A Educação como Setor Estratégico

Por Flávio Tonnetti

Não é mais possível justificar nossas mazelas a partir da juventude de nosso país. Basta nos lembrarmos de que os EUA surgem aproximadamente na mesma época e que o Japão recuperou-se de uma completa destruição em cerca de meio século. Aliás, alegar que somos um país em construção nunca me pareceu uma justificativa razoável para continuarmos a ser o que somos: um país de medíocres.

É seguro afirmarmos que uma série de condições históricas nos conduziu aos dias de hoje, e que características culturais que herdamos e que desenvolvemos continuam a contribuir para que não alcancemos um status maduro de civilização.

Para tentar reverter este quadro dos desígnios históricos, pode-se ainda insistir numa idéia já antiga, mas ainda válida, de que o desenvolvimento humano é possível através da educação – idéia herdada da paidéia grega e reafirmada nas eras subseqüentes por personalidades como Rousseau, Bacon ou Sartre; isso se nos atermos apenas a alguns filósofos, sem contar com outras personalidades oriundas de outros campos de saber humanos, como estadistas ou cientistas.

Essa idéia parece ser amplamente compartilhada por nossa cultura, crença amplamente difundida, haja vista a quantidade de pessoas que aspiram a uma formação no ensino superior, bem como a proliferação de entidades privadas que pretendem atender a esta demanda; e fomentá-la.

No entanto, em nosso caso, a crença na transformação proporcionada pela educação repousa na idéia de ascensão financeira e não de formação social. O que significa que, de um modo muito geral, acreditamos que a escolarização proporcionará ao indivíduo uma ascensão econômica fazendo-o destacar-se de seus concidadãos.

Em nossa sociedade a idéia de “educar-se” não visa um desenvolvimento social amplo, já que não pensamos numa dimensão pública, mas apenas privada. O projeto de um desenvolvimento nacional sucumbe frente à idéia de um desenvolvimento individual. Queremos a educação, porque sonhamos em “melhorar de vida”, mas queremos melhorar de vida sozinhos e não em sinergia com os habitantes do nosso bairro, cidade, estado ou país. O que me faz pensar que, talvez, além de medíocres, sejamos um povo de tacanhos e mesquinhos.

Por outro lado, se pensarmos nas resoluções do poder público, a instituição escolar continua a ser, a despeito de tudo que se possa dizer dela, a mais abrangente em nossa sociedade; e também a mais presente nos mais diversos rincões, se considerarmos que em qualquer lugar que possamos ir ainda encontramos um prédio escolar, o que raramente se passa com hospitais ou delegacias.

O poder público, portanto, pautado nessa idéia de que a educação é importante para o desenvolvimento social, idéia respaldada legalmente pela Constituição, inclusive, também se esforça em proporcioná-la, ao menos nos níveis da educação básica, numa tentativa sempre crescente de expandir este direito ao maior número de habitantes.

É evidente que essa boa intenção não se realiza plenamente e que o fato de termos prédios construídos e alunos matriculados não garante um real atendimento a esse direito, que é o direito ao acesso educacional.

A manutenção dessa estrutura escolar pode ser observada a medida em que os governos enviam verbas para garantir a manutenção predial das escolas e o acesso a equipamentos e materiais. Estrutura, portanto, é entendida como sinônimo de material e patrimônio. Os governos quando investem na estrutura escolar, fazem inversões financeiras que, no mais das vezes, visam apenas capitalizar as construções físicas, fazendo com que as instalações não percam valor predial e, portanto, investindo em si próprias e em seu valor de mercado – mercado imobiliário, e não educacional, que fique claro. O que deflagra um compromisso contábil e não propriamente educacional.

Para ocupar as fileiras dessa estrutura física, montando desta forma uma estrutura humana condizente com a magnitude da tarefa educacional, surge a perspectiva de investir em pessoal, em gente. E é neste ponto no qual começam os maiores equívocos e as maiores mazelas do campo educacional.

No caso do governo paulista, por exemplo, há um crescente investimento em formação de professores – já que todos tivemos que reconhecer que estes mesmos professores chegavam mal formados para o exercício da docência; e da cidadania. O mecanismo montado para garantir a formação destes profissionais mal formados, no entanto, não foi concebido adequadamente a fim de proporcionar a melhora social esperada por uma ação deste tipo: ensinar professores para ensinar alunos; ensinar gente para ensinar gente.

Esse insucesso, de uma estratégia social mal elaborada, fica claramente observado, no caso paulista, no qual as Regionais de Ensino contratam cursos de Instituições de Ensino Superior por meio de pregões públicos. Ainda que o Estado tenha dinheiro, nos pregões, graças à lei, ganha sempre o menor preço. As instituições que prezam em garantir uma qualidade de ensino, como as conhecidas USP ou PUC raramente rebaixam os custos de seus treinamentos no decorrer desses pregões e o resultado disso é que, quase sempre, as concorrências públicas, para formar professores, são ganhas pelas faculdades que formam mal.

