Arquivo da categoria 'Mídia'

Mortos do Facebook: ensaio sobre memorialismo virtual

Por Flávio Tonnetti

O mundo digital abriu possibilidades para que a vida se manifestasse num novo espaço virtual. Nossas projeções de nós mesmos aumentaram os acontecimentos, registros e manifestações de nossas vidas. O que ninguém contava, no início dos mundos virtuais, é que também se converteriam em um novo lugar para a morte.

No espaço físico do mundo presencial, nos habituamos a lidar com os lugares geograficamente destinados à morte. Na cultura a partir da qual escrevo, criaram-se cemitérios, este tipo especial de lugar circunscrito no interior das cidades inteiramente dedicado a receber os mortos. Administrados por instituições, públicas ou privadas, são socialmente incorporados como espaços memorialistas. Mas de quem são os corpos digitais e a que lugar pertencem os mortos da internet? E como comportar os corpos virtuais vivos daqueles que entre nós morreram? Ler mais »

Educação Musical e tecnologias de Educação a Distância

por Flávio  Tonnetti

 

.Buscando atender uma demanda social, o governo brasileiro promulgou uma lei tornando obrigatório o ensino de música na Educação Básica. A lei 11.769 institui, assim, o reconhecimento da música como conteúdo e prática cultural a ser preservada, mantida e ensinada para as novas gerações. Imediatamente criou-se uma nova demanda por educadores musicais, repetindo na música algo parecido ao que ocorreu em relação ao ensino de sociologia e filosofia, disciplinas que voltaram ao ensino médio também em virtude de uma lei no mesmo ano de 2008.

Para suprir esta demanda por educadores musicais, algumas universidades públicas e privadas passaram a complementar seus bacharelados com habilitações para o ensino e o fortalecimento, ou mesmo a implementação, de licenciaturas em música. Paralelamente a este fortalecimento de cursos presenciais já existentes, houve a adoção da modalidade de ensino à distância para formação de docentes de música – como é o caso da graduação em Educação Musical oferecida na modalidade de Educação a Distância pela UFSCar. Somadas estas ações, tudo nos leva a crer que num futuro próximo, graças à ampliação do número de licenciados em música, possa haver o oferecimento efetivo de música na Educação Básica e a garantia plena da realização da lei. Ler mais »

Polícia Militar e o Fracasso da Ética

por Flávio Tonnetti

Ocupação da Câmara

Embora muito pudesse ser dito sobre o fracasso da ética nas ações do Estado durante os protestos brasileiros – as chamadas jornadas de junho de 2013 – o que me motivou a escrever este texto foi o que aconteceu durante a ocupação da câmara de vereadores do Rio de Janeiro em setembro, uma reivindicação popular que, como evento, podemos considerar como parte deste processo, como continuação da onda concêntrica das grandes marchas que levaram a população às ruas em luta por melhores condições de vida.

Esta ocupação, feita por professores na câmara de vereadores do Rio de Janeiro, tem um caráter paradoxal de difícil dissolução: ao mesmo tempo em que constitui uma reivindicação popular em oposição ou contra o Estado – que poderia ser traduzida na fórmula “Povo versus Estado” – é também um movimento de cisão no interior do próprio Estado já que os professores da escola pública são agentes estatais – traduzindo-se numa forma “Estado versus Estado”. Ler mais »

Metalinguagem: por que a Rede Globo é culturalmente tão poderosa.

Por Flávio Tonnetti

A Globo é, e parece sempre ter sido, a mais poderosa rede de televisão brasileira. A força da Globo não vem apenas de seu capital financeiro, mas de seu capital cultural. Conseguiu ao longo dos anos reunir um corpo de técnicos, escritores, apresentadores e atores de grande destaque – no caso dos atores, quando o virtuosismo não fala mais alto, é certo que a Globo consegue capitanear os mais belos.

Pelas competências que reúne, entre outras coisas, a Globo domina o mercado publicitário televisivo. É a mídia com maior alcance, e por isto mesmo a mais cara. A fonte de renda alimenta o talento e o talento alimenta a fonte de renda. É um círculo virtuoso, portanto. Este talento, é preciso que se diga, é um talento comercial. A Globo, embora seja uma empresa de entretenimento, não se presta a fazer objetos de “alta-cultura”. No entanto, faz muito bem aquilo a que se propõe: seduzir e dominar as mentes dos milhões de brasileiros que a assistem todos os dias.

