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Marcha para um Futuro Zen – sobre o espetáculo Marcha para Zenturo

Por Flávio Tonnetti

 

“O mais profundo é a pele”. Apenas através do toque é que podemos romper com a superficialidade das relações humanas. Talvez por isso, por propor uma ruptura nas superfícies estáticas e por instaurar um redemoinho nos corpos plácidos, que um simples toque, o roçar de uma mão sobre um rosto, instaure uma violência tão grande no universo quadrado e asséptico dos habitantes de Zenturo.

O espetáculo Marcha para Zenturo – criação do encontro entre o Grupo XIX de Teatro e o a companhia Espanca! – nos empurra para um progresso inexorável rumo ao futuro, colocando-nos face a face com pessoas que não se comunicam e que, no limite, não se encontram. Um palco com muitos atores em constante diálogo, mas que operam como se nos apresentassem pequenos monólogos.

Paródias de nós mesmos, os personagens de Zenturo, vivem alheios ao toque, numa vida que acontece desencarnada. Vivemos num mundo mediado por telas de cristal líquido e por aparelhos de comunicação celular. Fechados em bolhas, ou em páginas de comunidades virtuais, desconhecemos cada vez mais o que seja uma autêntica relação humana.

Ansiamos por uma calma Zen, em que o corpo não seja um obstáculo a emancipação da alma, em que reconhecer-se como humano não seja um fardo, em que a fraternidade não seja mais um compromisso ou uma obrigação que deva ser aceita ou mesmo celebrada, em que as paixões humanas não sejam mais um pathos, e em que possamos viver alijados dos outros e recolhidos em nós mesmos – solitários em nossas próprias esquizofrenias, e nos quadrados de nossos pequenos apartamentos.

A peça, que se passa em um único ambiente fechado, nos põe em confronto com os outros de nós mesmos. O inferno são os outros – e os outros somos nós. Num quadrado, no meio do palco, assistimos a história de uma jovem que recebe em seu lar um grupo de amigos que há muito não se viam. O encontro é motivado pela doença de um deles, para o qual a festa é oferecida.

Estamos no ano novo. E nesse tempo de mudanças e de esperanças renovadas, algo acontece para além dos muros deste apartamento: a cidade está pulsando. Lá fora, vívida, está ocorrendo uma manifestação popular como há muito não se via. Nesta ficção científica, que se passa num futuro do século de 2400, manifestar-se ou articular-se em grupo é ocorrência inédita, conhecida apenas através de relatos históricos – como coisa do passado, estas conglomerações articuladas remontam às manifestações populares de séculos anteriores, como as manifestações civis no Egito, ou os eventos esportivos ocorridos em 2014.

Distantes do nosso tempo atual, os personagens da estória desenvolveram suas vidas em torno de profissões antigas que, não obstante, estão transfiguradas: uma anfitriã historiadora, um fotógrafo, uma designer de moda, um médico – que é também advogado – e um pescador. Suas profissões, inseridas num tempo futuro, revelam uma das principais metáforas propostas pela narrativa: a tentativa de permanência de algo que já não se pode conter ou imortalizar.

A metáfora do tempo que não permanece, ou da História que se transfigura em ficções ou simulacros, está materializada no espetáculo através da presença cenográfica do gelo – elemento que é introduzido na peça por quase todos os convidados. Trazidos de diversos modos e entregues à anfitriã na entrada, os blocos de gelo vão tomando conta da cena e se espalhando, a cada novo convidado, por todos os cantos do apartamento. O único que não traz gelo consigo é o fotógrafo, o que não significa que não será capaz, ao menos, com sua máquina e seus snapshots, de “congelar” alguns momentos. E não se trata de levar o gelo para poder quebrá-lo. Não há nenhuma intenção aqui de “quebrar o gelo”, ou derretê-lo para aconchegar a convivência: trata-se antes de preservá-lo, para esfriar-se e também às relações, para manter as distâncias não apenas entre os corpos, mas entre os verdadeiros afetos da alma.

Mas existe um lugar para os afetos, representado pelos presentes – além do gelo – trazidos por cada um dos visitantes. Os afetos poderiam estar ali presentes por iconografia vintage como a de um coração de veludo ou uma poltrona verde de chenile. Mas ao invés de qualquer signo sentimental padrão, são introduzidos num ambiente ateu pela imagem do Cristo crucificado – um dos presentes trazidos pela estilista para a anfitriã, recolocando a questão do corpo, através do sangue, do suor e das lágrimas – idéia que será retomada mais adiante por outra personagem ao investigar o que é amor; amar é isto: abrir-se através do corpo, sentir-se vivo por meio da carne, ultrapassar a si mesmo nos limites da pele.