Essas instituições “dúbias” de ensino, ou faculdades, quase todas privadas, enviam seus representantes legais ao pregão muitas vezes no mesmo automóvel, e são conhecidos os “acordões” feitos antes do início do pregão. Por conta disto, os professores que chegam mal formados retornarão ao mesmo tipo de instituição que foi incapaz de formá-los corretamente. A iniciativa estatal, sua boa intenção, a de formar professores mal formados, em tese, é boa, mas se mostra na prática totalmente inadequada, e mesmo prejudicial.

Fica claro que a crença, presente também na cabeça dos gestores públicos, de que o investimento na formação é importante, por ser conduzida de forma equivocada, acaba por perpetuar a situação de má formação e, ao invés de favorecer um desenvolvimento social, entendido numa perspectiva pública, acaba apenas garantindo a manutenção de certas instituições privadas. Também, nesse caso, a dualidade público-privado se apresenta, e mostra os dentes. A educação, por ser uma área estatal estratégica, não pode ser conduzida dessa maneira: com irresponsabilidade do Estado e à deriva do laissez-faire do mercado privado.

Os professores que, teoricamente, seriam beneficiados por essa formação, por sua vez, entram também na corrente individualista e se inscrevem nesses cursos geralmente com a única perspectiva de “marcar pontos” utilizando-os, através da apresentação de certificados obtidos nesses cursos de formação, para obter uma evolução funcional e implementar em alguns míseros reais o seu pequeno salário – utilizando-se de um plano de carreira estatal que incentiva a formação.

Fruto de uma sociedade que se desenvolve tendo como foco o privado e o individual, o sistema educacional só pode assemelhar-se à sociedade que o gera. Será preciso, portanto, replantar a árvore, utilizando uma outra semente para que uma coisa nova, e melhor, possa vir.

Se continuarmos assim, com um sistema educacional que apenas se ocupa em reproduzir a sociedade na qual vivemos, sem idéias de planejamento ou projeto visando um desenvolvimento social, e coletivo, careceremos de recursos humanos eternamente, e continuaremos a ser para sempre um país “ainda” em construção, um país muito jovenzinho; e que nunca se emenda.

2 comentários

  1. Natalia Frazão | 24 de Junho de 2017 | 

    Flávio,

    Tenho vontade de rir com o que Estado Brasileiro está fazendo: Investindo um monte de dinheiro para infra-estrutura das escolas ou universidades para cuidar o patrimônio e não para à formação de docentes. Isso é absurdo. Se investisse à formação dos professores, estes poderiam aprender muito mais coisas do que preocupar com o salário ou a reforma das escolas. Mas fique claro que eu não quero dizer que sou contra a reforma patrimonial das entidades educacionais ou o salário dos professores, sim estou preocupada com o desenvolvimento social e sempre penso como nós podemos construir isto com nossa responsabilidade e nossa consciência a fim de que todos nós possamos me tornar bons cidadãos.
    Mas parece que o Estado Brasileiro está rompendo com o Contrato Social, porque ele não dá mais um dos mais importantes benefícios ao povo, é a educação. Apesar de que esse povo obedeça à autoridade dele e se comporta com princípios estatais – por exemplo, ter que declarar o imposto renda, não tratar mal às pessoas de várias etnias, ter direito de acessar à escola pública e entre outros-, como tudo isso está tudo conforme a constituição brasileira, o Estado Brasileiro só faz o quer, como a sua própria vontade, não pensa nada mais em fazer uma “troca” para esse povo nem pensa nas conseqüências, como um desempenho de ensino ruim dos docentes e também um desempenho de estudo ruim dos discentes nas escolas, um gasto supérfluo à reforma das entidades educacionais, uma briga dos docentes por causa do piso salarial e entre outros. Talvez, isso possa parecer como um Estado de Soberania, deixando que o povo se resolva os problemas por a própria mão.
    Ou seja, o governo faz algo, que não é como a vontade ou a aceita geral do povo.

    Claro que não quero dizer que o Estado não ajuda nada ao povo, mas ele está mais focalizado ao Desenvolvimento Econômico no país de Brasil do que o Desenvolvimento Social.

    Flávio, tem razão pelo o que escreveu: “(…)continuaremos a ser para sempre um país “ainda” em construção, um país muito jovenzinho; e que nunca se emenda”.

     
  2. Michele Fonseca | 24 de Junho de 2017 | 

    Flávio,

    Parabéns pelo texto,excelente!

    Concordo com muitas questões que você abordou.Infelizmente a educação no país se tornou algo privado e puramente rentavél, tanto para instuições do Ensino Básico como principalmente no Ensino Superior.Existe uma preocupação em sempre ter e aumentar o número de “clientes”, sem se preocupar com a qualidade do ensino. Para que estimular o Desenvolvimento Humano e Social dos alunos? Para muitos envolvidos nesse esquema é mais seguro permanecer nessa bola de neve, do que porporcionar mudanças qualitativas e profundas.

    Mais uma vez, meus parabéns pelo texto!

    Michele Fonseca

     

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