Esta vocação de mercado que a Globo tem não a impediu, entretanto, de gestar obras-primas. “O Auto da Compadecida“, série que logo foi compilada em filme – e mesmo assim atraiu uma multidão aos cinemas brasileiros – nasceu na Globo. “Hoje é dia de Maria” também. Programas humorísticos ácidos como “TV Pirata” ou “Casseta e Planeta” – este último apenas nos anos iniciais – são outros achados – além do imortal Chico Anísio, claro. Atores como Lima Duarte e Tony Ramos pertencem ainda hoje a esta casa. Ler mais »

Fundão MTV, a escola escancarada

Por Flávio Tonnetti

Para Flávia Santos

Diferentemente do global “Soletrando” ou do tradicional “Passa ou Repassa” do SBT, que insistem em querem saber qual é o aluno mais inteligente, o programa Fundão MTV, comandado pelo apresentador João Gordo, toca uma questão menos direta: quer apenas descobrir quem é o menos burro. Estamos na busca dos sobreviventes, portanto.

Com o programa queremos saber qual foi o aluno que, apesar de todos os reveses da educação brasileira, principalmente os da educação pública, foi capaz de sair ileso e de passar impune. Por isto mesmo é que, dentro do contexto educacional brasileiro, o Fundão MTV é, dentre todos os programas do gênero, o menos hipócrita.

Nada de crianças bonitinhas. Nada de crianças comportadinhas. Nada de índices escolares dos “mais esforçados”. Embora haja equipes competindo tal qual o clássico “Passa ou Repassa”, o Fundão MTV segue a linha dos programas freaks comandados por João Gordo. Seus participantes muitas vezes se destacam já pelo visual exótico. São rapazes góticos, meninas super pintadas, manos do rap e roqueiros com camisetas em evidência. Estão lá os que se destacam na multidão. Os que têm alguma personalidade. Ler mais »

Um Capeta em Forma de Guri:
uma paródia bizarra dos alunos-problema

Por Flávio Tonnetti

Não há como definir algumas das “obras de arte” que a televisão nos oferece. O adjetivo mais adequado para algumas delas talvez seja o adjetivo “bizarro”.

O achado mais recente foi a paródia de um filme, estranhíssimo, feita pelo grupo Hermes e Renato: “Um capeta em forma de guri“. Trata-se de um tipo de paródia que altera os diálogos originais do filme, que ficou popular na internet graças a uma dupla de rapazes que gravou suas vozes por cima de um episódio da antiga série de tevê Batman e Robin – aquela em que apareciam as onomatopéias de briga em balões de texto: “Pá!”, “Pum!”, “Tcham!”. Ler mais »

Usando Malhação para aprender redação

Por Flávio Tonnetti

Muitas vezes professores relutam em trabalhar com conteúdos fornecidos pela mídia televisiva. São poucos os que aproveitam oportunidades de utilizar um Big Brother ou um programa de auditório para fazer uma reflexão. Quando ela ocorre, limita-se, no mais das vezes, ao noticiário.Nova protagonista de Malhação: aluna pobre chora ao ser acusada de roubo numa trama que anuncia conflito de classes

Uma boa oportunidade se apresenta agora com o início de uma nova temporada da novela vespertina Malhação. Explico. A novela, que muito se esforça para ser uma espécie de “bom moço” da televisão brasileira, frequentemente lança em seus capítulos questões éticas das mais diversas, numa tentativa de ensinar “bons valores aos jovens”. Mas neste ponto ela, infelizmente, fracassa, sendo um interlocutor muito fraco pra qualquer um que queira discutir conduta, direitos humanos, ou políticas sociais e ambientais dentro de uma cadeira de sociologia ou filosofia. Para estes fins, muito mais interessantes do que a “novelinha” são as “novelonas” – principalmente quando nas mãos de um Manoel Carlos ou de uma Glória Perez. Ler mais »