A mesma estilista traz sementes para o pescador – que podem ser plantadas em qualquer lugar, como paredes ou sabonetes – traz um bolso para o doutor-advogado, uma coleção de cartas para o fotógrafo, além do Cristo para a historiadora: todos objetos de lembrança. As sementes para enraizar, o bolso para guardar, as cartas para colecionar e compartir em jogos as emoções – como as do Cristo. Todos são objetos que exigem de permanência, retidão e tempo. Objetos de aprofundar relações. O fotógrafo traz como presente uma caixa de vime que não deve ser aberta – não ainda. Presente oculto ou esperança de Pandora? O advogado promete também uma surpresa que será anunciada. O pescador não nos traz nada, além do gelo, muito gelo, e uma arma de precisão para a pesca, uma espécie de espingarda velha. Vem trajado de jeans e camiseta branca, a mais banal de todas as vestimentas, a mais anônima e a mais singular, naquele contexto de coisas modernas. O pescador não traz o presente: traz o passado.

A estética do espetáculo nos impõe diálogos em que todas as falas entre os personagens ocorrem de modo assíncrono, como um delay, ou eco, em que não é possível escutar-se ou reconhecer-se – por isso a idéia de monólogo ou esquizofrenia. Estética que nos obriga a acompanhar um intenso balé de personagens, um labirinto em que não podemos reter nada ou congelá-los. A tarefa do fotógrafo fica mais difícil: como reter aquilo que não permanece estático? Ocorre um processo contrário ao da invenção de Morel de Bioy Casares, em que a fotografia é o passaporte para a imortalidade, em que congelamos a vida em sua integridade como modo de aprisioná-la em um lugar estanque.

Mas a vida também está aprisionada no quadrado gelado de Zenturo. A única segurança que temos nesse futuro contemporâneo é não nos apegarmos a nada, nem aos amigos. O gelo funciona como segurança, como na metáfora de Ralph Emerson, tão utilizada pelo filósofo da modernidade líquida, Zygmunt Bauman, metáfora que sugere que sobre a superfície fina de um lago gelado, a única segurança do patinador é viver em extrema velocidade: quanto mais rápido estamos, mais seguros prosseguimos. Se pararmos rompe-se o gelo, situação em que aprofundar-se significa a morte. Não há tempo para grandes mergulhos. Como não há espaço para os apegos.

Num mundo em que nada permanece e tudo derrete, não há nada o que reter, pois que todas as coisas já estão mortas de sede. Assim o pescador já não tem o que pescar – nunca sequer viu um peixe; talvez tenha visto um, relatado como uma sombra móvel sob as águas, mas disto nem nós, nem o próprio personagem, temos certeza. Talvez seja esta sua doença: buscar por alguma permanência, ainda que escondida, ainda que submersa. A modista, por sua vez, que dá presentes no tempo presente, está alheia a tudo que permanece – o mundo é veloz como a novidade, que se apresenta e que se esquece. Boa representação de uma pós-modernidade líquida, porque efêmera. Nossos sentidos – em sua sensorialidade ou sensualidade – estão deslocados num espaço-tempo indefinido e virtual. Nossos sentidos, nossa atribuição de significados padece do mesmo mal e vivemos num tempo em que não há mais tempo. Findada a morte como um projeto – no futuro seremos eternos – patinamos sem direção.

O médico não enxerga o paciente, para ele o humano é um conjunto de sentenças previamente descritas em códigos já estabelecidos, como estatutos e leis. Nesse sentido sua autoridade é a mesma do advogado, uma autoridade protocolar em que a performance conta mais do que aquilo para a qual foi preparada. Curioso como a autoridade de um discurso totalitário se mantém na vestimenta do personagem – sua camisa é decorada com cartucheiras de balas de fuzil; como aquelas dos velhos cangaceiros, ou militares em campanha. Mas se não há nada mais pelo que lutar, em nome de que nos levantamos? Do lado de fora ficamos sem saber para que direção segue a marcha popular.

Avistada pela janela, temos notícia de que uma mulher caiu no chão, e que houve fogo. Embora ocorra salvá-la, o contato com a multidão, impede que qualquer um dos amigos cruze as ruas para ajudá-la. Inertes na platéia, também nós, enquanto público, estamos fechados em nossas pedras de gelo. A anfitriã, que está grávida, não se dá conta de sua própria condição. O outro não é mais espelho que me reflete, e ninguém mais sabe o que é despontar para a vida. Nascer e morrer são coisas de um mundo distante.

