Mortos do Facebook: ensaio sobre memorialismo virtual

Por Flávio Tonnetti

O mundo digital abriu possibilidades para que a vida se manifestasse num novo espaço virtual. Nossas projeções de nós mesmos aumentaram os acontecimentos, registros e manifestações de nossas vidas. O que ninguém contava, no início dos mundos virtuais, é que também se converteriam em um novo lugar para a morte.

No espaço físico do mundo presencial, nos habituamos a lidar com os lugares geograficamente destinados à morte. Na cultura a partir da qual escrevo, criaram-se cemitérios, este tipo especial de lugar circunscrito no interior das cidades inteiramente dedicado a receber os mortos. Administrados por instituições, públicas ou privadas, são socialmente incorporados como espaços memorialistas. Mas de quem são os corpos digitais e a que lugar pertencem os mortos da internet? E como comportar os corpos virtuais vivos daqueles que entre nós morreram?

Os perfis de mortos no Facebook – e antes dele no Orkut – se tornam espaços memorialísticos que evocam de um modo radical a vida daqueles a quem pertenceram. Nunca antes um objeto memorial teve tanta potência em seu papel de representação da vida de quem está morto.

Objetos memoriais tem uma função de representação. Como signo, simbolizam a vida daqueles que se foram. Cruzes na estrada, lápides em cemitérios, anotações em pedras, marcas em árvores e quaisquer outras formas de celebrar os mortos, tentam recolocar uma presença para sempre perdida. Dão indício, deixam marca, constituem evidência de que por ali andou alguém.

Mas nem sempre os objetos memoriais recolocam uma presença. Há casos em que reforçam, de modo assustador e fantasmagórico, a ausência daqueles a quem representam. É deste tipo a expressão memorial que sempre me pareceu a mais aterrorizante: as bicicletas fantasma – ghost bikes. Resultado da vida urbana e solitária nas cidades, as ghost bikes são bicicletas que ficaram para sempre abandonadas no local onde foram deixadas, porque seu dono está morto. Cobertas de flores ou pintadas de branco, são sacralizadas por pessoas da vizinhança ou por amigos do morto. Ficam assim destituídas de seus usos cotidianos – por isso mesmo sacralizadas – e são retiradas, como objetos, do lugar ao qual pertenciam no mundo profano. Estas bicicletas perdem seu uso ordinário e saem de circulação como meio de locomoção, sua função primeira, e passam a representar a ausência de um ausente.

Os perfis fantasma do Facebook funcionam como objeto memorial de tipo duplo. Tem a função representativa da presença e da ausência, e nunca são meramente simbólicos, mas sempre possuem um caráter icônico, pois recolocam a vida ausente com suas características mais reais e contendo traços muito íntimos, reproduzindo a vida real de quem hoje é um morto não apenas na exterioridade dos aspectos físicos (como ocorre nas fotografias colocadas em túmulos ou nos cartões de enterro distribuídos em missas e velórios), mas também no que diz respeito a sua subjetividade, comportamentos, preferências e gostos – reapresentando assim uma identidade interior.

Memoriais deste tipo são tão potentes em sua realidade porque os mundos virtuais são em si mesmo reais – algo que frequentemente nos esquecemos. A vida virtual constitui uma realidade própria e não meramente um duplo do mundo presencial em que podemos nos tocar em nossos corpos. Os perfis virtuais são efetivamente perfis vivos, porque a vida virtual é, em muitos sentidos, uma vida ontologicamente real e isto nos é assombroso, sobretudo, porque no caso dos perfis de mortos chegamos a uma situação paradoxal em que o dono daquela vida a quem pertencia já não pode mais manipulá-la ou nela interferir. Somos confrontados pela primeira vez com a realidade de uma vida sem dono, e vemos manifesto um vivo sem consciência. O mundo virtual nos coloca finalmente em face a um paradoxo tantas vezes anunciado pela ficção científica – de Mary Shelley a Steven Spielberg.

Para recordar aniversários, para prestar homenagem póstuma ou para simplesmente interagir com eles recusando-os como mortos, estes perfis, como forma potencialmente viva e assumindo sua função memorialista, permitem que nos relacionemos com eles para sempre: amigos e parentes frequentemente deixam postagens com imagens de flores, frases de sabedoria ou testemunhos do relacionamento que tiveram. Ocupam, em certo sentido, o lugar dos obituários, dos livros de mortos e das cerimônias laudatórias dos velórios. Apenas em certo sentido, porque quando celebramos estas práticas memorialísticas nos relacionamos com a vida no que ela tem de corpórea – porque até então estamos habituados a entender o significado da vida como algo que depende da materialidade dos corpos.

Se ânforas encontram um lugar nos templos ou nas residências para relembrar a vida por meio dos restos mortais nelas contidas e os cemitérios constituem, na cidade, uma espacialidade de uso coletivo destinada a suportar carcaças, o mesmo não ocorre no ciberespaço já que não temos como transportar os corpos que se recusam a ser colocados num mesmo lugar e sobre os quais não temos qualquer controle. Podemos contornar esta situação agrupando-os semanticamente. Não tardará a surgir memoriais coletivos em espaços virtuais em que se possa reunir, a exemplo dos memorial parks construídos em praças, vítimas de guerra ou de uma mesma catástrofe. Páginas com perfis de mortos no interior do próprio Facebook e do Orkut tentam com muitas dificuldades executar esta tarefa. Num capitalismo virtual, não é de se surpreender que novos serviços funerários possam se ocupar desta nova seara mortuária.

Arqueólogos e historiadores do futuro poderão não apenas ler as biografias de grandes homens ou reconstituir as vidas de uma sociedade inteira por meio de documentos e objetos, terão acesso a vidas inteiras preservadas no ciberespaço tal qual eram manifestas.

O mais impressionante é poder perceber que no espaço virtual nós nos relacionamos com simulacros e vamos paulatinamente sendo substituídos por eles – como no realismo fantástico de Bioy Casares. No mundo virtual sempre estará pressuposto, em qualquer que seja a condição biológica de quem manipula os avatares, uma relação com um signo memorial. Neste sentido estamos no ciberespaço a todo o momento nos relacionando com mortos.

Como citar este texto

TONNETTI, Flávio. Mortos do Facebook: ensaio sobre memorialismo virtual. Ensino.blog. 2013. Disponível em http://www.ensino.blog.br/2013/10/18/mortos-do-facebook

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