Cultura afro-brasileira e educação musical na Escola

Por Flávio Tonnetti

 

Tanto a África quanto a Música vão à escola por força da lei. No Brasil, duas leis diferentes, aprovadas no final da primeira década deste século XXI, condicionam a inserção de determinados conteúdos culturais nos currículos escolares – que estiveram apartados da educação brasileira durante décadas. Uma das leis tenta recuperar a presença da música nas escolas; a outra prevê incorporar ao currículo conteúdos das culturas africanas, entendidas como constituintes de nossa própria história como matriz cultural – numa diversidade de culturas que perpassa nossa linguagem e nossos corpos.

Nestes dois casos temos uma revisão do imaginário cultural e daquilo que consideramos cultura dentro de um projeto de constituição de uma identidade nacional. Avaliamos quais são os legados civilizacionais que merecem ser preservados e transmitidos pela escola. Tanto no caso da inserção da cultura africana quanto na valorização da música, encontramos uma discussão envolvendo a noção de cânone. Toda vez que se propõe uma alteração do currículo nacional estamos, nestes termos, nos perguntando quais são as balizas de nossa cultura.

Tanto a inserção da música quanto a de culturas africanas encontrará desafios no que diz respeito à formação de professores em quantidade suficiente para atender a demanda. A promulgação das leis é importante inclusive no sentido de permitir que se criem cursos e políticas educacionais que possam atendê-las, com a criação de graduações visando formar professores com este perfil ou a implementação de disciplinas e programas no interior das universidades e cursos já existentes. Entendo, assim, o aparecimento destas leis como uma conquista sociocultural. A falta de professores para atendê-las evidencia como estes dois assuntos estiveram à margem – ou fora do cânone oficial – da nossa cultura. Trazê-las para o interior da escola é reconhecê-las no interior de um projeto nacional.

Mas a educação musical que quase sempre aparece neste contexto está sempre ligada a uma matriz cultural europeia. Quando pensamos em música como alta cultura, pensamos imediatamente no cânone europeu, sobretudo naquilo que se convencionou agrupar sob o nome de música erudita. Muitas vezes nos esquecemos que a música erudita europeia resultou de suas próprias matrizes culturais, presentes em raízes e tradições populares, para se constituir do modo como hoje a percebemos.

Neste sentido, os esforços de compositores como Villa-Lobos ou Guerra-Peixe merecem ser celebrados, pois, percebendo a cultura como dinâmica, desenvolveram uma linguagem musical a partir de nossas raízes mais profundas – o que significa, necessariamente, observar os ritmos populares. Ao fazer isso projetaram nossa cultura nacional na cultura mundial. No Brasil, uma reflexão sobre cânones musicais passará necessariamente pela música popular – campo no qual a contribuição africana se dá claramente com muita potência. Compositores tão diversos como Tom Jobim, João Bosco, Gilberto Gil e Tom Zé passam por esta discussão sobre cânones. E pela dificuldade de estratificar a cultura em polos separados – a cultura popular versus a cultura erudita.

Enquanto nos preocupamos com ensino de técnica e teoria musical, estas questões aparecem pouco no interior dos cursos de música, de modo que ficam à margem de um ensino oficial de música. A África precisa estar também inserida na formação dos graduandos de música, para que possam ver a cultura brasileira a partir de sua diversidade – que ultrapassa em muito a matriz europeia.

Isto contribuiria muito para levar até a educação básica alguns aspectos das culturas africanas por meio da música. Jongo, samba, congada e tantas outras linguagens musicais poderiam ser celebradas no interior da escola, mostrando aos jovens alunos a riqueza de nossas tradições. Temos muitas vezes uma visão antiquada de cultura musical – que evoca imagens de móveis rococós e conservatórios com papéis de parede. Precisamos respeitar os nossos tambores, a nossa dança, o nosso jeito de tocar viola e nosso modo de dizer as palavras quando cantamos. Assim poderemos, como educadores, tocar questões que de algum modo ultrapassam a música, mas que se relacionam de sobremaneira com ela: o reconhecimento de nosso cânone cultural.

Isto nos ajudará a refletir sobre aquilo que se espera do ensino de música no Brasil e contribuirá para relacionar o ensino de música à problemática das regionalidades culturais – discussões que permanecem em aberto.

Como citar este texto

TONNETTI, Flávio. Cultura afro-brasileira e educação musical na Escola. Ensino.blog. 2013. Disponível em  http://www.ensino.blog.br/2013/10/16/cultura-afro-brasileira-e-educacao-musical-na-escola

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