O tempo escapa entre os dedos e escorre pelas mãos. Se tudo se perdeu, sobra-nos nos divertir com nosso próprio gelo, tocar-nos em nosso próprio tempo. O gelo escorrendo é a única experiência táctil autorizada: por isso o gelo é tão importante para a festa: é preciso sentir algo, mesmo que na condição desta impermanência em que nos situamos.

No encontro do não simultâneo, o amigo médico – lembrado pelos seus grandes presentes de fim de ano – contrata para os amigos uma peça de teatro encenada entre as quatro paredes do quadrado. O teatro dentro do teatro é a metalinguagem para nos lembrar que o que está sendo discutido não é metáfora, mas a própria condição humana. Os três atores, que chegam atrasados – culpa da multidão lá fora – encenam Tchecov.

O público então se surpreende com um tipo de encenação extremamente realista, um naturalismo profundo que rompe com a condição caricatural imposta pelos habitantes de Zenturo. Na peça russa, encenada ao modo delivery, dois irmãos e uma irmã discutem o envelhecimento, a duração dos afetos e as transformações da vida. Representam ali, para todos nós – para o público e para o grupo de amigos do futuro – um tempo de permanências, em que fazia sentido falar de luto e celebrar os aniversários. Tempo em que havia espaço para um toque de silêncio.

Findado o espetáculo, os atores tentam ir embora, mas por conta da marcha presente nas ruas não conseguem e são obrigados a retornar para o apartamento daqueles que os contrataram. A marcha das ruas é revolucionária, entre outras coisas, pois pretende fazer 30 segundos de silêncio no momento da virada do ano.

Trinta segundos é muito, e é por isso que quando retornam, os atores causam tanto constrangimento. Que é diminuído com apresentações quase formais, em que se dizem os nomes. Desobrigados de atuar, os atores causam o mesmo constrangimento interpessoal resultante do comportamento caricatural dos demais: são agora iguais aos seus contemporâneos. Está é a única ocasião em que há uma tentativa expressa e conjunta, por parte do grupo de amigos zenturianos, de “quebrar o gelo” – isto porque coisas já haviam sido partidas durante a encenação encomendada de Tchecov. Em um dos momentos posteriores – certamente um dos momentos mais líricos do espetáculo – o gelo é literalmente quebrado com a ajuda de um liquidificador aberto, presente secreto tirado da caixa de vime misteriosa, presente-surpresa trazido pelo fotógrafo – com o qual se faz voar centenas e centenas de migalhas de gelo que tocam as faces e os gestos de todos os personagens, cada qual se deixando tocar ao seu próprio modo pelos pequeninos cristais de água.

Nessa situação em que se reúnem dois grupos tão distintos, surgem alguns pequenos afetos, irritações e diferenças. Percebemos que enquanto para um grupo a situação é de reencontro – os amigos do apartamento – para os três atores a situação é de despedida. Após anos de convívio e permanência o grupo será dissolvido, pois um deles irá empreender uma viagem que o apartará deliberadamente do grupo. A obrigação de estar comprometido aparece como um fardo.

Quem se lembrará de nós? Esses encontros e desencontros, afinal, não nos legaram nada. Juntos não construíram nada. E o que sobrou desse encontro? Se para isso somos feitos: para lembrar e ser lembrados, de que modo seremos vistos no futuro: como aqueles que tentaram ou como aqueles que desistiram. Talvez tenhamos sorte se formos ao menos lembrados. A vida não tem sentido. E não há encontro possível nesse mundo de superfície.

Mas eis que surge um encontro inesperado entre dois daqueles que estão ali reunidos. Por conta dessas micro-discussões – farpas soltas pelo redemoinho dos afetos – descobre-se uma semelhança entre o pescador e um dos atores. Um deles também está doente. Um deles também gosta de caminhar a pé, não teme as multidões e sonhou em ter um barco. A solidão oceânica de estar sobre as águas é, afinal, a tentativa de inserir-se num todo. De abrir-se a experiência do coletivo. Fazer arte é isso, é entregar-se de braços abertos, sofrer nas agruras do corpo, deliciar-se em deleites, sensualizar-se e sensorializar-se. Viver é como a arte.

Cria-se então entre esses dois uma ponte: surge entre os dois o único momento de diálogo sincrônico, real e possível durante todo o espetáculo. Vivem a condição sui generis daquele que se comunica: abrem-se. E partilham do mesmo pão, e celebram algo e dividem a vida – através do pequeno bolo cênico preparado durante a peça dentro da peça: o delivery realizou a arte de entregar algum afeto, que afinal, não estivesse já pronto e que não fosse mera reprodução de algo vazio.

