Educação Musical e tecnologias de Educação a Distância

por Flávio  Tonnetti

 

.Buscando atender uma demanda social, o governo brasileiro promulgou uma lei tornando obrigatório o ensino de música na Educação Básica. A lei 11.769 institui, assim, o reconhecimento da música como conteúdo e prática cultural a ser preservada, mantida e ensinada para as novas gerações. Imediatamente criou-se uma nova demanda por educadores musicais, repetindo na música algo parecido ao que ocorreu em relação ao ensino de sociologia e filosofia, disciplinas que voltaram ao ensino médio também em virtude de uma lei no mesmo ano de 2008.

Para suprir esta demanda por educadores musicais, algumas universidades públicas e privadas passaram a complementar seus bacharelados com habilitações para o ensino e o fortalecimento, ou mesmo a implementação, de licenciaturas em música. Paralelamente a este fortalecimento de cursos presenciais já existentes, houve a adoção da modalidade de ensino à distância para formação de docentes de música – como é o caso da graduação em Educação Musical oferecida na modalidade de Educação a Distância pela UFSCar. Somadas estas ações, tudo nos leva a crer que num futuro próximo, graças à ampliação do número de licenciados em música, possa haver o oferecimento efetivo de música na Educação Básica e a garantia plena da realização da lei.

Diferentemente do que se possa pensar, o perfil do educador musical formado por cursos à distância pode ser ponto positivo quando este for encontrar seus pequenos alunos no contexto presencial. Isto porque, hoje, o mundo dos jovens estudantes é mediado pela tecnologia. Conteúdos on line e ferramentas tecnológicas são facilmente encontrados por aquele que se interessa pelo universo da música. Cabe ao professor de música manejar estas ferramentas e orientar corretamente seus alunos nesse universo de conteúdos on line – e nisto será favorecido aquele que teve uma formação a distância e que, por isso, foi obrigado a conhecer e a lidar com boa parte destas ferramentas, que hoje devem fazer parte do contexto tecnológico-científico em que o educador musical se insere. O contato direto com plataformas de comunicação e softwares de interação e produção de conteúdos pode ser um diferencial do educador, posto que os desafios para o ensino de música hoje ultrapassam as paredes da sala de aula.

O argumento encontrado por Daniel Gohn, em suas experiências com educação musical é de que o Ensino de Música encontra facilidades e desafios diferentes de acordo com a modalidade de educação ao qual esteja vinculado. Na educação à distância é preciso reconhecer que a relação com o corpo, que é algo muito importante no caso da música, seja entendida como um desafio (que se pretende resolver com práticas presenciais em laboratórios ou oficinas musicais dedicadas a vivências ao longo do curso). Mas também é preciso reconhecer que o contato imediato com ferramentas computacionais facilita o aprendizado da percepção musical, da notação musical, da edição de som e produção, além de aproximar o futuro educador musical que se forma em EAD das ferramentas contemporâneas de ensino, como a utilização de blogs e comunidades sociais dentro de uma perspectiva pedagógica.

Se por um lado encontramos facilidades, do ponto de vista do acesso às ferramentas tecnológicas, encontraremos dificuldades que deverão ser resolvidas com criatividade e que dizem respeito à questões de conteúdo: como utilizar o farto material existente na web de modo a cumprir uma estratégia de ensino e uma realização pedagógica coesa e consistente?

Além do conteúdo, há desafios que dizem respeito à forma e à postura na realização de atividades: como enfrentar a cultura tão amplamente difundida do copy e paste? Como aproximar os alunos do resample e do remix e ainda assim desenvolver uma postura autoral?

Tomando o mar como metáfora, ainda que estejamos preparados, com nossa habilidade de navegar e dentro deste barco seguro que escolhemos – a música – o futuro nos apresentará questões para coisas que estamos pouco preparados. Ainda que estejamos respaldados por um encadeamento pedagógico e por normas legais que regulem o exercício da profissão de educador musical, o mar desta profissão – que é também o mar da vida – nos imporá contingências, nos fará enfrentar ondas que nos pegarão mais ou menos de surpresa, conforme nossa habilidade de olhar para os lados. No balanço destas ondas poderemos querer saber algo sobre o papel desta formação que recebemos como professores e se ela terá impacto positivo sobre nossos alunos fortalecendo nossas relações com a música. No mar do ciberespaço, de que modo surfaremos com nossos alunos?

 

Como citar este texto

TONNETTI, Flávio. Educação musical e tecnologias de Educação a Distância. Ensino.blog. 2013. Disponível em  http://www.ensino.blog.br/2013/10/07/educacao-musical-e-tecnologias

2 comentários

  1. Shauan Bencks | 17 de Dezembro de 2017 | 

    Que ótimo.. e que ótimo que você voltou com o ensino.blog… estava esperando.

    Quanto ao uso das tecnologias, e ponto positivo da galera EAD, certamente por um lado e duvidoso por outro.. preciso pensar mais… pois o presencial está me mostrando coisas em meu corpo que eu nunca imaginei e que um encontro semanal talvez não me mostrasse.. assim como os papos dos corredores que geram aulas e projetos maravilhoso e muito bem fundamentados… e a tecnologia está lá também.. utilizamos o edmodo.com de maneira especial e as descobertas significativas acontecendo…

     
  2. MGF Arrte | 17 de Dezembro de 2017 | 

    Parabenizamos vosso texto.

     

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