alto, sobretudo à noite que é quando os doentes – seus doentes – dormem; ansiosos por descanso. Tampouco acende a luz dos quartos, durante as madrugadas, onde repousam os doentes, sem que haja extrema necessidade, pois o bom enfermeiro quer preservar o sono daqueles que vela – seus doentes que dormem – e jamais os acorda desnecessariamente.

Se não é lugar de barulho, a enfermaria também não é lugar de distinção. Não é lugar de orgulhos. Mendigo ou presidente, o enfermeiro cuida. E por não saber, e nem se importar em saber, quais méritos poderiam ter seus pacientes, o enfermeiro então os respeita, pois sua preocupação não está com as patentes, mas com a vida, presente em todos.

O bom enfermeiro é educado, pede licença. Não é ele, o enfermeiro, que precisa de ajuda, mas mesmo assim, ao ajudar, ele pede. Pois é ele quem entra no terreno do outro e, ao fazê-lo, é preciso pedir a licença para aquele a quem se invade. E ao pedi-la, o enfermeiro exercita aquilo que é uma das mais elevadas virtudes humanas: a humildade. Verdadeira humildade, que nada tem a ver com pobreza, mais com uma nobreza altiva, que faz do ser humano ser humano.

Metáforas perdidas, como não banalizar todo aquele vômito, aquele cocô, aquele grito? Jamais é negligente com o paciente, o bom enfermeiro: cagado ele não deixa. Atende prontamente; e, atendo-se ao ser humano, ele evita a fofoca enquanto limpa e a cara feia enquanto fala. Jamais deixa que os pacientes o chamem demasiadamente. Atento ele ouve. E atento ele atende.

E, se já faz de tudo para velar o sono daqueles que dormem, não poupará iguais esforços para melhorar a condição dos que despertam. Minimizar o sofrimento, eis a função não do poeta, mas do enfermeiro.

E se respeita o paciente, respeitará também, deste último, seus acompanhantes e familiares, pois sabe que, com o paciente, estes também sofrem.

Familiarizado com a fragilidade do ser humano, o profissional de enfermagem sabe o privilégio que tem de passar com uma pessoa aqueles que podem ser da vida seus últimos momentos. De acalentar uma pessoa nos dias que, se não os últimos, são, sem sombra de dúvidas, difíceis.

É por isso que há algo de religioso neste ofício, algo de missionário. Próximo à corda bamba entre o que é a vida e o que é a morte, o enfermeiro não dá conta só dos corpos, mas de algo sutil, psicológico. Algo que, sendo crentes, chamaríamos alma. Mas ao enfermeiro não requer religiosidade; crer no divino não precisa. Tampouco necessitará de artifícios do sobrenatural. É com a condição humana que ele lida. E, muito embora haja uma fé – fé embutida no oficio do enfermeiro – sua fé é outra: é fé na vida. Fé na vida, que se manifesta. Missão transformada em ofício.

Enfermagem é profissão de fé.

6 comentários

  1. Natalia Frazão | 16 de Agosto de 2017 | 

    Flavio,

    Eu gostei muito de seu texto, mas não estou dizendo que esse significa algo bonito nem a descrição pomposa da profissão de enfermagem, sim o seu jeito de escrever faz com que eu se lembre os fatos ruins que passei ao lado do meu perante no pronto-socorro…Ainda que continuo acredito que um dia alguma enfermeira ou algum enfermeiro tenha que lembrar que “a enfermagem é profissão de fé”.

    Abraços,

    Natalia Frazão.

     
  2. Marcelo | 16 de Agosto de 2017 | 

    Prezado Flávio,

    faço das suas as minhas palavras.

    Tenho fé em nossa profissão.

     
  3. Letícia de Oliveira | 16 de Agosto de 2017 | 

    Professor Flávio,
    Fazendo alusão ao que diz a Natalia Frazão, que me parece relatar sua experiência como acompanhante e também ao seu texto, declaro que apesar de saber que cada ser humano, indivíduo, tem sua própria essência, quero também registrar o quanto nós, profissionais de enfermagem, somos também desrespeitados e subjulgados pela instituição/empresa para a qual prestamos serviços, pelos profissionais de Enfermagem de nível superior, que nos “avaliam” e “acompanham” para não dizer “criticam” e “perseguem”, por puro egocentrismo e prazer em exercer um pseudopoder que lhes é concedido pela tal”hierarquia” imposta pelo conselho profissional à qual estamos (auxiliares e técnicos) subordinados. E que apesar destas verdades não justificarem qualquer atitude que possa lhe levar a denominarmos: maus enfermeiros, pelo menos (eu espero) que lhe permita compreender que se algumas ou muitas vezes, não somos aquilo o que deveríamos ser, é também porque sofremos de males terríveis, pois lidar com secreções viscerais, com as dores (quaisquer que sejam elas) ou até mesmo com a ignorância ( em amplos aspectos) de alguns familiares, fazem parte da nossa rotina e não são esses os nossos problemas. Nós também somos humanos, também sentimos dores, também adoecemos, também queremos ser respeitados e reconhecidos. Eu fico pensando o que será da sociedade, em um país onde uma instituição esportiva paga milhões para um atleta trabalhar de verdade, algumas horas por mês, enquanto inúmeros colegas de profissão trabalham quase 24 horas continuamente, sem ir na sua casa, sem comer decentemente, SEM DORMIR, pra receber no máximo 3 mil reais/mês (os privilegiados), Isso tudo não justifica a atitude de um mau enfermeiro? Não, não justifica! Mas certamente dá uma boa discussão.
    Obrigada pelo espaço e desculpe-me pelo desabafo.

     
  4. Soraia | 16 de Agosto de 2017 | 

    Prezado professor Flávio , refleti sobre o seu texto lido

    em sala de aula e penso que essa relação com o outro tem

    que ocorrer em todas as áreas , ou seja comprometimento

    com oficío da profissão..

    Abraços,

    Soraia , Pedagogia Diurno

     
  5. Danielle Brito | 16 de Agosto de 2017 | 

    Profº Flávio, realmente é difícil ser um bom profissional quando não se sabe o que se quer de verdade.Sem um porquê fica dfícil a pessoa se encontrar naquilo que está fazendo.
    É muito bonito quando a pessoa se entrega ao que faz e tem compromisso com aquilo. Na vida as coisas devem ter sentido, assim como em qualquer profissão, deve haver um muito mais que gostar, muito mais que querer, acredito que deve ser algo “por morrer!”

     
  6. Maria Bernardete de Andrade Resende. | 16 de Agosto de 2017 | 

    Boa noite!
    Gostei muito dessa material sobre; PARA O MAU PROFISSIONAL DE ENFERMAGEM.
    Gosto muito dessa profissaão, apesar dos espinhos, encontrados, fico a pensar, quando teremos valor?

     

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