Mas Marco, o pescador, abre-se demais. Abre-se para além de si mesmo e em direção ao outro: encosta suas mãos na face da amiga. Horrorizando todos os outros presentes com seu gesto é constrangido. E acuado, como um ser que sente e por sentir reage, pega sua arma de pescador e ameaça os convivas. Marco, o único que é si mesmo, funda uma crise.  Marco está doente, e sua doença é ser íntegro.

Mas como é impossível ser íntegro num espaço fechado, Marco rompe em direção a platéia com suas pequenas pedras de gelo. Você está aqui? Ele pergunta. Sim, diz a moça da platéia, recebendo em suas mãos uma pequena porção de água congelada. Quem está aqui? Pergunta novamente o ator, voltando-se para todos os presentes. Outra porção de pessoas, então, levanta suas mãos num gesto singelo de que está vivo e participa. Não somos mais espectadores refletidos na projeção de um fundo falso, ou solitários numa câmera obscura. Somos nós também sujeitos e sentimos. Mas quem sentirá conosco?

Quando retorna ao palco, a sensação do outro trazida pela presença de Marco já nos abandona. De volta ao seu quadrado, a vida já não é mais possível. É preciso pescar um peixe, ao menos um. E marco, durante a contagem regressiva para o Ano Bom, usa sua arma como descarga, lançando-se para fora deste mundo. Marco suicida, entre um rumor e um silêncio. Mas já não sentimos nada, pois num futuro zen, estamos anestesiados.

Comunidades Quilombolas e Exploração Cultural

Por Flávio Tonnetti e Edgard de Freitas Cardoso

Uma vez por ano acontece no Rio de Janeiro, no Quilombo São José, região de Valença, uma festa em homenagem aos Pretos-Velhos – como são conhecidos os ancestrais jongueiros. Por conta deste evento, vão para São José, e lá se apresentam, grupos de cultura popular de diversas partes do Brasil. O Quilombo, a despeito de seus anos de existência, somente há pouco recebeu energia elétrica, avanço que pode ser atribuído à presença de certas empresas que se interessaram em patrocinar a festa. Ler mais »

CRUEL: Cia. de Dança Deborah Colker

CRUEL – um espetáculo da Cia. de Dança Deborah Colker

(ensaio crítico em dois atos)

Por Flávio Tonnetti Ler mais »

A Linguagem das Flores
de Federico García Lorca

Por Flávio Tonnetti

O teatro da vida é o teatro do tempo. E Lorca, como todo grande escritor, soube explorar muito bem este tema. E como toda boa montagem, “A Linguagem das Flores”, da Cia. Ópera do Mendigo, soube dar ao tema o tratamento por ele merecido.Teve o mérito, sobretudo, de preservar a atmosfera de Granada, e as cores de Alhambra. A aura do “castelo vermelho”, com seus jardins, é a citação perfeita para a passagem do tempo. Tanto sua coloração, que muda conforme o dia, proporcionando o espírito impressionista da catedral de Rouen, do pintor Monet, quanto os diversos passeios entre os jardins do castelo de Alhambra, ermos e convidativos aos namorados, montam a circunstância perfeita para discutir a passagem do tempo com a metáfora da rosa que muda de cor e desfalece em um dia. Ler mais »

Ballet na escola pública

Por Flávio Tonnetti

Celebrando um convênio entre a Secretaria da Educação paulista e a companhia de dança Ballet Stagium, as escolas públicas de São Paulo vêm recebendo apresentações itinerantes de dança. O espetáculo “Coisas do Brasil”, escolhido para tais apresentações, funda uma experiência nova de aprendizagem. Uma experiência não livresca.Cena do espetáculo 'Coisas do Brasil'

Utilizando outras formas de narrar que não a palavra, o balé nos ensina algo. Lembra-nos de que o corpo está vivo; e que comunica. Aqui, o gesto também é palavra e a palavra, não esqueçamo-nos, só acontece enquanto gesto: na voz que baila ou no papel pela mão cristalizada.

A coreografia deste espetáculo conta, com movimentos, a história brasileira desde suas raízes indígenas. Está tudo lá: desde a chegada dos portugueses até a abertura do Brasil para os capitais externos nas metades do século passado, particularmente os norte-americanos. Nem mesmo o movimento de migração em massa das populações nordestinas para o sudeste ficou de fora. Tudo dito sem palavras. Ler mais »